Nan Goldin fala sobre arte, vício e sua batalha contra magnatas dos opiáceos

Perdi muitos amigos para a Aids, não posso ficar parada e ver outra geração desaparecer, diz a fotógrafa

Liz Jobey
Londres | Financial Times

“Por que você não está no protesto?”, Nan Goldin pergunta ao atender o telefone em Brooklyn. “Todo mundo que eu conheço em Londres está envolvido com o Extinction Rebellion”. Estamos no começo de outubro, e a artista está revigorada por conta da mais recente rodada de protestos contra a mudança do clima.

Nos últimos dois anos, ela liderou uma campanha pessoal para expor o papel da Purdue Pharma e de seu analgésico altamente viciante, o OxyContin, na crise dos opiáceos. Mais especificamente, sua organização, Pain (Prescription Addiction Intervention Now) tomou por alvo certos membros da bilionária família Sackler, cuja riqueza deriva do OxyContin e cujo nome adorna museus, universidades e instituições de pesquisa em todo o mundo.

Goldin, que se viciou no medicamento depois de tê-lo receitado para uma lesão na mão em 2014, usou sua experiência pessoal para falar em nome de milhares de pessoas que, como ela, não tinham ideia de como o remédio era perigoso, até que fosse tarde demais.

“Temos todos de encarar os poderosos”, ela diz. “Eu sempre quis combater os horrores do mundo que nos cerca. Mas sempre faço as coisas de uma posição pessoal”.

 
Retrato de Nan Goldin - Markus Jans/Divulgação

Goldin havia se recuperado há pouco tempo de seu vício, em 2017, quando leu um artigo na revista New Yorker que expunha o fato de que a família Sackler controla a Purdue Pharma. Os trabalhos dela costumam ser exibidos em grandes museus de todo o mundo, e por isso Goldin reconheceu o nome Sackler.

“Quando saí do hospital, eu tinha passado por um período sério de vício em OxyContin, e lutar contra isso se tornou um trabalho de período integral “, ela diz. “E eu consegui deixar o vício. Não estava informada sobre a crise. Só sobre minha crise pessoal. E embora tenha descoberto rapidamente a respeito da crise mais ampla, eu ainda não sabia sobre os Sackler”.

“Eu ainda os via como filantropos. Eles sempre operaram em segredo. Assim, quando li a respeito, fiquei furiosa e pensei que ali estava uma missão para mim. Eu sabia nos meus ossos que podia lidar com isso”.

Em janeiro de 2018, ela publicou um artigo na revista Artforum, expondo sua intenção de responsabilizar os Sackler. “Para atrair sua atenção, nós vamos tomar por alvo sua filantropia”, ela escreveu. “Eles lavaram seu dinheiro sujo por meio de instituições de arte, museus e universidades de todo o mundo.

Exigimos que os Sackler e a Purdue Pharma usem sua fortuna para bancar tratamentos e campanhas educativas contra o vício. Não há tempo a perder“.

O vício em opiáceos custou as vidas de cerca de 400 mil pessoas nos Estados Unidos, de 1999 a 2017, e um relatório aponta que outras 700 mil pessoas podem morrer pela mesma causa até 2025, se nada mudar. Goldin baseou a Pain na Act Up, uma organização que lutou para prevenir um número crescente de mortes em uma epidemia anterior.

Por toda a década de 1980, a Act Up protestou contra a inação do governo dos Estados Unidos no combate à Aids, e pressionou as autoridades a introduzir novos medicamentos que combatessem a doença. “Não conheço nenhum movimento político que esteja batalhando nas trincheiras como o Act Up”, ela escreveu. “A maioria da minha comunidade foi perdida para a Aids. Não posso ficar parada e ver outra geração desaparecer”.

No começo deste ano, Goldin estava em Londres fazendo preparativos para uma nova exposição. Sentada diante dela em meio ao luxo anônimo de um restaurante de hotel, era difícil acreditar em quanto essa mulher de aparência frágil e nervosa, mais interessada em sair para um cigarro do que no cardápio, tinha conseguido realizar em tempo tão curto.

Desde que a Pain começou seus protestos públicos diante de museus e galerias que portavam o nome Sackler, cada vez mais instituições no Reino Unido e nos Estados Unidos passaram a anunciar que não aceitariam mais doações da família.

Vestida de preto, com seu halo de cachos castanhos e os restos de uma velha tatuagem cercando seu antebraço, Goldin é direta em sua conversação, mas não brusca: corrige rapidamente os erros e está sempre disposta a oferecer detalhes sobre o progresso do movimento até agora.

