Björk se mostra instigante antítese da era Trump

Em show, público entra na arena, ouve pássaros cantando e esquece o cheiro que vem do chão melado de cerveja barata

Imagem do show Cornucopia, de Bjork Santiago Felipe/Divulgação

Rodrigo Pinto
Glasgow

Aos seis anos de idade, Björk passou a caminhar, todo dia, 40 minutos até a escola. Sua família vivia numa casa de quarto e sala, num morro perto da capital da Islândia, Reykjavik. “Ouvíamos música o tempo todo, bem alto. Às vezes, chovia e entrava água no quarto. Meu irmão e eu botávamos um disco de vinil e, com baldes nas mãos, encarávamos tudo como uma aventura”, diz a multiartista.

Foi a caminho da escola que ela passou a criar melodias que até hoje ecoam em sua cabeça e formam o fantástico universo musical de "Cornucopia", considerada por Björk sua mais elaborada turnê.

Em "Cornucopia", Björk, mais do que nunca, confunde a crítica especializada, que reclamou dos shows em arenas, mas teve que dar o braço a torcer diante de plateias calorosamente concentradas.

Não é por menos: Björk instiga seu público e se mostra antítese da era Trump —ou Bolsonaro— e do dito patriarcado que representam. Assim, prova que todos os adjetivos comumente dirigidos a ela —extravagante, excêntrica, temperamental— não passam de despeito e, possivelmente, machismo.

Quando o público entra na arena, ouve pássaros cantando. Dali pra frente, há uma enxurrada de surpresas que fazem esquecer do cheiro que vem do chão melado de cerveja barata. Quem abre o show são 18 integrantes do coro Hamrahlid (do qual Björk fez parte na adolescência), entoando o estranho cancioneiro islandês.

Uma imensa projeção colorida incide sobre duas cortinas de fios e também no fundo do palco. Björk entra e pouco fala ao público. O foco é a música e sua mitologia particular.

Valendo-se principalmente do repertório de “Utopia” (2018), mas com canções de “Biophilia” (2011) e “Debut” (1993), entre outros discos, "Cornucopia" é uma peça de ficção científica. Dirigida pela cineasta argentina Lucrecia Martel, celebra a longa prosperidade inventiva da artista.

No palco, há cogumelos, flores, borboletas, lagartas, corujas e outras criaturas mágicas do paganismo europeu, com as quais Björk se deparava a caminho da escola. Mas não há nada de infantil. As mesmas flores se abrem em vaginas caudalosas e ajudam a estabelecer o futuro utópico da cantora: uma sociedade matriarcal em que tecnologia e natureza convivem em harmonia.

Ao longo do show, canções favoritas dos fãs, como Venus as a Boy, Hidden Place e Isobel, são decompostas e rearranjadas em ragas vulcânicos. Como sempre, instrumentos inusitados elevam o público ao êxtase da curiosidade. Coristas cantam em tubos plásticos girados no ar, uma flauta circular gigante é tocada por quatro musicistas ao mesmo tempo - e com Björk no centro - e o percussionista Mano Delago estapeia cúpulas percussivas de madeira dentro de uma banheira acrílica cheia d’água, gerando graves aliciantes.

Cantando ora em uma pequena capela acústica na forma de uma cabeça de pássaro, ora solta no palco com um antigo microfone Shure SM-58 com fio, Björk não larga um só instante o espírito punk sob o qual cresceu e se estabeleceu com a banda Sugarcubes. Ela balança desconjuntada o corpo, mexe os braços como um robô e morde e lambe os lábios entre seus versos cheios de humor e saliência. Sua voz potente se escuta mesmo antes do som amplificado, caso o ouvinte esteja perto do palco. 

"Conrnucopia" é, sem dúvida, um espetáculo montado sobre a contradição. Concebido para grandes arenas, geralmente patrocinadas por bancos, petrolíferas e empresas de energia elétrica (na Europa, largamente turbinadas por carvão e petróleo), está na boca do dragão do sistema capitalista que Björk questiona. Numa segunda-feira à noite, a Hydro Arena, em Glasgow, 80% das 12 mil cadeiras estão tomadas - feira à noite – a saber, os ingressos mais baratos e mais caros. O público jovem comparece em peso.

“Acompanho Björk desde pequeno, mas este é o primeiro show a que venho sozinho”, diz James Dove, 18 anos.

No decorrer do show, os olhos dele brilham mais forte duas vezes, quando mensagens no telão acentuam o tom político. A primeira é um texto da própria Björk: “Para sobreviver, precisamos definir uma nova utopia”, prega ela. Mais adiante, é a vez da jovem ambientalista sueca Greta Thunberg : “Estamos sacrificando nossa civilização para que um grupo muito pequeno de pessoas continue ganhando dinheiro demais”, critica ela, antes de pedir uma troca de sistema. “Foi emocionante ver isso dito aqui”, celebra o jovem fã James, lembrando que a Escócia é um grande produtor de petróleo.

“Björk é persistente em ser otimista”, diz outro James, James Merry, amigo pessoal da artista, co-diretor criativo do show ao lado de Björk e criador das máscaras que cobrem os rostos dela, do septeto de flautistas Viibra e dos integrantes do coro Hamrahlíð. “Ela não quer assustar para provocar a mudança. Ela quer apresentar alternativas”, emociona-se Merry, quando, na sequência, Björk ataca Future Forever. O público uiva, já de pé. 

O codiretor criativo artístico diz que a trupe está “louca para ir ao Brasil”. A última vez de Björk no país foi em 2007. Por ora, a turnê Cornucopia se limitará aos oito shows iniciais nos Estados Unidos, cinco no México e oito na Europa. Mas a exposição Björk Digital ainda circula pelo Brasil, agora com entrada gratuita. De 3 de dezembro a 9 de fevereiro, o Centro Cultural Banco do Brasil em Brasília recebe os conteúdos imersivos, como realidade virtual e projeções, criados em colaboração com artistas visuais como James Merry (uma máscara para Instagram exclusiva para quem for à mostra), Andrew Thomas Huang e Jesse Kanda.

O jornalista viajou a Glasgow a convite da Exposição Björk Digital

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