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Tarcísio Meira e Luiz Ruffato discutem importância de 'O Continente', de Érico Veríssimo, relançado em SP

Evento que comemorou aniversário de 70 anos da obra contou com a presença de Luis Fernando Veríssimo, filho do escritor

Guilherme Henrique
São Paulo

"Ele sabia que queria escrever algo grandioso, mas não imaginava que estaríamos aqui, 70 anos depois, debatendo seu livro". A confissão do escritor Luis Fernando Veríssimo à Folha ocorreu na noite desta segunda-feira (9), no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, em São Paulo, durante o lançamento da edição comemorativa de "Continente", primeiro volume da trilogia de "O Tempo e Vento", escrita por Érico Veríssimo e publicada em 1949.

Luis Fernando acompanhou da primeira fila o debate realizado pela Companhia das Letras, que reuniu o ator Tarcísio Meira e o escritor Luiz Ruffato. A mediação ficou a cargo da jornalista e tradutora Livia Deorsola. "Estarmos aqui hoje é um ato de resistência pela cultura, que está sendo destruída pelo atual governo", disse Ruffato, antes descrever a gestão em voga como "a irracionalidade que chegou ao poder".

O ator Tarcísio Meira, durante evento de 70 anos de 'O Continente', de Erico Verissimo, no teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, em São Paulo - Eduardo Anizelli/ Folhapress

Ruffato conheceu a trilogia vasculhando os livros na casa de uma tia em Minas Gerais, ainda na adolescência. Ele diz acreditar que a história contada por Érico Veríssimo não pode ser caracterizada como regionalista, lugar que ocupa ao lado de escritores como Graciliano Ramos, Jorge Amado e Rachel de Queiroz. "Esse livro é o maior conjunto de reflexão histórica sobre a história política brasileira."

Para o escritor, no entanto, a magnitude da obra ainda não foi totalmente descoberta. "Poucos puderam alcançar o patamar do Érico nesse livro. Talvez a falta de reconhecimento seja porque parte da crítica literária brasileira não goste e tenha preconceito com autores que fazem sucesso". 

No total, "O Tempo e o Vento" possui sete volumes, divididos em três fases: "O Continente" (1949), "O Retrato" (1951) e "O Arquipélago" (1961). A trilogia narra a história do Rio Grande do Sul e do Brasil, a partir da cidade fictícia de Santa Fé, com as relações entre as famílias Terra, Caré, Cambará e Amaral. O percurso narrado pelo autor vai de 1745, com as missões jesuíticas, até 1945 e a chegada do Estado Novo.

Ao percorrer os séculos 18, 19 e 20, Ruffato diz que história ajuda a construir um panorama do Brasil que se mantém até hoje. "Os interesses de certa burguesia e aristocracia que se sobrepõe às necessidades da nação estão aí", comenta. "Não forjamos um senso de nação. Temos um país, mas essa nacionalidade talvez nunca tenha existido", completa.

Responsável pela leitura de alguns trechos de "O Continente" ao longo do evento, Tarcísio Meira, hoje aos 84 anos, chegou ao debate em uma cadeira de rodas, culpando a dificuldade de locomoção às três cirurgias realizadas no joelho esquerdo. Ele conta ter conhecido a obra durante uma viagem ao Rio Grande do Sul, entre 1963 e 1964. Vinte anos depois, quando a Globo decidiu fazer a minissérie "O Tempo e o Vento", o ator foi convidado pelo diretor Paulo José para interpretar Rodrigo Cambará, um dos personagens centrais da trama.

Os atores Tarcísio Meira e Louise Cardoso durante gravação da minissérie 'O Tempo e o Vento', da Rede Globo - Divulgação

"Eu já não tinha mais idade para viver um capitão jovem, mas o Paulo garantiu que eu ficaria bem no papel", conta. Ele tinha 50 anos quando interpretou o personagem, definido por ele como "o mais importante" da carreira.

Ao ser questionado sobre as características de Rodrigo Cambará, Tarcísio Meira afirmou que ele "namorava muito", mas ressaltou que o capitão "é o que todo homem gostaria de ser, e o homem que toda mulher gostaria de ter". Livia Deorsola, responsável pela mediação, retrucou: "Olha, hoje eu já não diria isso".

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