Descrição de chapéu

Fernando Lemos nos ensinou como resistir através da arte e da cultura

Acometido ainda criança pela poliomielite, nunca encarou a limitação dos movimentos como limite da vontade, da ação, do pensamento

Rosely Nakagawa

O gerúndio é uma forma nominal de verbo que indica continuidade da ação, a ação que não termina, ou não tem previsão de terminar. Acrescentando-se na grafia do verbo o “N_D_O” no final do verbo, temos alguns exemplos:

Fazer - Fazendo

Trabalhar - Trabalhando

Desenhar - Desenhando

E assim por diante:

Pintando

Escrevendo

Viajando

Fotografando

Brigando

Insistindo

Questionando

Lutando

e especialmente

Fernando, do verbo Fernar, reúne todos os verbos acima, num tempo sem fim, continuo, na sua imagem, pensamento e ação criativa.

Nascido em Lisboa, faleceu aos 93 anos em São Paulo, ao completar 66 anos de Brasil.

Um artista pleno que desenvolveu sua obra em Portugal desde jovem, quando frequentou a Escola de Artes Decorativas Antônio Arroio e o curso livre na Sociedade de Belas Artes.

Mais divulgado como fotógrafo, construiu uma trajetória artística abrangente e complexa, estruturada pela contestação e libertação das regras acadêmicas em diversos meios.

Mais do que libertação, podemos dizer que Lemos viveu em busca da subversão das regras. Esse foi seu motor.

Acometido ainda criança pela poliomielite, nunca encarou a limitação dos movimentos como um limite da vontade, da ação, do pensamento. Ao contrario, fez disso a sua superação, colocando-se a frente e com mais força mesmo em momentos difíceis.

Deixando a ditadura de Salazar, encontrou o Brasil na de 1960, enfrentando outro período de restrições politicas e culturais.

Nos ensinou como resistir através da arte e da cultura, como professor da Faculdade de Arquitetura da USP, como diretor do Idart (Departamento de Informação e Documentação Artística) e do Centro Cultural São Paulo.

O ano de 2019 foi especial para este artista múltiplo. A convite da curadora Barbara Coutinho, realizou uma importante retrospectiva no Museu do Design e da Moda de Lisboa, além de uma exposição individual da galeria Ratton a convite de Ana Viegas e na galeria 111, convidado por Rui Brito, na qual fui comissária. As mostras abriram em junho, permanecendo até outubro passado.

Além destas, no Brasil abrimos a retrospectiva mais a Mais a Mais ou Menos, no Sesc Bom Retiro (2/10 a 26/1), exposição que ele considerou uma “mostra de museu”, pelo fato de termos reunido toda sua produção num espaço que não privilegia a fotografia pela qual ele era mais reconhecido. Reunimos o acervo de toda sua obra, contendo de poesia a desenho gráfico, de pintura a fotografia, depois de uma pesquisa de quatro anos feita em seu ateliê desde que o Instituto Moreira Salles demonstrou interesse em abrigar suas fotografias.

A pesquisa e a mostra foram importantes para mostrar que a fotografia faz parte desta obra complexa, como ele descreve num poema de sua autoria, de forma brilhante:

Nos meus pensamentos sempre
As palavras lutam duas a duas

Palavras se metem dentro
De outras palavras querendo ideias

Sou uma caixa de vários lados
Com vários cantos
Com duas sombras

Uma escura que nasce da clara
Outra clara que nasce da escura

A luz cintila e a sombra dorme
A sombra estatela-se e a luz ergue-se

Nasce cada palavra dentro de outra palavra.

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