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Livros

Nova antologia de Primo Levi traz relatos do Holocausto com clareza clássica

Sai no Brasil 'Mil Sóis', uma bela edição de poemas do prosador que trouxe seus leitores para dentro das piores experiências do seu século

Ricardo Domeneck

Mil Sóis: Poemas Escolhidos

  • Preço R$ 54,90 (160 págs.)
  • Autor Primo Levi
  • Editora Todavia
  • Tradução Maurício Santana Dias

A editora Todavia trouxe aos leitores brasileiros, neste ano do centenário do autor Primo Levi, uma alentada antologia de seus poemas: "Mil Sóis: Poemas Escolhidos", com tradução e introdução de Maurício Santana Dias. Químico de formação, não afeito a mistificações, sua poesia é de uma clareza que torna ainda mais pungente a escuridão do século em que escreveu. Pois, em fevereiro de 1944, Levi foi deportado para o campo de extermínio de Auschwitz, entre 650 outros homens, mulheres e crianças. Duas dezenas sobreviveriam.

Quando mais tarde escreveu sobre experiência tão atroz, o fez com a coragem que faria dele um dos grandes autores do século. Um dos poemas do livro parece-me um dos mais terríveis da poesia moderna, com sua aura de praga.

Intitulado “Shemà”, a ordem de um “Ouça!”, trata-se de uma oração central dos ritos judaicos. A oração referencia o Livro de Deuteronômio, no qual se lê: “E estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; / e as intimarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te, e levantando-te.” No poema de Primo Levi, isso se torna: “Vós que viveis seguros/ Em vossas casas aquecidas/ Vós que achais voltando à noite/ Comida quente e rostos amigos:/ Considerai se isto é um homem,/ Que trabalha na lama/ Que não conhece paz/ Que luta por um naco de pão/ Que morre por um sim ou por um não”.

 

Esse poema serviria de epígrafe para o trabalho em prosa que o tornaria famoso, "Se Isto é Um Homem", de 1947, relatando suas experiências no campo. É um dos primeiros trabalhos a enfrentar a grande mancha do seu século, junto de "A Espécie Humana" de Robert Antelme, publicado no mesmo ano. Primo Levi retoma o tom bíblico ao encerrar seu poema com estes versos aterradores: “Meditai que isto aconteceu:/ Vos comando estas palavras./ Gravai-as em vossos corações/ Estando em casa, caminhando na rua,/ Deitando, levantando:/ Repeti-las a vossos filhos./ Ou que vossa casa se desfaça,/ A doença vos impeça,/ Vossa prole desvie o rosto de vós”.

Não há, no entanto, incitação à vingança. Talvez seja surpreendente a alguns chegar às páginas finais do livro e encontrar um poema como “Os Mortos em Vão”, no qual Levi refere-se ao “exército dos mortos em vão,/ Nós do Marne e de Montecassino,/ De Treblinka, de Dresden e Hiroshima”.

Sim, de Treblinka, e também os de Dresden, a cidade alemã bombardeada pelos aliados quando a guerra já estava praticamente encerrada. É de uma fortitude ética impressionante. Não se trata de conciliação fácil.

Estes mortos, entre os quais o poeta italiano inclui também os desaparecidos políticos de Buenos Aires durante a ditadura militar e os mortos por bombas americanas no Camboja, acabam por dizer a nós, os vivos: “Sentem-se e negociem/ Até que suas línguas sequem:/ Se persistirem o dano e a vergonha,/ Nós as afogaremos em nossa podridão”.

Outros poemas são dedicados, numa verdadeira Zoopoética, a elefantes, toupeiras, aranhas e formigas.

No belo “O elefante”, fala um dos elefantes mortos na expedição contra Roma do cartaginês Aníbal, cruzando os Alpes. Em “Fileira Escura”, sobre uma colônia de formigas entre os trilhos do transporte urbano em Turim, evoca-se aquele outro transporte escuro dos judeus para os campos. Ao responsável pela organização nazista desses transportes, Adolf Eichmann, o poeta dedica outro poema de grande força. Datado de 20 de julho de 1960, dois meses depois da captura de Eichmann na Argentina pelo Mossad, Primo Levi nos deixa com um dos argumentos mais claros contra a pena de morte, não por compaixão, mas por algo talvez mais próximo de uma justiça não apaziguadora: “Ó filho da morte, não lhe desejamos a morte./ Que você viva tanto quanto ninguém nunca viveu:/ Que viva insone cinco milhões de noites,/ E que toda noite lhe visite a dor de cada um que viu/ Encerrar-se a porta que barrou o caminho de volta,/ O breu crescer em torno de si, o ar carregar-se de morte”.

São textos de clareza clássica. O título da antologia é bastante apto neste aspecto. E ao manter a ordem cronológica dos poemas, todos com datas, o organizador cria uma sensação ainda maior de intimidade em seu aspecto diarístico. Sua poesia circulou em pequenas tiragens, e Primo Levi segue famoso como prosador. Mas está aí sua poesia. Apesar dos temas sombrios que o autor enfrenta, o leitor sai de "Mil Sóis" com o desejo de o colocar à cabeceira da cama, como uma lâmpada. Ou uma garrafa de água.

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