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Cinema

'História de um Casamento' é, de longe, o melhor filme de Noah Baumbach

Scarlett Johansson e Adam Driver interpretam um casal à beira da separação

HISTÓRIA DE UM CASAMENTO

  • Quando Na Netflix a partir desta sexta (6)
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Scarlett Johansson, Adam Driver, Laura Dern
  • Produção EUA, 2019
  • Direção Noah Baumbach
 

No último Festival de Veneza, “História de um Casamento” era favorito ao Leão de Ouro, mas deixou o evento sem um mísero prêmio. Pode até ser que os jurados tenham torcido o nariz para o longa de Noah Baumbach, que estreia nesta sexta (6) no Brasil apenas na Netflix, mas é mais provável que tenham entendido que o filme não precisaria da chancela veneziana para ter uma trajetória vitoriosa

Se foi o caso, estavam certos: o drama sobre divórcio tem feito boa carreira nos EUA (onde também foi exibido nos cinemas) e é um dos mais cotados para indicações no próximo Oscar. É a história de Nicole (Scarlett Johansson) e Charlie (Adam Driver), um casal jovem, belo e talentoso, que tinha tudo para ter um casamento feliz e longevo. Mas que, sem um motivo verdadeiramente forte ou mais claro, está à beira da separação.

Charlie é um diretor de teatro experimental, que ama a agitação de Nova York, enquanto Nicole é uma atriz oriunda do cinema comercial, mais afeita à serenidade californiana. Costumam contornar suas diferenças com habilidade, mas o acúmulo de pequenos desentendimentos gera uma crise, que só piora quando os advogados de cada um entram em cena: são duas raposas, que usam as brechas da lei da forma mais esperta, cada qual a seu favor. E, assim, Nicole e Charlie, mesmo mantendo um forte sentimento (ainda amor?) mútuo, se veem cada vez mais em lados opostos em um ringue judicial.

Muito elogiado por seus roteiros, Baumbach nunca teve uma personalidade de fato autêntica enquanto diretor —sempre se perdeu em algum ponto na (vã) tentativa de ser Woody Allen ou Wes Anderson. Mas desta vez ele encontra uma voz própria e atinge uma admirável homogeneidade estilística, sobretudo em um longa com tanta oscilação de tons, do humor mais rasgado ao desespero completo. É que algo permeia o filme em sua totalidade e, assim, lhe dá sustentação e equilíbrio: a enorme ternura do diretor por seus protagonistas.

Baumbach viveu situação semelhante na vida real, e seu conhecimento de causa se faz sentir. Em uma espécie de mea culpa, até reconhece na tela seus erros: Charlie tem propensão a ser controlador, o que sufoca Nicole. Há evidentemente algo de machista nessa atitude, mas ler os problemas daquele relacionamento unicamente à luz de uma masculinidade tóxica seria uma impropriedade. “História de um Casamento” até perpassa comportamentos especificamente femininos e masculinos em um matrimônio, mas não esta nisso a essência do filme.

O casamento, Baumbach nos diz, é uma celebração do amor entre duas pessoas, mas também é uma situação em que egos, desejos e imaginários distintos estão em confronto —permanentemente. O que costuma impedir rompantes ególatras dos dois lados são o respeito pela individualidade alheia e o desejo pelo bem do outro. Ainda assim, deslizes são inevitáveis: afinal, trata-se de dois humanos. E é aí que está a real proposta do filme: pensar no quanto a humanidade de cada um pode, ao mesmo tempo, unir ou repelir— e a impossibilidade de ter controle sobre isso é desoladora.

Uma das obras mais completas sobre as agruras da vida a dois, “Cenas de um Casamento” (1973), de Ingmar Bergman, começava com um casal lado a lado, explicando a uma repórter o segredo do pretenso êxito de seu matrimônio. O início de “História de um Casamento” é derivado dessa cena: Charlie e Nicole também estão sentados um ao lado do outro, falando sobre seu relacionamento.

Mas Baumbach inverte a situação e a atualiza: a dupla, filha de seu tempo, já evita fomentar um certo tipo de hipocrisia dos casais mais antigos e reconhece prontamente que o romance está em ruínas —não à toa, está em uma sessão de terapia de casal. Quer acima de tudo salvar a união. O longa de Baumbach é um novo “Cenas de um Casamento”, só que atualizado para os anos 2010 e em versão americana.

Johansson se joga com tamanha voracidade ao seu papel que quase camufla suas limitações. Mas tem o azar de contracenar com dois atores em estado de graça: Laura Dern, como sua ardilosa advogada, e o próprio Driver, cuja atuação traz tanta intensidade, inconformismo e dor que é ele quem domina o filme.

Um irreconhecível Ray Liotta também tem colhido elogios, mas ainda melhores que ele estão Alan Alda, como um advogado tranquilão, Julie Hagerty, como a mãe maluquinha de Nicole, e sobretudo Martha Kelly, como a hilária avaliadora da relação entre cada cônjuge e seus filhos. Todos dão toques de suavidade a essa obra essencialmente triste, mas madura e de enorme lucidez —de longe, o melhor filme (e roteiro) da carreira de Baumbach.

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