A Pain é uma organização pequena —“há 12 pessoas no núcleo”, ela diz—, mas seu impacto vem sendo desproporcional. “Você jamais imaginaria todo o barulho e popularidade que eles conseguem obter com um grupo tão pequeno de pessoas”, disse o curador italiano Guido Costa, velho amigo de Goldin.

O primeiro alvo da organização foi o Museu Metropolitan de Nova York, cuja Ala Sackler abriga o templo de Dendur, um antigo templo egípcio que é uma das maiores atrações do museu. Em 10 de março do ano passado, Goldin e seus colegas encenaram um “die in”, enchendo a fonte do templo de vidros de remédios, e em seguida marchando pelas galerias do museu carregando cartazes.

Em fevereiro deste ano, o protesto aconteceu no Museu Guggenheim, que recebeu US$ 9 milhões (R$37,57 mi) em doações da família entre 1995 e 2015; eles marcharam carregando faixas onde se lia “vergonha para os Sackler” e ”‘remova o nome deles”, e despejando um torvelinho de papéis dos famosos balcões da espiral central.

Nancy Goldin, fotógrafo e fundadora da organização Pain, durante protesto em julho de 2019 no Museu do Louvre - Stephane de Sakutin/AFP

Em formato de receitas médicas, os papéis portavam trechos de mensagens reveladas em público por causa de um processo movido pelo estado de Massachusetts contra a Purdue Pharma e determinados membros da família Sackler.

Um dos textos citava parte de um diálogo entre Richard Sackler, ex-presidente e copresidente do conselho da Purdue Pharma, e um executivo da empresa, sobre o mercado alemão, e dizia: “Se o OxyContin não for controlado, é altamente provável que seja alvo de excessos [ou seja, vicie os usuários]. Como isso poderia beneficiar nossas vendas?”.

Depois do Guggenheim, o próximo alvo dos manifestantes foi o Met, onde distribuíram panfletos que imitavam o guia do museu, com o título “floor plan” substituído por “floor pain”. Uma semana depois, o protesto chegou a Londres, onde Goldin estava negociando com a National Portrait Gallery sobre uma retrospectiva.

Ela informou a instituição que se a galeria fosse adiante com uma possível doação de um milhão de libras do Sackler Trust, a mostra não aconteceria. (A South London Gallery, em Camberwell, já havia decidido devolver uma doação de 125 mil libras dos Sackler, em 2018.)

Em 19 de março, a National Portrait Gallery divulgou um comunicado com o Sackler Trust no qual afirmava que a duas instituições “haviam decidido de comum acordo não levar adiante a doação de um milhão de libras, no momento”, Foi o primeiro grande sucesso da Pain com uma galeria importante.

Dois dias mais tarde, o grupo Tate anu ciou que não aceitaria novas doações dos Sackler. Um dia mais tarde, o Guggenheim tomou a mesma atitude. Em abril, discursando na abertura de sua mostra na Serpentine Sackler Gallery, a artista alemã Hito Steyerl decidiu falar sobre o “elefante na sala”, e criticou a família.

A resposta da Serpentine foi imediata. “Fomos informados do que Hito Steyerl teve a dizer hoje e sobre as questões importantes que ela expôs. As doações do Sackler Trust à Serpentine são históricas e não temos planos futuros de aceitar novas doações dos Sackler”.

Àquela altura, a mídia já estava discutindo freneticamente até que ponto as instituições deveriam levar suas investigações sobre a origem do dinheiro de seus doadores. Goldin acena em concordância quando falo sobre isso. “Esse é um lado [da discussão]”, ela diz. “O outro é determinar como é que os museus poderão sobreviver sem doações. Mas a verdade é que um museu deveria ser um lugar ético... Um museu supostamente é um repositório das melhores coisas da humanidade, certo?”

Os dominós continuaram a cair. Em maio, o Museu Metropolitan de Nova York anunciou que “consideramos necessário recusar doações que não sirvam ao interesse público”, e em julho, depois de uma manifestação da Pain, o Louvre anunciou que retiraria o nome Sackler do museu.

A única exceção foi o Victoria & Albert, de Londres, onde um belo pátio novo, construído com uma doação de dois milhões de libras pelos Sackler, foi inaugurado em 2017. Theresa Sackler, viúva de Mortimer Sackler, faz parte do conselho do V&A, até o final deste mês.

