Descrição de chapéu The New York Times

O que aconteceu com o vaso sanitário de ouro roubado? Não há sinal de 'America'

Obra de Maurizio Cattelan desapareceu de um palácio na Inglaterra, e não faltam teorias

Alex Marshall
Woodstock (Inglaterra) | The New York Times

Pouco antes das 5h no dia 14 de setembro, um vaso sanitário plenamente funcional feito de ouro de 18 quilates foi roubado de uma exposição de arte no Palácio de Blenheim, o local de nascimento de Winston Churchill.

E não se viu nem traço da peça desde então.

A polícia continua a procurar pela privada desaparecida —uma obra de arte chamada “America”, de Maurizio Cattelan—, mas até agora não a encontrou. Um porta-voz da força que está encarregada da investigação, a polícia do vale do Tâmisa, se recusou a discutir o caso, limitando-se a confirmar que seis pessoas haviam sido detidas em conexão com o furto, mas que foram todas libertadas posteriormente sem serem acusadas.

Obra 'America', roubada na madrugada deste sábado (14) de uma exposição no Blenheim Palace, na Inglaterra - William Edwards/15.set.2016/AFP

A polícia pode não saber o que aconteceu com o vaso sanitário, mas os moradores da cidade de Woodstock, perto do palácio, têm muitas teorias.

O jardineiro Richard Jackson disse acreditar que a peça continua no terreno do palácio. Os ladrões provavelmente a jogaram de uma ponte em um dos dois lagos da propriedade, ele disse.

“Não é como se fosse enferrujar, certo?”, ele acrescentou. “Seria fácil esperar por um ano e aí recolhê-lo”.

“Está em um canteiro de obras”, disse a taxista Susan Hughes. “Essa é minha teoria." Há casas novas em construção perto do palácio, ela apontou. “E há escavadeiras, caçambas, todas essas coisas por lá." Os ladrões podem ter escavado um buraco para o vaso sanitário e depois “o enterrado na mesma noite”, ela disse.

O comerciante de antiguidades Martin Thomas-Jeffrey disse ter certeza de que essas teorias estavam erradas. Segundo ele, o vaso sanitário deve ter sido derretido. O ouro valeria cerca de US$ 4 milhões (R$ 16,7 milhões), de acordo com algumas estimativas. “Quem quer que tenha cometido o roubo claramente planejou tudo”, disse Jeffrey. “Não é como se alguém tivesse apanhado uma tiara e guardado no bolso, afinal." Ele acrescentou que ninguém procurou sua loja oferecendo um vaso sanitário de ouro.

Outras pessoas imaginam que a peça tenha sido transportada de avião para fora do Reino Unido, de um pequeno aeroporto a cerca de três quilômetros de distância do palácio. Houve até quem sugerisse que não houve roubo algum, e que talvez Cattelan tenha ocultado a peça, na esperança de conseguir promoção com uma jogada como as de Banksy.

“É uma trapaça”, disse a aposentada Jackie Blake, 72. Cattelan “provavelmente tem a coisa escondida em algum lugar, para ver qual é a reação das pessoas”.

Uma coisa que une as teorias todas, disse Christine Johnson, que trabalha em uma escola em Woodstock, é que ninguém está levando o crime a sério. “Para ser honesta, as pessoas acham que é brincadeira”, ela disse. Algumas imitações pintadas com tinta spray foram encontradas na cidade, ela acrescentou.

Uma dessas foi encontrada no Off The Hook, um restaurante de “fish and chips”. Outra foi encontrada no bar do The Woodstock Arms, um pub local, mas esta também terminou roubada por alguns fregueses brincalhões, disse Ross Phillips, gerente do pub.

Phillips disse que tinha decidido fazer a réplica do vaso sanitário —que custou cerca de US$ 60 (R$ 250) – para provocar um de seus clientes, que trabalha no palácio. “Meu filho curtiu muito pintar a privada”, disse Phillips. “Já minha mulher achou que a ideia era ridícula."

Até 14 de setembro, “America” estava instalado em um sanitário de paredes revestidas de madeira anexo ao quarto em que Churchill nasceu. Os visitantes podiam pagar para ver a peça, como aconteceu em Nova York quando ela foi exibida no Museu Guggenheim em 2016 e 2017.

