Livros resgatam intimidade de Gerald Thomas e de Sérgio de Carvalho com o palco

Lançamentos contemplam produção de textos que foram criados desde os anos 1980

São Paulo

A publicação neste fim de ano de um livro de dramaturgia com textos de Gerald Thomas e de uma coleção de peças da Cia. do Latão —trabalhos de Sérgio de Carvalho— dá um passo para a correção de uma lacuna literária contemporânea.

O diretor Gerald Thomas dirige a atriz Bete Coelho na peça 'Carmem com Filtro 2' em São Paulo - Silvio Ferreira/Folhapress

Ditou-se, desde os anos 1980, entre artistas de teatro, que textos produzidos em determinados tipos de processo criativo eram parte de uma obra, não a obra em si.

A polifonia, a fragmentação e as questões de autoria colaborativa redundavam sempre numa mesma pergunta: por que publicar um trabalho se ele, a priori, é uma etapa de determinada criação?

Não é questão que cabe a um Nelson Rodrigues, por exemplo, cujas 17 peças hoje são lidas como obras autônomas. 

Os livros “Um Circo de Rins e Fígados” (Edições Sesc), com textos de Thomas e organização de Adriana Maciel (o lançamento está marcado para esta quarta, 11),  e “Três Peças da Companhia do Latão” (editora Temporal), com peças de Carvalho, são esqueletos que até podem ter sido criados em processos individuais, mas ganharam forma no exercícios sobre o palco. 

Thomas acha que a própria publicação de suas peças agora dá autonomia ao trabalho e permite, por exemplo, que estudantes e pesquisadores tenham acesso à sua escrita. São trabalhos que ele criou, em boa parte, num estúdio em Nova York —e que foram depois transformados, editados, cortados em cena. 

Carvalho diz que “a publicação ou não publicação [de textos] tem mais a ver com a qualidade literária da obra para além da cena”. Diz respeito a “seu potencial de estimular leituras em outros tempos,
o que implica algum reconhecimento de importância.”

Sobre o cenário teatral do qual faz parte, o autor diz que “de fato, em muitos trabalhos, a força estava na cena mesmo, como em alguns roteiros de filme: só faz sentido publicar se para de pé sozinho.”

Thomas não se vê, por exemplo, reencenando um de seus próprios textos que ora publica. Ele também ressente —“desculpe a depreciação”— que a organização da publicação não inclua desenhos de cenário, marcações de luz e de tempo, elementos registrados nos seus ainda arquivados cadernos de direção.

Os textos de Thomas não são idênticos aos que o espectador viu durante a temporada de um espetáculo. “Quando você encontra o pessoal [os atores], no dia seguinte a uma estreia, às duas da tarde, muita coisa vai ser mudada”, diz.

“Nem sempre o que está no livro é a última versão apresentada”, prossegue. “Muitas são primeiras versões, porque não se encontrou [a última].” 

Os motivos dessas ausências são inúmeros, diz. “Trabalhei por muito tempo em uma época em que nem sequer havia computador”, exemplifica.

Uma exceção, conta, é a versão de “Ventriloquist”, adaptação para “Moses und Aron”, do compositor austro-húngaro Arnold Schoenberg, que Thomas havia montado na Áustria. Segundo ele, Ivan Sugahara, então seu assistente, era metódico e registrava todos os tipos de alteração que ele fazia nesse texto. Esse cuidado permitiu a preservação, impressa, do texto resultante de todo o processo criativo.

Na prática, porém, existe um hiato bastante relevante entre a data da encenação, por exemplo de “Carmem Com Filtro 2”, em 1988 (sequência de “Carmem com Filtro”), e sua publicação agora, 30 anos depois. Em crítica de Edélcio Mostaço para a Folha, em 1986, “Carmem com Filtro” é descrita como “síntese de muitas outras ‘Carmem’”, da novela de Mérimée à ópera de Bizet. O texto de Mostaço e outras críticas de jornais estão presentes na coletânea.

“Carmem” já traz um traço marcante da produção textual de Thomas: tem passagens metalinguísticas em abundância e referências diretas a obras inúmeras, da Bíblia ao clima de fim de jogo de Samuel Beckett, autor que influenciará praticamente toda a trajetória do dramaturgo.

“Essa moça que passou por aqui; engraçado... não posso dizer que ela me seja familiar, mas também não posso dizer que ela me seja estranha”, diz um personagem da peça. É um tipo de construção de acento absurdo que o autor persegue ainda em suas últimas peças. Bete Coelho, Luiz Damasceno, Edilson Botelho e Magali Biff estavam no elenco. 

São atores que acompanharam Thomas até pelo menos o fim dos anos 1990. E que, como diz o encenador, adotavam em cena o que passou a ser chamado por eles de “postura de fim de milênio”. Mais um traço da influência de Beckett, repete-se a sensação de um fim que está sempre se aproximando. 

Na tal postura de fim de milênio, eram frequentes “as cabeças meio baixas”, diz Thomas. “Era uma maneira de se comportar”. Mas, enquanto Beckett produzia essa depressão associada ao período do pós-guerra, havia nas peças de Thomas um acúmulo de informações típico da massiva presença de mídias, a TV, a moda, as artes, a internet.

Em texto de introdução do livro, Flora Süssekind fala de  “indagações diretas, em cena, sobre a possibilidade de fim do fim, de imbricamento entre morte e reinvenção”. 

Depois de Thomas, o cenário brasileiro é marcado pelo surgimento do Teatro da Vertigem, nos anos 1990. Com o grupo, surge um confronto ainda mais direto ao modelo de dramaturgia produzida individualmente. Desde “Paraíso Perdido”, primeira parte da chamada Trilogia Bíblica, o grupo faz uma aproximação ainda mais radical entre cena e a produção de roteiros. 

É desse cenário que sai Sérgio de Carvalho. Antes de formar o Latão, o dramaturgo colaborou com a criação da dramaturgia de “Paraíso Perdido” (1992), em coautoria com Antônio Araújo. Ainda hoje,
no site do Vertigem, essa escrita assinada por eles é classificada como “roteirização”.

A coletânea de Carvalho traz os volumes “Os Que Ficam”, “Lugar Nenhum” e “O Pão e a Pedra”. Também são peças que partem de uma escrita prévia, e que vão se moldando a um “laboratório” de experimentações no palco. Carvalho vê os atores do Latão como colaboradores neste processo.

Ele conta que há casos em que chega aos ensaios com um conjunto de personagens a serem interpretados. “Peço então para os atores sugerirem cenas, improvisarem em cima de um argumento.” E diz que os textos do Latão têm encenações fora do grupo.

Ressalta ainda que as peças publicadas representam uma produção que segue o declínio do lulismo a partir de 2013 e refletem um cenário em que o debate político se tornou mais presente. “Os que Ficam” se destaca nesse conjunto por ser “ainda mais colaborativa”, incluindo-se à “colagem” de textos de Augusto Boal.

Um Circo de Rins e Fígados

  • Quando Lançamento nesta quarta (11), às 20h
  • Onde Sesc Avenida Paulista (av. Paulista, 119)
  • Preço R$ 95 (594 págs.)
  • Autor Gerald Thomas (Organização: Adriana Maciel)
  • Editora Edições Sesc São Paulo

Três Peças da Companhia do Latão

  • Preço R$ 145 (inclui “Os Que Ficam”, 144 págs.; “Lugar Nenhum”, 176 págs., e “O Pão e a Pedra”, 232 págs.)
  • Autor Sérgio de Carvalho
  • Editora Temporal

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.