Falando dez dias depois da decisão do Louvre, Tristram Hunt, diretor do V&A, disse que o museu estava orgulhoso do apoio recebido da família Sackler ao longo dos anos, e que não “removeria nomes ou negaria o passado”.

Àquela altura, estava ficando difícil lembrar que Goldin é artista. Por isso, no final de agosto, fui a Paris para ver uma nova obra dela exposta no Palácio de Versalhes. A inspiração do trabalho foi um texto de 1791, ”Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã Feminina”, escrita pela dramaturga francesa Olympe de Gouges.

Os retratos de Goldin das estátuas de mulheres que adornam os jardins do Trianon eram acompanhados por uma trilha sonora composta de leituras do tratado por Goldin e nove atrizes francesas, entre as quais Élodie Bouchez, Catherine Deneuve, Charlotte Gainsbourg e Isabelle Huppert. No ano em que o movimento MeToo ergueu mais alto que nunca a bandeira da igualdade da mulher, o trabalho de Goldin parecia mais que apropriado.

Caminhando no fantasmagórico silêncio de Versalhes em um final de tarde, descobri no celular que Goldin havia sido presa em Nova York, diante da sede do governo estadual.

“Passei seis ou sete horas na cadeia”, ela explicou mais tarde. “Estava em companhia de um grupo de ativistas chamado Housing Works, formado durante a epidemia de Aids. Fomos presos por bloquear a entrada dos escritórios do governador Andrew Cuomo, porque estávamos exigindo que ele assine uma lei criando locais seguro para injeções” (centros locais para o tratamento e prevenção do vício em opiáceos).

Goldin, 66, se tornou conhecida inicialmente por suas fotografias de amigos na comunidade gay e de travestis de Provincetown (Boston) e do centro de Nova York, nas décadas de 1970 e 1980.

 

As imagens dela vinham do underground em que essas pessoas viviam, suas festas, suas roupas, suas poses, beijos, choro e cenas de amor. Bebidas e drogas eram presenças frequentes, e as distinções de gênero eram poucas. Ela registrou seus relacionamentos da mesma maneira incansável.

Tiradas em apartamentos mal iluminados, bares e casas noturnas, e em quartos de hotel, as fotos de Goldin compartilham de uma palheta de cortes ricas, escuras e luminosas. Em Nova York, ela parece ter vivido boa parte de sua vida na penumbra, de qualquer forma.

“O loft de Nan no Bowery não tinha janelas, ou elas estavam cobertas, e isso tornava suas festas longas, hilariantes e perigosas”, recordou o escritor Daryl Pinckney em 1996. “Não dava para saber que horas eram, ou se o dia estava nascendo do lado de fora”.

No começo da década de 1980, ela montou um show de slides com centenas de fotos, acompanhadas por uma trilha sonora que ia de James Brown a Bizet, Lotte Lenya a Petula Clark. Ela deu à peça o título “Balada da Dependência Sexual”, o título de uma canção da “Ópera dos Três Vinténs”, de Bertolt Brecht.

Primeiro, ela mostrou versões do trabalho a amigos em apartamentos e salas de cinema de arte, e mais tarde, em 1985, a peça chegou à Bienal do Whitney; no ano seguinte, ela foi publicada como livro. (Hoje, a “Balada”, com duração de 45 minutos, é vista como a peça seminal da obra de Goldin. Quando a Tate Modern a mostrou no ano passado, o auditório lotou.)

Pela metade da década de 1980, com os efeitos das drogas e da epidemia de Aids, o clima de suas fotos se tornou mais sombrio. Goldin se viu carregando sua câmera a hospitais e casas de repouso para pacientes terminais, onde alguns de seus melhores amigos estavam encarando a morte.

Em 1988, seu uso de heroína se tornou tão grave que ela partiu para uma reabilitação. Passados 18 meses, de volta a Nova York, uma de suas primeiras atitudes foi organizar uma exposição, “Testemunhas Contra Nossa Extinção”, que reuniu trabalhos de alguns artistas cujas vidas haviam sido destruídas pela Aids.

Uma delas, Cookie Muller, uma das melhores amigas de Goldin, morreu seis dias antes da abertura da exposição. Outro, o artista David Wojnarowicz, escreveu um texto longo e amargo no qual criticava os políticos de direita por não custearem a pesquisa da Aids, com isso facilitando a difusão do vírus.

