Descrição de chapéu The New York Times

Advogada de Harvey Weinstein considera o movimento #MeToo perigoso

'Não podemos aceitar movimentos que nos privam de nossos direitos fundamentais', disse Donna Rotunno

Jan Ransom
Nova York | The New York Times

O julgamento de Harvey Weinstein por estupro havia começado cerca de uma hora antes quando surgiram as primeiras críticas à principal advogada de defesa. A promotoria classificou uma campanha de mídia recentemente empreendida para desacreditar as acusadoras do empresário como uma “abominação”, e pediu que o juiz tomasse providências a respeito, com uma ordem de censura.

Mas a advogada de defesa, Donna Rotunno, imediatamente rebateu às críticas da procuradora pública, Joan Illuzzi.

“Illuzzi vem a este tribunal definir meu cliente como predador, e aí tem a cara de pau de dizer que eu não deveria discutir o caso publicamente. Ela quer que todo mundo condene Weinstein antes que qualquer prova seja apresentada a este tribunal”, declarou a advogada .

Muito antes que uma avalanche de acusações contra Weinstein desse início a um acerto mundial de contas com relação ao assédio sexual, Rotunno já vinha construindo uma carreira como advogada criminalista em Chicago, com uma especialização incomum: defender homens acusados de crimes sexuais.

Enquanto crescia o momento #MeToo, ela assumiu a posição de adversária, argumentando que a corrida para condenar publicamente os homens acusados de desvios de conduta e agressão sexual estava destruindo reputações e carreiras de forma extrajudicial. Mesmo que o movimento tenha beneficiado a causa das mulheres, o preço foi alto demais, ela afirmou.

“Se tivermos 500 coisas positivas que vieram de um movimento, mas a única coisa negativa produzida por ele seja privar as pessoas de seu direito a julgamento justo e às proteções da lei, e à suposição de inocência, em minha visão nenhuma dessas coisas boas pesa mais do que a única coisa ruim. Não podemos ter movimentos que nos privem de nossos direitos fundamentais”, disse ela em entrevista .

Weinstein, que não escondeu sua intenção de recorrer a uma mulher como sua defensora no tribunal, convidou Rotunno para comandar sua equipe de defesa em maio, depois de se desentender com duas equipes de advogados lideradas por homens.

 
Donna Rotunno fala em defesa de seu cliente, Harvey Weinstein, que é acusado de cometer crimes sexuais
Donna Rotunno fala em defesa de seu cliente, Harvey Weinstein, que é acusado de cometer crimes sexuais - REUTERS/Jeenah Moon/File Photo

De lá para cá, Rotunno emergiu como uma figura paradoxal e polêmica, que decidiu defender um homem desprezado por muitas mulheres como personificação do chauvinismo e dos desvios de conduta.

Isso lhe valeu o desdém de algumas defensoras dos direitos da mulher, que deram a entender que o que a motiva é menos o apego aos princípios legais do que o desejo de ganhar reconhecimento e conquistar novos clientes.

Harvey Weinstein deixa julgamento em Nova York, no qual respondeu a denúncias de abuso sexual.
Harvey Weinstein deixa julgamento em Nova York, no qual respondeu a denúncias de abuso sexual. - Scott Heins/Getty Images/AFP

“Sua disposição de dizer que o #MeToo foi longe demais está vinculada a uma sequência firme de grandes cheques de pagamento de honorários, mas não tem base em fatos”, disse Jane Manning, ativista que defende vítimas de estupro e que foi procuradora pública na área de crimes sexuais em Nova York.

Embora o movimento tenha encorajado as mulheres a se pronunciarem sobre agressões sexuais e exposto os fracassos das agências policiais e de justiça em punir alguns dos homens responsáveis por esses crimes, na opinião de Rotunno o pêndulo cultural se inclinou demais. Muitos de seus clientes são considerados culpados até que se provem inocentes, segundo ela

Rotunno declarou que embora seja inaceitável que mulheres sejam forçadas a fazer qualquer coisa que não queiram, ela acredita que devam arcar com a responsabilidade por suas decisões.

“Não se pode ter as duas coisas, supor que você possa fazer o que quer que deseje sem consequências, e entrar em qualquer situação que deseje, e aí se retratar como vítima. Fazer sexo voluntariamente com alguém, mesmo que a contragosto, não se torna crime depois do ato”, disse Rotunno.

Ela acrescentou que “o acontece com o #BelieveAllWomen é que devemos supostamente acreditar em todas as afirmações sem qualquer reação, sem questionamento, sem interrogatório. E em minha opinião isso é perigoso”.

Rotunno cresceu no subúrbio de Chicago, neta de um policial e filha de um empresário do ramo de varejo e de uma professora.

Já na infância, se fascinou com a prática do Direito ao assistir à série “The Paper Chase”, que falava de um aluno de primeiro ano na Escola de Direito da Universidade Harvard.

Ela estudou em uma faculdade católica local, se formou em direito pelo Kent College of Law, em Chicago, e começou a trabalhar como assistente jurídica na procuradoria do condado de Cook, em 1997. Três anos depois, se tornou procuradora estadual assistente no Illinois, trabalhando em casos de violência doméstica e crimes.

Em 2003, ela começou a trabalhar para um advogado de defesa, e dois anos mais tarde, aos 29 anos, abriu seu escritório de advocacia.

