Descrição de chapéu DeltaFolha

Sul global cresce no mundo pop sob o termo 'músicas urbanas'

Categoria diminui um vasto repertório de novidades musicais dos continentes latino-americano, africano e asiático

Felipe Maia Daniel Mariani
Paris e São Paulo

“Eu odeio a world music”, escreveu David Byrne no New York Times há 20 anos. Era um manifesto com tom de mea culpa. O britânico era apaixonado pelas tais “músicas do mundo” de Fela Kuti ou do amigo Caetano Veloso.

Tão apaixonado que, anos antes, havia ajudado a popularizar o termo ao tocar com músicos africanos, latinos e asiáticos. O que ele odiava, na verdade, era ver aquela etiqueta colada a tudo que não fosse música anglófona ou ocidental.

O britânico Skepta, rapper classificado como urban music

Vinte anos se passaram e a música pop mudou. A debacle das gravadoras com a chegada da internet nos anos 2000 já parece distante com a recente ascensão do streaming.

A ideia de world music, cristalizada na plaquinha que identificava uma prateleira na loja de CDs, cheira a mofo. Mas isso não impediu que a indústria criasse um novo termo generalista. A bola da vez é a urban music, ou música urbana.

A ideia não é nova. Nos Estados Unidos, cresceu nas últimas décadas englobando ritmos como soul, funk, R&B e rap.

Hoje, a urban music é um guarda-chuva que pretende cobrir não só a música negra americana, mas também a das periferias de grandes cidades do mundo. Esses sons têm em comum aspectos rítmicos e produção eletrônica que remonta ao “faça você mesmo”.

É uma categoria cabível tanto ao rapper britânico Skepta quanto ao cantor congolês Maitre Gims e ao reggaetonero panamenho Sech. Mas, ainda que esses nomes apresentem semelhanças, existem diferenças fundamentais entre eles.

O nigeriano Burna Boy, muito ouvido em Londres, é tido como urban music, apesar do diálogo com gêneros jamaicanos e tradições locais. Segundo dados do Spotify, o trap, por exemplo, é mais dançante que o funk brasileiro. Já o k-pop, com elementos do hip-hop, é menos dançante que o rap.

Com todas as suas particularidades, Skepta, Maitre Gims, Sech e Burna Boy são representantes de gêneros fundamentais no pop global atual.

Segundo levantamento do DeltaFolhaque analisa as faixas mais tocadas no Spotify de 51 países—, músicas que dialogam com rap e ritmos pop da África e da América Latina são majoritariamente ouvidas em 75% de grandes mercados musicais do mundo.

Um elemento particular do rap —a rítmica das letras mais próxima da fala que do canto— é característica comum entre as mais ouvidas de países latinos e europeus.

A França está à frente até dos Estados Unidos nesse quesito. Nomes de sucesso como os MCs Sofiano, Shay e Alonzo acabam inclusive chegando a outros países francófonos, como Suíça e Costa do Marfim.

A África também é importante para o pop atual. Sua influência aumentou com o crescimento demográfico, avanços sociais e econômicos e implementação de redes 3G e 4G.

Esses fatores também estão por trás dos chamados diálogos “sul-sul” do mundo —pontes criativas que atravessam países africanos, latino-americanos e asiáticos sem passar pelas tradicionais metrópoles do planeta, como Londres e Nova York. 

Artistas latinos têm se aproveitado dessas conexões, especialmente com parcerias. O colombiano Maluma tem 50 singles em que canta com nomes tão diversos quanto XXXTentacion e Enrique Iglesias.

No mercado do streaming, grandes centros urbanos como Jacarta, São Paulo e Cidade do México têm até um nome especial. São as “cidades-gatilho”, onde o elevado número de usuários pode determinar quem
sobe ou desce nas listas de mais ouvidos em todo o mundo.

Elas “consomem música em uma taxa muito mais alta que cidades dos Estados Unidos ou da Europa”, diz Jason Joven, da consultoria Chartmetrics, um dos criadores do conceito. “Pessoas em São Paulo podem ser fator de mudança do que é ouvido em outros países.”

Em se tratando de música pop, a ascensão do sul global também está sujeita a diretrizes do mercado. Isso se vê nas modas e nos formatos.

O hit “Ela É do Tipo”, de Kevin O Chris, por exemplo, só lembra a faixa homônima que toca nos bailes do Rio de Janeiro. Neles, intervenções de DJs, duração e até letra são outras.

Regravada agora por Drake, a canção ecoou antes na África. Em Angola, o cantor Preto Show faz sucesso com a faixa “150 BPM” —referência direta ao funk acelerado do Rio.

Para além do termo reducionista, esse triângulo atlântico mostra que há muito mais na música do sul global do que possa ser contido pela classificação de “música urbana”.

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