Descrição de chapéu The New York Times

Recém-inaugurado, Centro Pompidou em Xangai não escapa dos censores chineses

O museu francês fará curadoria e proverá obras de sua coleção, mas autoridades locais vão aprovar trabalhos exibidos

Amy Qin
Xangai | The New York Times

Quando o Centro Pompidou propôs inicialmente a abertura de um posto avançado na China, mais de uma década atrás, os céticos da França ainda estavam debatendo ferozmente a questão de usar ou não os respeitados museus nacionais na promoção de interesses políticos e comerciais no exterior.

Mas com a inauguração, nos últimos anos, do Louvre Abu Dhabi e do Pompidou Málaga, a estratégia francesa de usar a diplomacia dos museus para ganhar destaque no exterior está claramente estabelecida.

O esforço deu um novo e audacioso passo na terça (5) quando o Pompidou, renomado museu parisiense de arte moderna e contemporânea, inaugurou uma unidade na China. O presidente francês Emmanuel Macron compareceu à cerimônia.

Situado à margem do rio Huangpu, em uma região de Xangai que imita a “Museum Mile” nova-iorquina, o novo estabelecimento é uma colaboração com o West Bund Group, incorporadora imobiliária estatal chinesa que, em parceria com o governo local, teria supostamente investido mais de US$ 3 bilhões (cerca de R$ 12 bilhões), nos últimos anos, a fim de transformar um antigo bairro industrial à beira-rio num novo corredor cultural de 11 quilômetros de extensão.

Conhecido como Centre Pompidou X West Bund Museum Project, a instituição fica abrigada no novo West Bund Museum. Projetado pelo arquiteto britânico David Chipperfield e contando com mais de 2.5 mil metros de espaço para exposições, o museu consiste de três galerias de exposição numa estrutura de vidro que lembra o jade, as três conectadas por um átrio central.

O Pompidou define o projeto como “o maior intercâmbio cultural da história entre a França e a China”. Comparada ao Louvre Abu Dhabi, que opera sob um acordo de 30 anos entre o governo francês e o dos Emirados Árabes Unidos, a escala do projeto é modesta, porém.

Mais ou menos como o Pompidou Málaga, inaugurado em 2015, o projeto de Xangai é um contrato de cinco anos sob o qual o Centro Pompidou monta exposições especialmente para sua unidade chinesa, usando obras emprestadas do seu vasto acervo e também oferecendo programação cultural e treinamento técnico para os profissionais chineses de museologia. No final dos cinco anos, as duas partes terão a oportunidade de encerrar ou estender a parceria.

O West Bund Group vai cobrir os custos do espaço físico e também pagará ao Pompidou uma soma fixa de  € 2.75 milhões (cerca de R$ 12 milhões) ao ano, excluídos custos de transporte e seguros, de acordo com uma entrevista concedida por Serge Lasvignes, o presidente do Pompidou, à revista francesa Le Point.

Mas os dirigentes do museu dizem que a principal motivação para o projeto de Xangai é fomentar o diálogo, e não obter lucros. “Se realmente desejássemos fazer dinheiro, uma ideia melhor seria vender exposições uma a uma a grandes museus internacionais”, disse Lasvignes em entrevista na segunda (4) no West Bund Museum.

Mas na China, mesmo a elevada missão de promover o diálogo vem com desafios específicos. A inauguração do Pompidou Xangai surge num momento de insegurança no relacionamento entre o Ocidente e a China, e o mundo da arte não está imune à política.

Censura e autocensura são onipresentes nos setores criativos chineses e até mesmo museus e galerias privados precisam submeter seus programas e exposições à aprovação das autoridades locais.

O Pompidou Xangai já teve seu primeiro choque com os censores. Em “The Shape of Time”, a primeira das três exposições semipermanentes planejadas para o espaço, o Pompidou apresenta a história da arte do século 20 por meio de cem obras, em sua maioria pertencentes ao acervo do museu.

