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The New York Times

Saber o que Walter Mercado tinha a dizer era mais uma coisa cultural que astrológica

O astrólogo deixou um legado em toda a América Latina, onde por décadas muita gente seguiu suas previsões com devoção

Ana Teresa Toro
The New York Times

Desde que me lembro, Walter Mercado foi parte de minha vida e esteve presente em minha casa. Ele surgia em programas de TV e de rádio, e a foto que o mostrava sorridente surgia por sobre os horóscopos dos jornais e revistas. “Veja o horóscopo do Walter” era a resposta para muitas preocupações existenciais.

Para milhões de pessoas na América Latina, o dia não podia começar sem que lessem ou ouvissem as previsões de Walter. Criado em Aibonito, uma cidadezinha cercada por montanhas no centro de Porto Rico, lhe conferia, em minha opinião, uma linha direta com as estrelas, e o trabalho dele era traduzir sua sabedoria e nos informar. Walter, que morreu em 2 de novembro, sabia coisas que nós não sabíamos.

Astrólogo Walter Mercado
Astrólogo Walter Mercado - Divulgação

É claro que havia os céticos, mas imagino que algumas das pessoas que negavam sua autoridade astral ainda assim o lessem. Saber o que Walter tinha a dizer era mais uma coisa cultural que uma coisa astrológica —especialmente porque as pessoas pareciam encontrar muito mais do que dicas sobre números da sorte em sua escrita.

Elas encontravam esperança, ou pelo menos otimismo, sob uma camada tênue de superstição. Em um dia ruim, Walter nos oferecia o tesouro de imaginar um amanhã melhor.

Quando o Ano-Novo se aproximava, Walter recomendava rituais em edições especiais e muito longas de seus horóscopos, publicadas em jornais e revistas e divulgadas na TV em toda a América Latina, e segui-las se tornou uma tradição que transcendia gerações, religiões ou fés. 

Walter recomendava a melhor cor para usar, que velas acender e mesmo com que flores e perfumes se banhar antes que o relógio soasse a meia-noite, para começar o ano da melhor maneira possível. Alejandro Álvarez, um poeta de quem sou amiga, descreveu a situação perfeitamente em um post no Facebook: “Walter era minha avó, escondendo sua ‘santería’ do meu avô pentecostal”.

Aqueles banhos de rosas e mel, os rituais com incenso, água, plantas, pedras e Água de Florida, não pareciam contradizer de forma alguma o catolicismo ou a devoção cristã, ou as muitas formas de sincretismo religioso que são parte da vida cotidiana de seus seguidores.

Na figura de Walter Mercado, a mistura de religiões e a herança da “santería” —tão forte no Caribe e com suas variações e influências culturais no restante da América Latina— se manifestavam naturalmente e sem confrontos. As “abuelas” que rezavam seus rosários também liam Walter.

Walter representava a dualidade em todos os aspectos de sua presença pública. Energia masculina e feminina, superstição e fé —nele, nada disso operava em forma de opostos. Ele era um homem de voz poderosa, que evocava com suas palavras a segurança do pai protetor, para nós, as pessoas do outro lado do televisor.

Ao mesmo tempo, suas roupas de seda brilhante, repletas de franjas, suas joias impressionantes feitas de pedras preciosas coloridas, e a elegância com que movia as mãos traziam a sensação do abraço de uma matriarca.

Antes de se tornar o astrólogo mais significativo culturalmente para os latinos de todo o mundo, Walter foi um ator dramático respeitado e admirado, um dançarino e um declamador excepcional, cujas interpretações são parte da herança cultural de Porto Rico.

Há quem afirme que sua persona pública, o astrólogo extravagante e alegre, era seu personagem mais refinado, a criação de um ator levada ao seu extremo, resultando em uma completa fusão entre arte e vida. Talvez. Mas o legado de Walter para sempre será o credo simples que ele sempre pregou ao se despedir no final de cada programa, desejando-nos “muita paz, mas acima de tudo mucho, mucho amor”. Para mim, não existe verdade espiritual maior que essa.

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