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Lenda do desbunde carioca durante a ditadura, Jorge Salomão reúne poemas em '7 em 1'

Por causa do atual governo, poeta diz querer atuar em todas as áreas da cultura

São Paulo

Jorge Salomão nasceu há 73 anos em Jequié, na Bahia, e conversa sobre sua arte com entusiasmo quase juvenil. Poeta, letrista, performer, agitador cultural e personalidade lendária no desbunde carioca, essa figura múltipla terá agora motivo para que as pessoas discutam mais sua poderosa produção poética.

Será lançado nesta sexta (6), no Rio de Janeiro, “7 em 1”, reunião dos sete volumes de poesia e prosa poética lançadas por ele entre 1994 e 2016: “Mosaical”, “O Olho do Tempo”, “Campo da Amérika”, “Sonoro”, “A Estrada do Pensamento”, “Conversa de Mosquito” e “Alguns Poemas e + Alguns”.

Ele se empolga ao dizer que a capa foi feita pelo filho, João Salomão —“ele mora em Nova York e tem publicado muito em revistas”—, que a orelha do livro é do poeta Christovam de Chevalier e que a imortal Nélida Piñon escreveu o elogioso e carinhoso texto da contracapa. E vem mais por aí.

Ele já tem dois novos livros prontos, de prosa poética, “Campo Minado de Flores” e “Panacum”. Ele explica o segundo título: “Panacum, em tupi guarani, é o nome dado àqueles cestos oblongos que se botam em animais pelo interior do Brasil, para carregar bananas, frutas, etc. e tal”.

“Que nome lindo, esse panacum”, continua. “Em Jequié, o pessoal dizia: ‘Tá ali no panacum!’. Adorava a sonoridade.”

E há mais um livro em andamento, sobre seu irmão mais velho, o poeta Waly Salomão, morto em 2003. “É um retrato, chamado ‘Duas ou Três Coisas que Eu Sei Dele ou Waly, Waly’, que estou para fazer.”

Às vezes, quando Jorge Salomão é assunto de reportagens, parece que o interesse é maior em sua figura do que em seu trabalho. Ele ajuda esse enfoque, porque é um gerador de frases provocativas, como esta:  “Nos anos 1980, comi metade do Brasil”.

“Eu me definiria como inquieto. Faço saraus, performances, invento coisas, agrupo pessoas. Então fico mais em evidência pela minha participação física do que pelos escritos.”

Ele diz não sentir falta da valorização na imprensa. “Pessoas me param e dizem que ouviram uma música minha no rádio, dizem que a letra é bonita. Gosto de sentir a vibração do contato. Às vezes estou meio pra baixo, e alguém vem me perguntar se sou o Jorge Salomão, vem me dizer que leu algo que escrevi e achou interessante.” Em sua definição, sente esse reconhecimento espontâneo como “um jogo mágico que compõe um universo gostoso.”

“Melhor do que ser uma coisa tradicional, acadêmica. Em mim ferve algo revolucionário, progressista. Eu gosto de trocar ideias. Fiz 73 anos, e tem gente que chega nisso e fica arrogante, faz caras e bocas. Eu não me vejo nesse perfil. Sou brincalhão, moleque.”

Salomão crê que a reedição de sua obra vai resgatá-lo para outra percepção. “Os livros estavam difíceis de achar, apenas em alguns sebos. É a cultura sendo levada para o esgoto, essa confusão diária brasileira.”

A leitura da obra reunida realça mudanças de Salomão. Há um grande impacto nos trabalhos de prosa poética, e uma evolução nos poemas. Seu livro mais recente, “Alguns Poemas e + Alguns”, mostra evidente concisão, com os versos mais curtos que publicou.

“Às vezes leio um ou outro dos meus livros, porque me chamam para uma apresentação, então escolho alguma coisa”, explica. “Mas, depois de reunidos, quando fui fazer as revisões, para mim foi uma surpresa muito grande. 

Por exemplo, o ‘Campo da Amérika’ é um livro que eu acho de uma força estúpida, uma força muito grande, que mistura questões filosóficas, linguísticas, de estilos. Enfim, faz uma mistura batida no liquidificador.”

Salomão se empolga ao falar sobre os poemas em prosa. “A prosa poética é a não cristalização da poesia, que hoje virou uma coisa rígida, parnasiana. Gosto do filtro, gosto de limpar a frase. Leio em voz alta para sentir a sonoridade da coisa. Prosa poética ficou forte em mim. E não faço uma coisa redundante, acadêmica, cafona.”

Ele concentrou a maior parte das publicações em livro nos anos 1990, quando já tinha fama como letrista na MPB mais moderna da época.

“Eu comecei a entrar na música por insistência de Antonio Cicero e Waly, que faziam sucesso como letristas. Então fiz ‘Pseudo Blues’, que a Marina cantou no disco ‘Virgem’. Depois veio ‘Noite’, que a Zizi Possi gravou e estourou nas paradas, derrubou o Roberto Carlos. Uma dessas coisas mágicas.”

Salomão finaliza agora “Poéticas”, disco que deve sair em fevereiro, pelo Selo Sesc. Com mais de 70 canções gravadas por nomes como Barão Vermelho, Cássia Eller e Adriana Calcanhotto, ele escolheu dez para entrar nesse álbum, além de quatro inéditas. Antigas e novas vão estar nas vozes de Monica Salmaso, Frejat e outros amigos.

Ele diz ainda que quer ser atuante em todas as áreas, “principalmente no momento em que a cultura no Brasil está cuspida, esfacelada”. Sempre associado às manifestações culturais libertárias e vanguardistas no Rio da época da ditadura, a chamada arte do desbunde, diz que há uma opressão nos dias atuais diferente da que aconteceu no regime militar.

“A ditadura tinha uma coisa pesadíssima, mas os militares, na maioria, eram nacionalistas. Hoje o governo é sorrateiro! São fascistas, que cortam verbas mas soltam confetes para estúpidos. A gente vai ter que lutar muito para derrubar isso tudo. Esse Brasil de dificuldades, esculhambação e corrupção, ainda acho que é um país viável. Mas temos que revidar sempre, em dia de chuva ou em dia de sol.”

Divagando

o que carrega
o que tira
o que foi não foi
o dentro
o pelas beiradas
o somente
o vão livre
o afoito
o desejo
a mancha
o deserto
as palavras

Jorge Salomão
Poema do livro “Alguns Poemas e + Alguns”

7 em 1

  • Onde Lançamento nesta sexta (6), às 19h, na Livraria Argumento (r. Dias Ferreira, 417, Leblon, Rio de Janeiro)
  • Preço R$ 59,90 (252 págs.)
  • Autor Jorge Salomão
  • Editora Gryphus

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