Novo MIS ofusca cenário de abandono e até fechamento de espaço do governo de SP

Secretaria de Cultura acumula edifícios em obras ou com falta de manutenção; Museu da Casa Brasileira deixará sua sede

São Paulo

​A inauguração nesta semana do MIS Experience, com obras orçadas em R$ 8 milhões pagos por meio de uma parceria público-privada, parece uma contradição diante do cenário de instabilidade de outros museus do governo paulista. Entre eles, está o Museu da Casa Brasileira, que deve fechar as portas até o fim do no ano que vem. 

A instituição terá de devolver o casarão que ocupa na avenida Brigadeiro Faria Lima, nos Jardins, à Fundação Padre Anchieta, dona do imóvel. 

O presidente da fundação, Roberto Maluf, confirmou que o contrato de cessão do imóvel para o museu vai vencer.

O documento que determinava o empréstimo por 50 anos do solar construído na década de 1940 foi firmado em 1971 e vale, portanto, até 2021.

Segundo Maluf, não há um novo projeto de ocupação para o espaço. Enquanto isso, o casarão também vem sendo alugado para ações de agentes públicos e privados —o dinheiro arrecadado vai para os cofres da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do estado.

A sucessão de governos tucanos também deve à população a entrega do Museu da História de São Paulo, no Brás, que já consumiu mais de R$ 100 milhões desde que iniciaram as obras há nove anos. Além disso, houve redução do orçamento de uma das casas mais importantes do estado, a Oficina Cultural Oswald 
de Andrade, no Bom Retiro. 

Está pendente ainda a inauguração da nova sede do Paço das Artes, que não ficará pronta neste ano, como anunciado pela instituição em 2018. O espaço, que realiza exposições de arte contemporânea, em geral de jovens artistas, vai ocupar um casarão restaurado pelo governo em Higienópolis.

Desses casos, desponta o prejuízo do Museu da História de São Paulo. Além do dinheiro gasto ter chegado ao dobro do orçamento inicial, as obras inacabadas inutilizam há dez anos um lugar histórico da cidade, que é a Casa das Retortas, na zona leste. 

O complexo marcado por um conjunto de chaminés e tombado como patrimônio histórico funcionou como uma usina de gás. Foi construído a partir de modelo industrial britânico do fim do século 19 e fornecia energia à cidade. Inativo, passou a ser ocupado por eventos diversos, entre festas e exposições. 

Hoje, cinco anos depois do abandono da obra que estava prometida para 2011, as calçadas do entorno se tornaram ponto de venda de crack. A paralisação dos trabalhos se deu após descobrirem a contaminação do solo por combustíveis, algo não detectado por falha de uma perícia anterior.

Em uma série de visitas à Oficina Oswald de Andrade neste ano, a reportagem identificou problemas de manutenção no prédio, que também tem valor histórico e é tombado pelo Condephaat. 

Há infiltrações visíveis nos pontos de alvenaria que estão próximos à estrutura de vidro que cobre o pátio central. No banheiro masculino, dois mictórios e uma pia estavam interditados e cobertos por sacos de lixo preto. Também há janelas quebradas e paredes com pedaços caídos. As salas de apresentação estão todas com um forte cheiro de mofo e umidade. 

Construído em 1905, o edifício foi sede da Faculdade de Farmácia e Odontologia da USP e sofreu várias ampliações, a maior dela nos anos 1930. Desde os anos 1980, quando foi restaurado pelo próprio governo, abriga a Oficina Cultural Oswald de Andrade, que hoje tem uma programação importante para o cenário do teatro e da dança. Neste ano, a casa também passou a organizar sessões de cinema.

Os artistas que se apresentam ali não recebem cachê —as atrações são contrapartida de outros fomentos do estado.

De 2015 para cá, o espaço perdeu cerca de 40% de seu orçamento anual, que era naquele ano de R$ 18,9 milhões e foi para R$ 11,1 milhões neste ano. Segundo a Secretaria de Cultura e Economia Criativa, esse patamar de R$ 11 milhões será mantido no ano que vem. 

Valdir Rivaben, coordenador do espaço, diz que estragos como os do banheiro em geral são causados pelo público. Ele aponta como uma das causas a proximidade do lugar com a cracolândia.

A redução orçamentária pode ter tido reflexo no público, que estava subindo até o ano passado. Em 2015, passaram pela Oswald 8.674 pessoas. No ano passado, foram quase 74 mil. Neste ano, até setembro, a casa atraiu 29,9 mil visitantes.

Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, foi solicitado um projeto de restauro e reforma da Oficina Cultural Oswald de Andrade, “o qual se encontra em fase de elaboração”. Para o espaço do Museu da História de São Paulo, “a secretaria solicitou estudo de concessão ou cessão de uso do imóvel para fins culturais, que se encontra em análise na Secretaria de Governo”, diz.

Ainda segundo nota do órgão, “embora a gestão atual tenha assumido o governo com redução de recurso destinado a esse programa em anos anteriores”, para o orçamento do ano que vem, não houve redução, “e se busca ainda captar recursos na iniciativa privada para complementar as ações e os programas da secretaria, como tem feito com sucesso”. 

Como exemplo, o governo cita a captação de R$ 160 milhões com a iniciativa privada para a restauração do Museu Paulista —também ainda em curso. Segundo a secretaria, o modelo de parceria beneficiou neste ano o Festival de Inverno de Campos do Jordão. 

“Não houve nenhum investimento de recurso público, tendo sido investidos R$ 7,84 milhões integralmente das empresas patrocinadoras.”

Na lista de pendências do governo, ainda há o Museu da Língua Portuguesa, na estação da Luz. O museu pegou fogo em 2015 e ainda está em obras, que devem ser concluídas no próximo ano.

Até lá, em instalações que já estão prontas, recebe a programação educativa Escola, Museu e Território. Quinzenalmente, às sextas e sábados, são organizadas atividades como clube de leitura.

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