A exposição traz trabalhos conhecidos de Pablo Picasso e de Vasily Kandinsky, em companhia de trabalhos de artistas chineses como Zhang Huan e Zao Wou-Ki. Mas a despeito de a exposição ser em geral pedagógica, as autoridades locais exigiram que algumas das peças que seriam mostradas em “The Shape of Time” fossem substituídas, por motivos “diversos”, segundo Lasvignes.

“Nós discutimos, explicamos e, na maioria dos casos, eles concordaram em manter a obra”, disse Lasvignes. Ele disse que menos de cinco obras terminaram substituídas na mostra, por motivos “que não eram apenas políticos”, ainda que se recusasse a acrescentar explicações mais específicas.

“Realmente acredito –talvez seja ingenuidade– que desde que você produza coisas interessantes, e as produza sem se trair, é melhor estar presente do que não estar”, ele disse.

Lasvignes acrescentou que o escopo limitado da parceria permitiria que o museu avaliasse a situação à medida que o projeto prossegue. “Para mim a questão é se as regras que estão sendo aplicadas realmente alteram a natureza de um projeto”, disse Lasvignes. “Se não, seguimos em frente. Se sim, paramos.”

Uma grande razão para que o Pompidou não queira ver sua parceria com Xangai prejudicada por questões menores de censura é que o projeto requereu quase duas décadas. O museu francês esteve próximo de abrir uma unidade em Xangai cerca de 10 anos atrás, mas o acordo fracassou no último minuto.

Quando Lasvignes chegou ao Pompidou, em 2015, e reabriu as negociações com as autoridades chinesas, o país havia ganhado mais importância no mundo da arte. Estimulada pelo avanço da classe média, a China no ano passado foi o terceiro maior mercado mundial de arte, de acordo com o relatório anual sobre o mercado de arte da Art Basel e do banco UBS.

O país também conta com uma rede crescente de entusiastas e profissionais da arte, incluindo curadores, colecionadores e artistas, que variam de nomes conhecidos como Ai Weiwei a jovens em ascensão como Cao Fei, que recentemente teve uma mostra solo no Pompidou de Paris.

Quando a equipe do Pompidou saiu em busca de locais, o West Bund se tornou uma escolha evidente. Localizado nas imediações do antigo bairro francês da cidade, o distrito já servia de sede a diversos museus privados ascendentes, entre os quais o Yuz Museum e o Long Museum, fundado por um taxista chinês que se tornou bilionário e sua mulher.

O acordo recebeu aprovação das esferas mais elevadas em janeiro de 2018, quando o presidente Macron fez uma visita de Estado à China e discutiu o plano pessoalmente com o presidente chinês Xi Jinping, O projeto será inaugurado para o público nesta sexta (8).

 
trabalhadores corria para dar os retoques finais nas instalações
Trabalhadores corria para dar os retoques finais nas instalações do museu, em tempo para a chegada de Macron - Yuyang Liu/NYT

Na manhã de segunda, a cena no West Bund Museum era frenética e um pequeno exército de trabalhadores corria para dar os retoques finais nas instalações, em tempo para a chegada de Macron .

Como se para reforçar a necessidade de maior profissionalismo, um trabalhador chinês foi apanhado dormindo pacificamente em meio ao frenesi, aproveitando a iluminação suave provida por uma peça em vídeo.

Para o Pompidou, Xangai é apenas o começo do que promete ser um calendário internacional muito ativo, nos próximos anos. No ano passado, o museu assinou um acordo para mais cinco anos de parceria com seus pares em Málaga. Há um projeto em Bruxelas em curso, e o museu está negociando a abertura de unidades também em Seul e na República Tcheca, disse Lasvignes.

Bernard Blistène, diretor do Museu Nacional de Arte Moderna no Centro Pompidou, descartou insinuações de que sua equipe estava buscando criar um império mundial do Pompidou.

“Isso é para construir alguma coisa, testar alguma coisa, experimentar alguma coisa”, disse Blistène. “De outra forma você fica sempre dentro de seu grande castelo com sua coleção, sempre a mesma coisa”.

Tradução de Paulo Migliacci

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