Descrição de chapéu

As reações contrárias a Regina Duarte nascem de infantilismo político

Trajetória da atriz é marcada por importantes papéis para a sociedade brasileira

Por que acreditam que um ator como José de Abreu seja de esquerda? Que esquerda? Do churrasco na laje? Deve ser a esquerda de quem leu só apostila no Supletivo.

Fosse alguém politicamente alfabetizado (atenção: diferente de alguém apenas “engajado”), saberia o que defendia Lênin diante de seus colegas bolcheviques: você deve usar os espaços do próprio sistema para modificá-lo por dentro.

Foi o que já praticaram personagens seminais da cultura brasileira em estados de guerra. Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Rodrigo Mello Franco Andrade, entre outros, deram seu talento sob a ditadura sanguinária do Estado Novo.

Roberto Farias, Aloisio Magalhães, Sábato Magaldi, entre outros, ocuparam cargos na também sanguinária ditadura militar.

Drummond não era fascista, tampouco Roberto Farias, que fez um dos filmes mais acapachantes sobre o período militar, "Pra Frente, Brasil", ainda com os milicos no poder. Isso sim é ser macho, não ser guerrilheiro de Twitter.

Dito isso, a reação ao convite para que Regina Duarte assuma a Secretaria Especial da Cultura revela espécie de infatilismo politico. Goste-se ou não, Bolsonaro foi eleito por maioria (ao contrário das ditaduras varguista e militar).

A inepta ex-ministra Ana de Hollanda rechaçou a indicação porque Duarte não se manifestou contra certas posições de Bolsonaro.

Até o momento em que escrevo, Ana e seus companheiros de luta não fizeram autocrítica dos governos petistas. O que José de Abreu comenta sobre as delações do camarada Palocci, braço financeiro de Lula e Dilma?

Ana também não refutou as famosas declarações misóginas de Lula. Isso fica de barato para não configurar preconceito de classe. José de Abreu cobrou de Lula sua constante apologia da ignorância ao fato de chegar à Presidência sem haver estudado?

São os chamados silêncios em nome da causa. Em 1938, André Gide visitou a União Soviética. E não gostou do que viu. Foi dos primeiros a escrever sobre as atrocidades de Stálin (mortes de inimigos nos campos da Sibéria). Reação dos camaradas? As obras de Gide ficaram numa espécie de índex e usaram sua homossexualidade para desautorizá-lo.

Não cobre coerência de quem diz falar em nome do povo.

Interessante que a trajetória de Regina Duarte traz melhor folha de serviços prestados à causa do que a obra epistolar dos "tuiteiros". Por décadas, houve preconceito contra as telenovelas. Eram vistas como alienantes. Há pouco estudos acadêmicos mostraram o inverso: a temática delas auxiliou na liberação de temas que eram tabu junto à sociedade brasileira, como independência feminina, divórcio, aborto, discussão de gênero.

Roteiristas de esquerda como Braulio Pedroso ou o grande Dias Gomes pensaram como Lênin: mudar o sistema por dentro. Vale acrescentar que os dois autores são memoráveis —e não lembrados apenas por serem engajados.

Os episódios de "Malu Mulher", protagonizada por Regina Duarte, à época a atriz mais conhecida do país, calaram fundo na alma das mulheres num instante difícil da vida brasileira. Havia ali uma sedição nada silenciosa. A revolução feita por dentro do aparelho. A Igreja chiou, as revoltadas de Santana levantaram a cruz, mas houve uma aquiescência da sociedade feminina através de imensa audiência.

Aliás, o que os pastores de Bolsonaro pensam de Regina Duarte, ou ainda Damares, já que a atriz ao seu tempo foi um ícone do amor livre? Já sei: farão selfies com ela.

Na ponta do lápis, Regina, ao não correr para o cargo, pôs Bolsonaro numa posição de dependência. Mostrou (espero) não ser um capacho como Roberto Alvim. Fica claro que Regina jamais xingará Fernanda Montenegro para puxar saco dos milicianos.

Depois, a esquerda petista deve reconhecer sim que existe uma direita na cultura brasileira. Regina parece estar mais para José Guilherme Merquior do que para Marilena Chauí. Isso não é ruim.

Por fim, por que Bolsonaro buscou Regina Duarte, que nasceu e floresceu junto da Globo, e não alguém de suas emissoras preferidas (SBT, Record, Rede TV!), como Luciane Gimenez? Magoou, Silvio.

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