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Cinema

'As Golpistas', com Jennifer Lopez, pode ser lido como filme de máfia

Onde haveria vingança, há a famosa sororidade, e isso é uma pequena revolução

 

As Golpistas

  • Quando Estreia nesta quinta (5)
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Jennifer Lopez, Constance Wu e Julia Stiles
  • Produção EUA, 2019
  • Direção Lorene Scafaria

Depois da crise de 2008, todo mundo precisava ser um pouco criativo, diz Ramona Vega. 

Até ali, a stripper-sensação do clube Moves só precisava de seus talentos: um corpaço e a capacidade de usá-lo na direção do alvo certo, aquele que solta as notas mais gordas para seus remelexos.

Essa arte, Ramona —cujo corpaço é o de Jennifer Lopez— ensina à novata Destiny (Constance Wu).

Formam uma dupla que, como diz a própria Destiny, ganhava seu viver de forma honesta. Era seu corpo que usavam, afinal. 

Mas o título não deixa dúvidas, “As Golpistas”, por definição, não são honestas. 

Com a tal criatividade, arrebanham outras mulheres e descolam maneiras —progressivamente mais criminosas— de continuarem ganhando milhares de dólares, sustentando suas necessidades e, sem culpa, seus desejos.

O filme de Lorene Scafaria pode ser lido por essa chave: é um longa sobre o desejo e a sua força. O desejo dessas mulheres, materializado em bolsas, sapatos e casacos de pele, se vale do desejo dos homens. É por isso, também, um filme sobre poder. 

O poder delas é o corpo; o deles, os dólares. Nesse escambo, elas levam a melhor. O que manteria o silêncio desses homens a respeito das armações que sofreram, se não o pavor de admitirem terem sido alvo dessas mulheres?

Em termos formais, “As Golpistas” pode também ser lido como um filme de máfia. 

É delicioso o plano-sequência ao início do filme, que introduz o ambiente, como em tantos longas sobre mafiosos. 

Há, claro, a questão da principiante que quer ascender naquele mundo e para isso se volta à grande estrela, um tópico dos filmes do gênero. 

Cabe dizer que a construção do vínculo entre Ramona e Destiny é o ponto mais frágil do roteiro; talvez porque havia tanto a condensar, em minutos de tela as duas se tornam amigas inseparáveis. 

Esse escorregão se esquece logo, e as cenas sobre a amizade que se solidifica e a intimidade do grupo são as mais enternecedoras do longa.

Bolos de dinheiro em notas pequenas, mulheres caminhando sincronizadas em esquadrão, bebida jorrando —todos clichês, sim, mas necessários a estabelecer o terreno.

Há a ganância que leva ao erro. E há a questão da lealdade.

E, no entanto, a convenção estala e se rompe, porque, afinal, é um filme de e sobre mulheres. Onde haveria vingança, há a famosa sororidade, e isso é uma pequena revolução.

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