Quando pergunto qual foi a sensação de perder tantas das pessoas que lhe serviram de tema, escolho a palavra errada. “Eles não eram temas”, ela diz, secamente. “Eram minha vida. Perdi todos os meus amigos. E não há como encontrar de novo pessoas como aquelas. Todas aquelas pessoas que tinham a minha história. As pessoas com quem eu deveria envelhecer. Perdi minha comunidade. Fiz novos amigos, depois. Mas não tenho uma comunidade como aquela, e nem terei”.

Ela continuou a fotografar, registrando paisagens e cenas urbanas, imagens nubladas e vastas, saturadas de cor. Fotografou os filhos dos amigos. Transformou sus fotos em grades, montando fragmentos do passado a fim de produzir novas obras para o futuro.

Goldin produziu instalações multimídia, criando obras acompanhadas por música e se aproximando de seu primeiro amor, o cinema. “Sim”, ela comenta, casualmente. “Eu não gostava de fotografia. Era só uma desculpa para fazer filmes, mais tarde.”

Em 2004, ela produziu um vídeo de 39 minutos, que ocupava três telas, chamado “Sisters, Saints and Sybils”, acompanhado por uma colagem musical. Pela primeira vez, ela produziu uma peça que encarava sem reservas a tragédia de sua vida.

Quando Goldin tinha 11 anos, sua irmã, Barbara, se suicidou, aos 18 anos. Goldin, a mais jovem de quatro irmãos, era bem próxima da irmã, que era uma jovem nada convencional, rebelde. Os pais delas —que viviam em um subúrbio conservador no norte de Washington— enfrentaram dificuldades com a filha, e a internaram em instituições psiquiátricas.

Em sua introdução a “Balada da Dependência Sexual”, Goldin escreveu sobre sua ira diante da maneira pela qual sua irmã havia sido tratada. “Vi o papel que a sexualidade exerceu em sua destruição. Por conta da época, no começo da década de 1960, as mulheres que eram bravas e sexuais eram vistas como assustadoras, fora de controle, fora das normas permissíveis de comportamento.”

Ela estava determinada a escapar do mesmo destino. Aos 14 anos, fugiu de casa e foi viver com famílias adotivas. Ganhou uma câmera, na adolescência, e começou a fotografar os amigos.

Em 1974, começou a estudar na Escola do Museu de Belas Artes de Boston, e quatro anos depois se mudou para Nova York. Sair de casa, ela escreveu, “permitiu que eu me transformasse, me recriasse, sem me perder”.

Quando perguntei a Marvin Heiferman, o curador que trabalhou com ela na formulação inicial de “Balada”, o que ele via como motivação de Goldin, ele estabeleceu uma conexão direta entre suas primeiras fotos e seu ativismo atual. “Nan falava frequentemente sobre sua infância, a morte de sua irmã, e sobre o fato de que há coisas sobre as quais não se fala, que não são visíveis”, ele disse.

”E o que me fez responder com tanta força à obra dela foi que ela dava visibilidade a certos aspectos da vida das pessoas que eu jamais tinha visto retratados com aquela espécie de honestidade, drama, romance e retidão. O trabalho dela tinha algo de destemido, o que sempre foi uma de suas características.”

“Assim, quando começou essa coisa dos Sackler, eu pensei que era de novo uma coisa de visibilidade, e Nan estava usando sua visibilidade no mundo da arte. Uma espécie de raiva contra a indiferença.”

“A inação durante a crise da Aids, a causa disso era a indiferença. E isso é parte do que a alimenta. E acredito que ela compreenda —levando em conta sua experiência com opiáceos, seu relacionamento com as drogas— que algo está por acontecer uma vez mais... e o que posso fazer a respeito?”

Quanto pergunto a mesma coisa a Goldin, ela diz: “Eu estive ativamente envolvida na crise da Aids e meu trabalho sempre foi visto como político em nível pessoal, lidando com política sexual e de gênero, ainda que a linguagem agora tenha mudado enormemente”.

“Mas meus trabalhos iniciais eram parte do diálogo —e ainda são, imagino— sobre política sexual, o papel da mulher, poder. Ou a falta de poder”.

Como suas experiências passadas com drogas a influenciaram? “Quando comecei o grupo, tinha medo de que seria desacreditada ao entrar na discussão, por ter ido viciada em heroína. Mas isso não aconteceu”, ela diz. “Porque [o OxyContin] é mais forte que um saco de heroína, e eu não deveria nem ter começado a usá-lo, obviamente.”

