Exposição com retratos do fotoclube Bandeirante faz um raio-x da sociedade brasileira

Gratuita, mostra 'Pictórico Surreal Moderno' fica em cartaz até abril de 2020 na sede da instituição, em São Paulo

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São Paulo

Uma pesquisa no acervo de mais de 10 mil fotografias do Foto Cine Clube Bandeirante trouxe à tona uma faceta menos conhecida da associação: um conjunto de retratos que vai da década de 1940 até o final dos anos 1970, formando um raio-x da sociedade brasileira da época.

O conjunto, que agora vem a público na mostra recém-aberta “Pictórico Surreal Moderno”, na sede da instituição, em São Paulo, deixa de lado o modernismo de formas gráficas das imagens de Geraldo de Barros e German Lorca, por exemplo —dois nomes fundamentais do clube—, para apostar no mais popular gênero da fotografia. 

Estão retratados na exposição personagens importantes de meados do século 20, como a atriz Cacilda Becker —fotografada por Fredi Kleeman— e o ator Elísio de Albuquerque, clicado por Aldo A. de Souza Lima, que ministrava aulas de retrato para os membros do clube.

Seguindo uma estética mais clássica, derivada da pintura, o núcleo de retratos de personagens do teatro tem uma razão de ser prosaica: “O fotoclube era perto do Teatro Brasileiro de Comédia e do [teatro] Maria Della Costa, e essa proximidade geográfica ajudava na produção de fotos”, diz José Luiz Pedro, atual presidente do Foto Cine Clube. Na década de 1940, a sede era na rua Avanhandava, a poucas quadras das casas de espetáculo da Bela Vista.

Há também uma série de fotografias que parece especialmente pensada para dialogar com as questões atuais de representatividade: estão ali imigrantes (um japonês e um português) e negros, em retratos de Paulo Takayama e Chico Albuquerque. Em outra obra, o músico Claudio Tovar, do grupo Dzi Croquettes, aparece retocando a maquiagem que lhe cobre todo o rosto.

Os fotógrafos “não tinham a pretensão direta de fazer algo engajado, um ativismo que seja, mas de certa forma acabaram ampliando o leque etnográfico, social e geográfico” de seus retratados, diz Juan Esteves, co-curador da mostra ao lado de Iatã Canabrava. 

Esteves acrescenta que era uma característica dos fotógrafos do Bandeirante —que chegou a ter 400 afiliados em sua década de ouro, nos anos 1950— “trabalhar sem preconceito”, clicando famosos e comuns da mesma forma. Era algo “livre e democrático”, diz.

Mas o diálogo com o modernismo não está totalmente ausente da exposição, a exemplo de uma foto de Julio Agostinelli em que a pessoa retratada aparece de certa forma emoldurada pelas paredes de um edifício de São Paulo, em uma imagem cuja estética está longe da linguagem tradicional do retrato. 

“Isto não é o retrato de uma moça. Isto não é uma arquitetura de uma cidade. Se eu fosse dar um nome, seria ‘forma com moça em prédio paulistano’”, brinca o curador Canabrava. “O modernismo é quando a forma é o que importa”, conclui.

Pictórico Surreal Moderno: Retrato no Fotoclubismo Brasileiro

  • Quando Seg. à sex., das 11h às 19h. Até 5/4.
  • Onde Foto Cine Clube Bandeirante - r. Augusta, 1.108, Consolação
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