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'Entre Facas e Segredos' subverte trama de investigação e mergulha em comédia com tons políticos

Com Daniel Craig, Jamie Lee Curtis e Toni Collette, filme usa humor para alfinetar elite americana

Los Angeles

A enfermeira Marta Cabrera (Ana de Armas) é a última pessoa a ver o escritor Harlan Thrombey (Christopher Plummer) em vida. Filha de imigrante ilegal nos Estados Unidos, ela cuidava do milionário até a noite da morte dele, um aparente suicídio.

Nenhum dos Thrombey levanta a voz para desconfiar de Marta. “Você é quase da família”, afirmam os parentes já pensando no testamento. O verniz de benevolência se quebra quando o advogado revela que o escritor deixou sua fortuna para a jovem latina.

A funcionária, então, passa a ser tratada como uma suspeita. Afinal, a família “sofreu o pão que o diabo amassou” para um dia ser recompensada com a grana, e esse direito não seria surrupiado por uma... Uruguaia? Brasileira? Ou mexicana? Para os Thrombey, latinos são todos iguais.

“A piada é exatamente essa. Não importa de onde Marta é, mas o fato de não saberem fala muito sobre aquela família egoísta, privilegiada e que se acha no direito de ter tudo. É muito bom representar as boas qualidades dos latinos”, diz a cubana Ana de Armas, protagonista de “Entre Facas e Segredos”, primeiro filme de Rian Johnson depois de “Star Wars: Os Últimos Jedi”, de 2017.

Indicado a três prêmios no Globo de Ouro, o longa estreia no Brasil nesta quinta (12) depois de surpreender nas bilheterias mundiais com US$ 126 milhões (cerca de R$ 521 milhões) em duas semanas.

Ele ensaia um mistério no estilo “quem matou?”, de Agatha Christie, mas logo mergulha em uma comédia de suspense sobre imigração, privilégio branco e diferenças sociais.

“Comecei a escrever a trama há dez anos e a ideia de ter uma imigrante trabalhando para uma família rica surgiu antes da eleição [de 2016, vencida por Donald Trump]. Todas as coisas desagradáveis que surgiram depois disso ajudaram a dar mais substância à trama”, afirma Johnson.

Além de se inspirar nas clássicas histórias de detetives dos anos 1970, o cineasta bebeu de fontes inglesas, como “Assassinato em Gosford Park” (2001), para dar forma a todo o espectro da atual elite americana na família Thrombey.

Walt (Michael Shannon) controla o império editorial do pai, mas quer se render a Hollywood. Linda (Jamie Lee Curtis), a outra filha, virou corretora de imóveis ao lado do marido, o preconceituoso Richard (Don Johnson). Ransom (Chris Evans) é um playboy que teve uma briga séria com o avô durante a festa. E Joni (Toni Collette) é uma viúva fracassada que vive da mesada do sogro.

“Os suspeitos representam o topo e a base da pirâmide. É importante reconhecer partes de si mesmo neles para criar personagens reais, não apenas invólucros para que o espectador possa apontar o dedo”, diz Johnson, que teve um grande aliado para conseguir o orçamento do filme: Daniel Craig.

O astro da série “James Bond” foi o primeiro nome a assinar. “Roteiros tão bons assim não existem mais. A história lida com temas urgentes e é divertida, não esfrega nada no rosto do espectador”, diz o ator, que vive o hilário detetive sulista Benoit Blanc. “Ele vem da Louisiana, mas é uma homenagem a Hercule Poirot.”

Mas “Entre Facas e Segredos” passa longe de ser apenas um filme de detetive. Ele subverte convenções e se concentra num jogo cruel e divertido com a imigrante no centro do tabuleiro de uma elite racista.

“A comédia é o melhor condutor para críticas sociais. Se a situação, por mais ridícula que seja, faz o público rir, esse público não acha que está sendo ensinado. O filme não vira um sermão”, afirma Johnson.

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