“Ela decidiu fazer algo que muitas mulheres não fazem: trabalhar por sua conta”, disse David Erickson, juiz aposentado que era chefe de Rotunno na procuradoria estadual. 

Em Chicago, a advogada se tornou conhecida por seu estilo pessoal e por vencer casos criminais; sua especialidade são processos por crimes sexuais.

“Ela dominava profundamente os fatos dos casos e a lei. Ela é um buldogue no tribunal”, disse Stanley Stallworth, advogado de Chicago que Rotunno defendeu com sucesso contra uma acusação de agressão sexual. 

Ao entrar no tribunal em uma manhã típica de trabalho, em agosto, Rotunno, disse acreditar que “os jurados apreciam as pessoas que se orgulham de se vestir bem” enquanto usava uma saia Salvatore Ferragamo com estampa geométrica e uma blusa, e carregava uma grande bolsa de couro no braço esquerda. O ruído dos saltos altos de seus sapatos Jimmy Choo era audível, e ela usava ao redor do pescoço uma delicada corrente de ouro com um medalhão onde se lia “inocente”.

Rotunno, que se descreve como “independente mas razoável”, em termos políticos, disse que o efeito do #MeToo sobre as interações rotineiras entre homens e mulheres a incomoda.

“É triste que os homens precisem se preocupar ao serem agradáveis e elogiosos com relação a uma mulher”, afirmou ela. 

Quando o assunto são os crimes sexuais, Rotunno saiu derrotada em apenas um julgamento. Um desenho que retrata a cena decora a parede de seu escritório.

O cliente dela no caso, Demarco Whitley, que tinha 19 anos na época, era um antigo jogador de futebol americano em uma escola de segundo grau que terminou sentenciado a 16 anos de prisão por estuprar uma menina de 15 anos.

Rotunno acreditava que o “verdadeiro perpetrador” tivesse sido o primo de Whitley, também acusado de participar do ataque mas que morreu em um acidente de automóvel antes do julgamento. Segundo a advogada, seu cliente era apenas “um seguidor”.

Ela interrogou ferozmente a vítima adolescente, porque “a história dela não é grande coisa”. Mais tarde, pediu ao procurador público que transmitisse uma mensagem à menina: “diga que eu tinha um trabalho a fazer. Não quero que isso defina o que virá a acontecer com ela”.

A disposição de trazer os acusadores com dureza serviu bem a Rotunno, por exemplo quando ela conseguiu a absolvição de Elhadji “Haj” Gueye, um renomado estilista de moda que foi acusado de estuprar uma mulher no condomínio onde os dois viviam. O júri considerou que havia dúvida razoável sobre o crime, depois de Rotunno argumentar que a mulher havia preparado uma armadilha a fim de extorquir US$ 50 mil de Gueye.

Advogados de defesa e procuradores públicos que a conhecem dizem que Rotunno é habilidosa em encontrar indícios e expor inconsistências em depoimentos. “Quando ela entra no tribunal, sabe o que está escrito em todos os papéis que tiver recebido”, disse Maria McCarthy, procuradora de justiça no condado de Cook que já enfrentou Rotunno no tribunal.

Seu talento em interrogar depoentes foi evidenciado em uma audiência recente em Chicago, quando interrogou gentil, mas persistentemente, uma menina que dizia ter sido espancada e empurrada pelo pai.

A advogada expôs o fato de que o relato da menina contradizia suas declarações anteriores. Em seguida, Rotunno argumentou vigorosamente que a mãe da jovem tinha vontade de se vingar do pai, e que havia usado a criança como instrumento para isso. Um juiz descartou o processo.

O talento de Rotunno de solapar acusadores no banco de testemunhas será colocado em teste no julgamento de Weinstein. A procuradoria pública de Manhattan planeja convocar seis mulheres a depor sobre suas acusações de que Weinstein as agrediu sexualmente, ainda que muitos desses incidentes tenham acontecido há tempo demais para que possam servir de base a acusações criminais.

O caso da procuradora depende quase inteiramente de que o júri acredite nos relatos das mulheres, porque as provas físicas são escassas ou inexistentes.

Weinstein está sendo acusado de estuprar uma mulher em um quarto de hotel em Manhattan em 2013 e de forçar uma segunda mulher a fazer sexo oral em seu apartamento, em 2006.

Como mulher, Rotunno antecipa que poderá adotar linha mais dura de interrogatório contra as acusadoras de Weinstein sem parecer que as está intimidando. Ela disse que os jurados verão duas mulheres tendo uma conversa.

Gloria Allred, advogada que representa duas das acusadoras de Weinstein, discorda. “Intimidação é intimidação, não importa o gênero de quem a pratique. Não acredito que seja apropriado atacar uma vítima no banco de testemunhas”, afirmou. 

Allred crescentou que “se é essa sua estratégia, ela talvez venha a descobrir que os júris de Nova York rejeitam essa tática”.

A procuradoria pública deu a entender que retratará Weinstein como um poderoso produtor de cinema que forçava e manipulava mulheres para que fizessem sexo com ele.

Rotunno disse que seu trabalho seria convencer o júri não só de que os encontros foram consensuais mas de que as mulheres estavam manipulando Weinstein. Ela apontou que ambas as acusadoras haviam mantido relacionamentos com Weinstein depois das supostas agressões.

“Sim, ele é um cara poderoso. Mas acho que é porque ele era um cara poderoso que elas o usavam, usavam e usavam, para obter tudo que pudessem”.

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