Descrição de chapéu The Washington Post

Conheça a trajetória de ascensão de Adam Driver

Após atuar em 'Inside Llewyn Davis', 'Girls', 'Star Wars', 'O Relatório' e 'História de um Casamento', ator acumula elogios e indicações a prêmios

Sonia Rao
The Washington Post

Assistindo a uma cena cujo tema central é a dinâmica entre o protagonista de um filme e seu rival romântico, o espectador talvez não imaginasse que um cara parado aleatoriamente em um canto da sala pudesse atrair muita atenção. Mas enquanto os personagens de Oscar Isaac e Justin Timberlake em “Inside Llewyn Davis - Balada de Um Homem Comum” gravam uma canção na qual pedem que o presidente John Kennedy não os lance ao espaço, não são só as harmonias vocais ou a letra que fazem com que a bizarra canção funcione, mas a maneira pela qual seu companheiro de cena, Adam Driver, pontua o momento com ruídos cômicos e refrãos —“Outer... space!”— no seu barítono característico.

Isso resume bem o efeito de Driver —alguém que, em parte graças à sua presença marcante e modo de ser, termina sempre dominando a tela. Na série “Girls”, da HBO, seu primeiro sucesso, no papel do volúvel Adam Sackler, há até uma cena em que um outro personagem diz que “ele parece o homem original”. O episódio foi ao ar em 2012, no começo de uma década que viu o início do caminho para o estrelato do ator mais tarde indicado ao Oscar, e que ele coroa com uma sequência firme de lançamentos no final do ano.

Ele faz papéis principais em dois filmes, “História de um Casamento” e “O Relatório”, e interpreta um vilão em “Star Wars: Episódio IX - A Ascensão Skywalker”, que deve se tornar a maior bilheteria da temporada de festas.

Como é que a temporada de Adam Driver enfim chegou? Há a curiosidade estética mencionada acima, que certa vez levou o jornal Guardian a perguntar ao ator sobre ele “não ser o McGaranhão habitual de Hollywood”. Driver respondeu com franqueza: “Já me disseram que tenho um rosto incomum. Mas meu rosto é meu rosto.” O sucesso dele provavelmente tem mais a ver com a sensação de honestidade bem centrada que surge em suas interpretações. Driver, que estudou para ser ator na Julliard School, depois de servir no Corpo de Fuzileiros Navais americano, transmite uma intensidade silenciosa capaz de capturar uma ampla variedade de sentimentos, às vezes todos ao mesmo tempo. Nas primeiras temporadas de “Girls”, por exemplo, os maneirismos de Adam muitas vezes exibem uma mistura de raiva reprimida e vulnerabilidade emocional.

Driver já recebeu elogios por seu desempenho em “História de um Casamento”, de Noah Baumbach, que saiu sexta-feira pela Netflix. Ele conquistou o Prêmio Gotham como melhor ator, na noite de segunda-feira, reforçando sua candidatura a um Oscar. Baumbach já tinha usado Driver em três outros projetos antes de “História de um Casamento”, que foi escrito tendo em mente Driver e Scarlett Johansson como personagens centrais.

Eles interpretam um casal —o diretor de teatro Charlie Barber e sua mulher Nicole— cujo casamento sucumbe a prioridades desalinhadas. A companhia de teatro de Charlie fica em Nova York, onde o casal cria seu filho pequeno. Nicole, que por muito tempo cedeu ao ego de Charlie, adiando o sonho de retornar à sua Los Angeles natal, acaba voltando para lá a trabalho quando o casal se separa.

O que se segue é uma meditação sobre o divórcio, um olhar compassivo sobre a forma pela qual ele liberta duas pessoas e ao mesmo tempo devasta seus espíritos, enquanto elas reavaliam a vida que tiveram juntas. Baumbach injeta comédia em seu roteiro, mas é nos momentos de tensão mais intensa entre Charlie e Nicole que os atores mais brilham. Quando uma tentativa de decidir os detalhes do divórcio sem ajuda de advogados se transforma em uma briga aos gritos, Charlie, com o rosto rubro de frustração, grita para Nicole: “A cada dia acordo querendo que você morra”. Ele imediatamente começa a chorar, cai de joelhos, e abraça Nicole pelas pernas.

