Descrição de chapéu Televisão Maratona

Na era do streaming, séries se esforçam para tornar os ganchos entre episódios mais complexos e atraentes

Há quem diga que as pausas dramáticas que dividem seriados entraram em crise com as novas formas de consumo de TV

São Paulo

Robb Stark, que se anuncia como candidato ao Trono de Ferro, participa de um banquete aparentemente amigável junto de sua mulher e da mãe, Catelyn. Notando um homem que veste uma armadura por baixo das roupas costumeiras e percebendo a emboscada, ela tenta avisar o filho. É tarde. Robb e a mulher são mortos a facadas. Inconsolável, ela encara o algoz de sua família e não percebe quando uma adaga desliza por seu pescoço. A tela fica preta.

Confusos e surpresos, os espectadores são confrontados por uma triste realidade: é o fim da linha para a casa Stark, já que suas duas figuras centrais estão mortas. Para entender a reviravolta e vislumbrar os novos rumos da trama, os fãs em 2013 precisaram ligar a televisão na HBO, na semana seguinte, no mesmo horário, para mais um capítulo da terceira temporada de “Game of Thrones”.

O retorno à série, movido por um desejo de saber o que acontecerá em seguida, é gerado pelos ganchos. Eles aparecem nos seriados televisivos em diversas formas —antes de um intervalo, no fim de um episódio ou como encerramento de uma temporada. Mas o gancho usado no episódio citado pouco se relaciona com seu conceito original.

“Os ganchos surgem com as séries de cinema, nos anos 1910, numa linguagem ainda primitiva. Era sempre alguém em perigo de morte, um vilão amarrando a mocinha no trilho do trem”, afirma Carlos Gerbase, roteirista e professor da PUC do Rio Grande do Sul, falando dos cinesseriados.

“Quando começam as séries de TV, elas seguem uma narrativa herdada das radionovelas, que, ao contrário das histórias de ação de antes, eram mais melodramáticas. Os ganchos deixam de ser sobre quem vai morrer e passam a ser sobre quem vai beijar quem.”

Com o passar dos anos, o suspense gerado por pequenas ações ou dramas deixou de ser relevante. Foi necessário desenvolver o gancho para que ele se tornasse menos pontual, mais complexo e que surtisse efeito ao longo de toda a temporada —ou série.

É o caso da cena de “Game of Thrones” que abre esta reportagem: o episódio termina com diversos personagens mortos e seus algozes já conhecidos. A expectativa criada no público não vem de uma ação interrompida, mas de uma complexa incerteza quanto aos rumos da trama. O que prende o espectador é a trama como um todo, não momentos específicos dela.

“Com a evolução e a segmentação do público, alguns roteiristas começaram a afrontar convenções da televisão”, diz Gerbase. “Algumas séries hoje se caracterizam por chutar os ganchos, mas chutando junto várias outras convenções.”

Segundo ele, essas várias mudanças que ocorreram no roteiro televisivo se intensificaram recentemente, graças ao streaming, que desfigurou o conceito de gancho. Se originalmente ele se caracterizava pela interrupção abrupta de uma ação, hoje ele busca maneiras mais sutis e psicológicas de fidelizar o espectador.

 

“O gancho clássico, que suspende uma ação, morreu. Os ganchos se sofisticaram e hoje consistem em, por exemplo, um final que indica que a história que estava sendo contada não é bem assim.”

Há ainda quem acredite que a cultura do gancho chegou ao fim, graças à inexistência de intervalos e à disponibilização de vários episódios ao mesmo tempo no streaming.

Esse foi justamente o diferencial alardeado pela Netflix quando o serviço estreou suas primeiras séries originais. Títulos como “Stranger Things” e “Dark” podem até ter finais intrigantes, mas a ansiedade é quebrada tão breve quanto o apertar do botão “próximo”.

E a novidade acarretou ainda uma mudança de comportamento no público. Se antes incertezas relacionadas aos últimos segundos de um episódio eram capazes de dominar rodas de conversa ao longo da semana que o separava do capítulo seguinte, hoje a ansiedade é facilmente quebrada.

Se por um lado essa nova possibilidade suscitou nos espectadores comportamentos pouco sadios —já ouviu falar em binge-watching ou maratona?—, por outro, ela trouxe maior liberdade artística para os responsáveis pelas tramas seriadas.

Há uma crise no conceito dos ganchos, segundo Rogério Ferraraz, professor na Universidade Anhembi Morumbi. Ainda assim, ele não acredita que eles tenham desaparecido por completo.

“Essa ideia de gancho interno ao episódio já não existe mais. Se existe é pela permanência das emissoras de televisão, que seguem um padrão mais convencional.” 

Ele inclui aí as novelas, que podem até ter incorporado características das séries, mas ainda precisam apelar a grandes incertezas para que o seu público ligue a TV dia após dia.

 

Quem não se lembra dos finais impactantes de “Avenida Brasil”, que até meme viraram, ao congelar os seus personagens em preto e branco ao som de uma trilha de suspense? “‘Avenida Brasil’ foi um marco por trazer elementos da série e do cinema, mas ainda assim funcionando em capítulos”, diz Ferraraz.

Este ano está sendo marcado por uma guerra de gigantes no streaming, que promete ser brutal e cara —seja para os criadores de conteúdo, seja para o público, que agora tem um leque de assinaturas a pagar.

As mudanças geradas por esse novo modelo podem até ter abalado as estruturas da TV, mas ainda é cedo para decretar o fim de algumas convenções, como os ganchos.

Prova disso é que, enquanto Neftlix e Amazon Prime parecem estar firmes na diretriz de lançar vários episódios de uma vez, as novatas Disney+, Apple TV+ e HBO Max —prevista para começar em maio de 2020 nos EUA— prometem novos capítulos semanalmente.

Isto é, para cavaleiros jedi, dragões e Oprah Winfrey, o destino seguirá se desenrolando pausadamente.

Ganchos memoráveis

Breaking Bad
Na terceira temporada, Jesse Pinkman  atira em Gale, mas a tela fica preta antes de a bala chegar a algum lugar

Buffy: A Caçadora de Vampiros
A protagonista morre inesperadamente na quinta temporada

Friends
Na quarta temporada, Ross chama sua noiva de Rachel durante seu casamento

Lost
Os fãs descobrem, na terceira temporada, que o que pareciam ser flashbacks eram cenas no futuro

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