Na noite anterior ao roubo, foi realizada uma festa relacionada à exposição de Cattelan, no palácio; o evento terminou por volta das 2h. Cerca de duas horas mais tarde, ladrões invadiram o local e arrancaram o vaso sanitário, causando uma pequena inundação. Em um apelo para que testemunhas se apresentassem, em outubro, a polícia informou que estava em busca de pelo menos dois veículos que podem ter sido usados na fuga.

O número de roubos em casas aristocráticas vem crescendo recentemente, disse James Ratcliffe, diretor de recuperação na Art Loss Register, uma organização sem fins lucrativos que mantém um banco de dados de obras de arte roubadas.

Em 8 de setembro, uma semana antes do roubo do vaso sanitário de ouro, quatro ladrões invadiram o Castelo de Sudeley, a cerca de 50 quilômetros do Palácio de Blenheim, e roubaram itens como uma cigarreira de ouro Fabergé que o rei Eduardo 7º deu a uma amante.

Ratcliffe apontou que os ladrões que roubam esculturas muitas vezes o fazem pelos materiais e não pela obra de arte em si. Na década de 2000, ele disse, diversas grandes esculturas de bronze, entre as quais trabalhos de Henry Moore e Barbara Hepworth, foram roubadas de parques e jardins do Reino Unido e derretidas.

“Duvido muito que alguém tenha roubado isso por ser arte”, disse Richard Ellis, antigo diretor do departamento de arte e antiguidades da polícia metropolitana britânica e agora consultor sobre roubos de arte, em referência ao trabalho de Cattelan. Em lugar disso, ele disse, “o motivo é que se trata de um grande pedaço de ouro”. Ellis acrescentou que o mais provável é que a peça tenha sido derretida em 24 horas.

Cattelan afirmou em email que não fazia ideia de quem possa estar por trás do crime. Citando o jogo de tabuleiro "Detetive", ele brincou que “os grandes suspeitos devem ser o mordomo, o cozinheiro e o dono da casa”.

“Mas nada disso é verdade”, ele acrescentou.

Cattelan também declarou não estar por trás do desaparecimento da obra, a despeito de ter executado jogadas semelhantes no passado. Em 1996, ele roubou as peças expostas em uma galeria de arte na Holanda e depois as exibiu como se fossem obras suas. “O objetivo era fazer um comentário sobre deslocamento”, ele disse na época, acrescentando que “levamos tudo, até as latas de lixo”.

Cattelan disse não ter esperança de recuperar o vaso sanitário. Mas a peça exibida no Palácio de Blenheim era apenas uma das três que ele produziu, o que significa que ainda há duas disponíveis.

Desde o roubo, Cattelan vem tirando vantagem da notoriedade que o crime confere ao seu trabalho. Em novembro, ele estrelou uma campanha de publicidade da seguradora italiana Generali, que busca abrir mercado no mundo da arte. Em um vídeo, Cattelan saltita pelo cenário com um vaso sanitário dourado de papelão, sob o lema “os grandes artistas roubam”.

Em outubro. no Palácio de Blenheim, em um dos últimos dias da exposição de Cattelan, nem todo mundo havia abandonado a esperança de que a peça seja devolvida. “Se você a encontrar, moro em um trailer que está precisando de uma privada nova”, disse o músico Kevin Power.

Laura Ahlbin disse que estava contente com o sumiço da peça. Ela disse que é americana mas vive na região e que considera a peça tão desrespeitosa ao seu local de nascimento, e ao de Winston Churchill, que havia decidido deixar de visitar o palácio, coisa que ela costumava fazer regularmente. “Quando ouvi a notícia, pensei que aquilo era ótimo, porque eu podia voltar”, ela disse.

Mas a maioria dos visitantes expressava uma visão divertida, ou desconfiada, sobre o crime, ao contemplar a fita azul que a polícia deixou para isolar a porta de maneira danificada que costumava conduzir ao vaso sanitário.

Lacey Chandler, de nove anos, que estava visitando a exposição com seu pai, resumiu os sentimentos de muitos. “Por que alguém roubaria uma privada dourada?”, ela perguntou. “O traseiro de alguém esteve lá!”

Tradução de Paulo Migliacci

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