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Livros

Biografia de Elton John é complemento delicioso a quem viu o filme do músico

Artista narra suas memórias num relato mais ácido e pesado do que o mostrado em Rocketman

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Eu, Elton John

  • Preço R$ 57 (322 págs.)
  • Autor Elton John
  • Editora Planeta
  • Tradução Jaime Biaggio

É bem provável que a quase totalidade das pessoas que compram a autobiografia “Eu, Elton John” também foi aos cinemas há alguns meses para assistir a “Rocketman”, o delirante musical baseado na vida do cantor inglês. E essa turma vai gostar do livro.

Elton John, 72, nunca foi muito reservado diante do grande público. “Rocketman” é um filme chapa branca, aprovadíssimo pelo personagem. Na verdade, mais chapa branca impossível, já que foi produzido por David Furnish, companheiro do cantor desde 2005.

“Eu, Elton John” pode ser um complemento delicioso para o filme. Tem tudo o que se viu na tela, agora acompanhado de muitas explicações sobre as motivações e reações do artista a cada virada de sua vida. E ele dá a impressão de não estar nem aí para o que os outros possam pensar.

Sua visão dos pais, tratados impiedosamente no filme, é ainda mais ácida, mas também abre espaço para momentos de carinho. É uma constante no livro que Elton procure equilibrar defeitos e qualidades de quem cruzou seu caminho.

Seu relacionamento com o empresário, que o filme retrata como detestável, tem até mais detalhes sórdidos do modo como Elton foi tratado por ele, mas também expõe elementos que sustentam a paixão inicial entre os dois.

Para quem gosta não só de Elton John, mas de música pop, as descrições do cenário das bandas inglesas incipientes nos anos 1960 é um caldo grosso de revelações. Entre os jovens que tentavam um lugar na indústria da música há integrantes do Yes, do Black Sabbath e outros, em histórias muito atraentes.

Quando Elton consegue o estrelato e parte para viver nos Estados Unidos, os episódios são muito engraçados, em um mundo de celebridades que o cantor ainda está descobrindo. Como, por exemplo, quando vê uma mulher muito parecida com Katharine Hepburn chegar a seu portão e pedir para usar a piscina. E é mesmo ela, que tinha duas estatuetas do Oscar em casa.

A amizade de Elton e seu parceiro musical Bernie Taupin é, pelo relato, realmente inabalável. E, no livro, a participação fundamental do amigo na recuperação física e psicológica do cantor depois do mergulho nas drogas fica melhor explicada. Se a descida ao fundo do poço rende no filme algumas cenas belas e delirantes, nas páginas a história ganha tons mais pesados, realistas.

Há também mais espaço para compreender as mulheres em sua vida, entre elas a namorada dos tempos anteriores ao sucesso, Linda, e Renate Blauel, com quem foi casado entre 1984 e 1988. Quanto à sexualidade, o cantor se mostra sem questionamentos. Depois de se definir como o único músico da cena roqueira inglesa ainda virgem aos 21 nos, inicia seus relacionamentos, que retrata sem angústias.

Um lado de Elton John que passou batido no filme agora ganha um bom relato. É sua paixão pelo futebol. Único tema que permitia a ele alguma ligação tranquila com o pai, o envolvimento dele com o futebol é mostrado em detalhes. Uma ligação amorosa com o jogo que culminou na decisão de Elton comprar um time, em 1976. No caso, o Watford, clube pequeno para o qual ele e o pai torciam.

Elton John é um gênio da música pop, mas demonstra humildade inimaginável ao falar sobre seu jeito de compor e a repercussão mundial de sua música. Passa a sensação de eterna estupefação diante de alguém como ele, baixo, meio gordinho e tal, conseguir a condição de superstar.

Muito bem traduzida por Jaime Biaggio, a narrativa é fluida, divertida. Pode ser apreciado em trechos curtos. E com a memória afetiva ativando na cabeça do leitor os inúmeros hits de Elton John, uma fábrica de sucessos como nenhum outro compositor —quem sabe apenas Paul McCartney.

Nestes tempos em que conquistas comportamentais e culturais parecem retroceder em muitos setores da sociedade, a jornada de Elton John trata drogas, sexo e rock and roll com a casualidade que essa tríade um dia subversiva deve ser encarada. Sua vida é um retrato da cultura pop.

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