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Livros

Antologia de Gabriela Mistral tem boa tradução e se esquiva dos clichês

Obra tem seleção de textos breves, quase todos oriundos do livro Ternura (1924)

Balada da Estrela e Outros Poemas

  • Preço R$ 54,90
  • Autor Gabriela Mistral (tradução: Leo Cunha e ilustrações: Leonor Pérez)
  • Editora Olho de Vidro

Quando a chilena Gabriela Mistral (1889-1957) recebeu o prêmio Nobel de Literatura, em 1945, não era só a primeira vez que um autor latino-americano recebia a distinção, era também o primeiro Nobel dado a uma mulher que havia se dedicado principalmente à poesia.

Ela recebeu a notícia em Petrópolis, pois na época trabalhava no consulado chileno do Rio de Janeiro, desenvolvendo suas funções como educadora, trabalho sem fronteiras que fez dela, pouco tempo depois, uma das fundadoras da Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância.

No Brasil, ela se aproximou de outras duas escritoras que também tinham relação estreita com a educação, Henriqueta Lisboa e Cecília Meireles, aliás, suas primeiras tradutoras no país , ao lado do também poeta Manuel Bandeira.

Tanto Henriqueta como Cecília escreveram poemas para obras que se tornaram clássicos da literatura infantil. Já Mistral não preparou nenhum livro que se enquadrasse no gênero, mas em sua produção há muitos versos que podem fazer a cabeça dos pequenos.

Foi pensando nessa vocação infantil que o organizador e tradutor Leo Cunha preparou a antologia “Balada da Estrela e Outros Poemas”. A seleção traz textos breves, geralmente em redondilhas menor e maior, quase todos oriundos do livro “Ternura” (1924).

Há textos à maneira de cantigas de roda e de ninar, além da presença de uma perspectiva animista que torna descontínua a linha que separa pessoas, bichos e elementos que remetem à natureza.

Ao traduzir a palavra castelhana “ronda” por “ciranda”, Leo Cunha ajuda a aclimatar o universo de Mistral para o nosso idioma. E, assim, transforma a ciranda em uma espécie de composição poética que se torna irmã do rondó.

Isso dá concretude aos versos traduzidos, porque a imagem dessa ciranda ajuda a pôr as palavras em movimento, num jogo que logo se torna uma metamorfose. 

Tematicamente, tal transformação acontece no já referido animismo em que a natureza assume ações humanas e vice-versa.

Mas é pela forma que a dança transformadora inscreve esses poemas em uma temporalidade mágica, afim à melhor tradição poética oral e popular. O recurso rítmico do paralelismo faz com que os versos se repitam com variações.

Por exemplo os versos: “Os rios são cirandas de meninos / brincando de se ver no mar... / As ondas são cirandas de meninas, / brincando de a Terra abraçar...”

Quando traduziu os poemas de Mistral para o inglês, Ursula K. Le Guin, diante do silenciamento em torno da obra da chilena mesmo em países hispânicos, escreveu que é preciso lê-la para além dos estereótipos e clichês perpetrados por leituras simplistas que sequestram a poesia —sobretudo a produção feminina— com rótulos redutores como etérea e frágil.

A nova antologia brasileira traz poucos poemas, mas o suficiente para o leitor, seja ele uma criança ou um adulto, passar longe dessa visão. Pena a edição não ser bilíngue, o que daria ainda mais destaque ao bom trabalho da tradução para o português.

Leonardo Gandolfi é poeta e professor de literatura portuguesa da Unifesp

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