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Cinema

Personagens femininas fazem despertar empatia em 'A Vida Invisível'

Filme de Karim Aïnouz exalta emoções complexas ao expor poderes patriarcais na década de 1950

Neusa Barbosa

A Vida Invisível

  • Classificação 16 anos
  • Elenco Julia Stockler, Carol Duarte, Fernanda Montenegro e Gregorio Duvivier
  • Produção Brasil/Alemanha, 2019
  • Direção Karim Aïnouz

Aos 53 anos, Karim Aïnouz é o que se pode definir como um diretor humanista, que sabe entrar por baixo da pele dos personagens. Desde seu longa de estreia, “Madame Satã”, de 2002, que marcou o início de uma trajetória internacional, ele é um dos cineastas brasileiros de maior percurso.

Aïnouz já concorreu na competição principal no Festival de Berlim com “Praia do Futuro”, de 2014, e vem sendo assíduo frequentador de Cannes, em mostras paralelas, como a Quinzena dos Realizadores (“Abismo Prateado”, de 2011) e Um Certo Olhar, em que exibiu “Madame Satã” e na qual o cineasta acaba de vencer o prêmio principal, feito inédito para o cinema brasileiro, com “A Vida Invisível”

Filme a filme, afirma-se a maturidade de um forte sentido de melodrama, passando por Douglas Sirk, Pedro Almodóvar e Rainer Werner Fassbinder como referências, mas que não perde de vista uma construção toda própria, que combina rigor e intensidade.

Essas são as marcas de nascença deste “A Vida Invisível”, que carrega as esperanças de uma nova indicação brasileira ao Oscar de filme em língua estrangeira (agora filme internacional), podendo encerrar um jejum de 20 anos —o último indicado na categoria foi “Central do Brasil”, dirigido por Walter Salles, em 1999.

A empatia que “A Vida Invisível” é capaz de suscitar tem sido testada na sua circulação, tanto em festivais internacionais, como em pré-estreias pelo Brasil afora, num drama que traça um retrato matizado de mulheres dos anos 1950, cuja independência e expressão são sistematicamente truncadas pelo exercício de poderes patriarcais.

Inspirado no romance de Martha Batalha, “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, Aïnouz tem a coragem de ultrapassar o sucinto arcabouço do livro para ampliar os rumos de suas protagonistas, as irmãs Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), apartadas uma da outra pelas imposições da família, da moral e da sociedade, que delas só esperam a subordinação e o apagamento.

Há, nesta notável galeria de personagens femininas, outras guerreiras, como a valente Filomena (Bárbara Santos) e a pragmática Zélia (Maria Manoella), às quais vem se somar, na porção final, Fernanda Montenegro —numa participação que aumenta a voltagem emocional de uma história já muito impregnada de emoções complexas, que a fotografia quente de vermelhos e verdes, assinada pela francesa Hélène Louvart, encaixa no compasso de um tango, ríspido e desolador.

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