Descrição de chapéu Artes Cênicas

Peça traz Frida Kahlo no fim de sua vida, 'morrendo, mas celebrando'

Texto escrito em 1998 ganha montagem em São Paulo, com direção de Cacá Rosset e interpretação de Christiane Tricerri

São Paulo

Frida Kahlo teve uma vida breve, marcada por acidentes e enfermidades, e fez de sua arte um retrato de suas dores. Nas suas telas, símbolos de morte, violência, corações partidos e corpos desfigurados.

Mas a artista mexicana contornava o sofrimento com um espírito festivo, celebrando a vida e debochando da morte. Essa dicotomia é o que o mexicano Humberto Robles explora em “Frida Kahlo - Viva la Vida”, peça escrita em 1998 e que agora ganha uma montagem em São Paulo, com direção de Cacá Rosset e interpretação de Christiane Tricerri, integrantes da companhia Teatro do Ornitorrinco.

O monólogo se passa no Dia dos Mortos mexicano, com uma Frida já em fim de vida, preparando uma festa na Casa Azul de Coyoacán, imóvel onde a artista morou boa parte de seus 47 anos. Enquanto espera seus convidados —vivos, mortos ou mortos-vivos—, ela relembra sua trajetória e pessoas que passaram por ela. 

Fala do pintor muralista Diego Rivera, seu marido e grande amor; do revolucionário russo León Trótski, que ela ajudou a refugiar na Cidade do México e de quem foi amante; lembra da poliomielite na infância e do acidente de ônibus, aos 18, quando um cano perfurou seu corpo, das costas à região pélvica, deixando sequelas pelo resto da vida.

“A peça trabalha com essa dialética interessante: Frida morrendo, mas celebrando a vida”, comenta Rosset, que faz com Tricerri sua segunda montagem de um texto de Robles. No ano passado, nas celebrações de 40 anos do Ornitorrinco, encenaram “Nem Princesas Nem Escravas”, espécie de show de cabaré que discorre sobre os estereótipos da mulher. 

“Frida Kahlo” vai por outro caminho, um monólogo dramático pincelado de humor. Mesmo assim não deixa de espelhar uma das marcas da companhia paulistana: um teatro que bebe no erudito e na discussão de ideias, mas sempre com uma linguagem popular.

Afinal, o espetáculo é uma conversa com a plateia. Frida recebe os espectadores como se fossem convidados de sua festa, celebra com eles. “Vamos partilhar, que todos, ao fim e ao cabo, estamos mais mortos que vivos”, esbraveja numa cena.

“Robles traz essa coisa do mexicano, esse humor cáustico que ela [Frida] também tinha”, diz Tricerri. “Essa poesia, essa vontade de viver, de estar com pessoas, de fazer piada, de falar palavrão.”

Também põe na boca de Frida discussões políticas e sociais, como a condição da mulher, tema do qual a artista se tornou bandeira nos últimos tempos. Seus trajes típicos, os vestidos tehuana coloridos, os adereços nos cabelos não eram bem vistos pela alta sociedade daquela primeira metade do século 20. Mas hoje seu visual virou coqueluche da moda. 

Ainda que a artista não fosse lá muito afeita a rótulos, lembra Rosset. “Quando André Breton, líder do movimento surrealista, a conheceu e viu as obras dela, ele a chamou de surrealista. Mas ela respondeu: ‘Não sou surrealista, eu pinto a minha realidade’.”

Essa realidade de Frida também inspira a cenografia, uma costura de referências. José de Anchieta, cenógrafo das peças do Ornitorrinco nas últimas três décadas, começou os esboços, muito inspirado por uma visita que o grupo fizera anos antes à Casa Azul, durante uma turnê pelo México. Com a morte do cenógrafo, em maio, Kleber Montanheiro assumiu o trabalho, combinando os estudos originais de Anchieta a ideias próprias. 

O resultado mistura elementos da figura de Frida, de sua obra e do Dia dos Mortos. Como uma cadeira de rodas, elemento tão presente na vida da artista, que aqui vem acompanhada de uma grande caveira nas costas. Trata-se de uma referência ao quadro “O Sonho (A Cama)”, que mostra a mexicana dormindo debaixo dos lençóis e, sobre o dossel, um esqueleto desperto e envolto em explosivos.

“Jogamos o tempo todo com essa ideia do trágico e, ao mesmo tempo, cômico, esse conceito mexicano de morte”, diz Tricerri. A Frida da atriz vai transformando sua imagem ao longo do espetáculo. Aos moldes das obras da artista, quase todas retratos dela própria, a peça faz do corpo da personagem uma tela –em dado momento, Tricerri chega a pincelar sua pele de tinta colorida.

É como se, de suas dores, Frida fizesse renascer outras vidas. Ou como Robles resumiu na boca de sua personagem: “E põe no meu epitáfio: ‘Aqui jazo eu... A que deu à luz a si própria’”.

Frida Kahlo - Viva la Vida

  • Quando De 21/11 a 14/12, qua. a sáb., às 20h30
  • Onde Sesc Pinheiros - auditório 3º andar, r. Paes Leme, 195
  • Preço R$ 9 a R$ 30
  • Classificação 14 anos
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