Em uma entrevista recente à revista Hollywood Reporter, Driver disse que, em cenas como essa “você não deve buscar a emoção. Ela acontece ou não”. Ele credita sua capacidade de expor sentimentos contraditórios de modo tão transparente, como no caso de Charlie, à qualidade do roteiro, o que parece verdade —diversos dos seus desempenhos mais aclamados estão associados a roteiristas conhecidos, entre os quais Lena Dunham, Jim Jarmusch, Spike Lee e Martin Scorsese.

Esse esforço coletivo fica mais evidente nas cenas mais sutis de Driver. O episódio final de “Girls”, que recebeu o desajeitado mas apto título de “O Que Vamos Fazer Sobre Adam Desta Vez?”, começa com Adam querendo provar à ex-namorada Hannah Horvath, que ele descobre estar grávida, que ele amadureceu e pode ajudá-la a cuidar da criança. Depois de seu encontro, vem uma sequência onírica que desaba quando os dois se sentam um diante do outro em um restaurante. Ainda que continuem a discutir a logística de morar juntos —Adam chega a sugerir que se casem—, os dois logo percebem que o relacionamento não vai funcionar. Os olhos de Hannah se enchem de lágrimas, e Adam sorri melancolicamente, gaguejando até se calar. Eles ficam sentados em silêncio por algum tempo. Ele comenta sobre a qualidade da sopa.

Em “O Relatório”, Driver interpreta um assessor do Senado, novamente um personagem intimista, no caso oferecendo um retrato de raiva contida enquanto ele passa anos investigando o uso de tortura pela Agência Central de Inteligência (CIA) depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Driver tem a difícil tarefa de ancorar um filme cuja atividade principal envolve revirar papéis em um ambiente confinado, o que ele faz com sucesso, nas palavras do The New York Times, ao expressar sua fúria “não em confrontos explosivos, mas em uma determinação cada vez mais firme de proteger e disseminar aquilo que descobre”.

“Com Driver, sempre existe a sensação de alguma coisa na coleira, e seus personagens parecem operar em um plano acima e além de todo mundo mais”, escreveu a crítica Jeannette Catsoulis.

Isso se aplica ao papel que lhe valeu uma indicação ao Oscar em “Infiltrado na Klan”, de Spike Lee, no qual ele interpreta Flip Zimmerman, um policial judeu ranzinza que se infiltra na Ku Klux Klan. Também se aplica aos seus personagens em dois filmes de Jarmusch: um motorista de ônibus que se dedica à poesia, em “Paterson”, filme pacato sobre os rituais idílicos da vida cotidiana, e um funcionário municipal de uma pequena cidade na comédia de humor negro absurdo “Os Mortos não Morrem”. O personagem diz desde o começo, quando as coisas começam a sair errado, que a culpa é dos zumbis (ou “assombrações”, ele acrescenta seca e sarcasticamente).

E o mesmo se aplica, é claro, a Kylo Ren, o vilão dotado da Força, em Star Wars, que opera literalmente em outro plano. O “Despertar da Força” introduziu Kylo como Darth Vader 2.0, o impiedoso filho de duas lendas —Han Solo (Harrison Ford) e a general Leia Organa (Carrie Fisher)— que, em sua busca de poder, luta por extinguir sua luz interior. O maior talento de Driver talvez seja sua capacidade de manter as emoções mais ferozes de um personagem fervilhando logo abaixo da superfície, e liberá-las em grandes ou pequenas porções.

Ele evita fazer de Kylo um vilão caricato de ficção científica, ao abordá-lo como faria se ele fosse um personagem em um de seus projetos de “prestígio”. Em retrospecto, existe um parentesco entre seu desempenho conflituoso em “O Último Jedi” e as reações de Charlie Barber ao divórcio, ou mesmo a baralha de Adam Sackler contra suas tendências mais primais. A temporada de Adam Driver, uma exibição comprimida do talento do ator que continuará a gerar rumores sobre prêmios até fevereiro, demorou quase uma década a chegar.
 


Tradução de Paulo Migliacci

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