Ela prossegue: “As pessoas continuam a usar a droga porque têm medo dos efeitos da abstinência. E a abstinência é uma tortura inimaginável. É como não ter pele. Uma escuridão sem fim”. Eu disse que a rapidez com que as pessoas se viciam em OxyContin me espanta. “Sim”, ela comentou. ‘É uma droga maligna.”

Um dia antes de minha conversa com Goldin em Londres, John Kapoor, cofundador da Insys Therapeutics, que fabricava um spray de fentanil para uso oral, vendido sob a marca Subsys, foi considerado culpado, em companhia de quatro outros executivos, por subornar médicos para que eles receitassem a droga.

“Eu estava ciente dele desde que comecei com a Pain”, disse Goldin. “Ele transformou o fentanil de um remédio para combater o câncer e as dores que as pessoas sofrem perto da morte em uma droga sexy para uso geral. E se tornou o primeiro presidente de uma grande companha farmacêutica a ser acusado criminalmente.”

Porque, ela acrescenta, “os Sackler só estão enfrentando acusações civis. E temos medo de que eles fechem um acordo e escapem impunes”.

Em junho, a Insys fechou um acordo para pagar US$ 225 milhões (R$ 939,3 mi) para encerrar acusações por fraude, e pediu concordata. Em julho, um juiz do Ohio divulgou dados que mostravam como os fabricantes e distribuidores de opiáceos continuaram a promover os produtos a despeito de estarem cientes da severidade da crise.

Em agosto, um juiz do Oklahoma ordenou que a Johnson & Johnson pagasse US$ 572 milhões (R$ 2,38 bi) ao estado, decidindo que a companhia havia instigado “campanhas de marketing falsas, enganosas e perigosas”, que haviam causado “alta exponencial no número de viciados e de mortes por overdose”.

A Johnson & Johnson planeja recorrer. E em setembro a Purdue Pharma pediu concordata.

A Purdue Pharma e diversos governos estaduais americanos estão agora negociando um acordo no valor de entre US$ 10 bilhões e US$ 12 bilhões, mas muitos estados se recusam a aceitar a ideia, e diversos estão processando membros da família Sackler, em busca de seu patrimônio pessoal.

Goldin acredita que os Sackler vão conseguir evitar consequências mais graves? “É o que temo. Parece que sim. O juiz está tentando encerrar tudo em um grande acordo. Vinte e quatro estados já aceitaram a concordata; um pagamento de entre US$ 10 bilhões e US$ 12 bilhões parece muito bom, mas eles estão pagando com o dinheiro do OxyContin.”

“Essa é a parte mais cínica de todas. Eles viciam as pessoas. E aí usam as mesmas drogas que desencadearam a crise para pagar a indenização.”

Com tudo isso em curso, é difícil entender como ela encontrou tempo para produzir novas peças para sua mostra. “Eu não tenho fotografado muito, nos últimos anos”, disse Goldin. “Estou recorrendo ao meu arquivo. Produzindo novas peças com minhas fotos. Usando imagens existentes. É nisso que estou interessada. Em recontextualizar. Imagens que nunca foram vistas, ou fotos que foram excluídas de mostras.”

Ela se detém. “Não sei se teria conseguido sem a Pain”, diz, acrescentando, em tom sombrio: “Agradeço à Pain por estar sóbria.”

Ela está trabalhando em dois novos vídeos, com trilha sonora de Mica Levi. “O primeiro, ‘Sirens’, é sobre euforia, sensualidade, sobre a sensação de estar chapado, e fala muito de mulheres. Usa excertos curtos de filmes existentes. O segundo, ‘Memory Lost’ usa minhas fotos, filmes Super 8 que gravei nos anos 1970 e fitas de secretárias eletrônicas dos anos 1980. É sobre a escuridão do vício, que cara o mundo tem contemplado do fundo do vício.”

“Achei importante apanhar algo que já existia em seu trabalho e dar uma nova forma de ativismo”, diz Guido Costa, que trabalha com Goldin em seu novo projeto.

“Porque [Goldin] foi testemunha, no passado, desse estilo de vida ‘underground’. E agora, de novo, ela é testemunha de uma espécie de movimento ‘underground’ contra o poder do novo capitalismo. Creio que essa seja a parte mais importante de seu trabalho, na realidade.”

“Eu poderia ser ativista em tempo integral”, admitiu Goldin em nossa conversa por telefone, quando perguntei como iam os preparativos para a nova mostra. “Mas pelas próximas duas semanas e meia, preciso ser artista.”

Tradução de Paulo Migliacci

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