Caetano Veloso canta com clarinetista e revê o passado em disco de releituras

Álbum com voz e violão marca a primeira vez que o tropicalista grava 'Você Não Gosta de Mim'

São Paulo

Caetano Veloso conheceu Ivan Sacerdote dois verões atrás. “Ele apareceu aqui em casa no meio de uma pá de talentos musicais soteropolitanos”, diz o cantor e compositor. “Quem o trouxe aqui foi Magary Lord, grande figura da música de dança e do Carnaval da cidade.”

O clarinetista é a principal companhia do tropicalista em seu novo disco, “Caetano Veloso & Ivan Sacerdote”, lançado nesta quinta (16). O álbum, gravado “sem compromisso”, tem releituras de nove músicas de Caetano, todas em voz e violão, e com o acompanhamento do clarinete de Sacerdote.

Apesar de jovem, o músico baiano —de “sopro doce, música firme”, segundo Caetano— já é reconhecido em seu instrumento. Bacharel em clarinete e mestre em música pela Universidade Federal da Bahia, ele já 
tocou com artistas do tamanho de Hermeto Pascoal, Paulinho da Viola e Seu Jorge.

Mas o que chamou a atenção de Caetano, num dos encontros em Salvador, foi ouvir Sacerdote tocando “Futuros Amantes”, de Chico Buarque.

A dupla começou a tocar com o clarinetista improvisando nas músicas de Caetano. A parceria não renderia um disco, mas foi evoluindo e os dois foram a Salvador e Nova York para registrar o áudio e uma série de vídeos do encontro.

O repertório é antigo, mas tem mais músicas dos anos 1990 —são cinco—, contra três dos anos 1980 e uma da década de 1970. Por parte de Caetano, há um olhar especial para os álbuns “Livro”, de 1997, e “Aquele Frevo Axé”, de Gal Costa, de 1998.

“Acho ‘Livro’ um dos meus melhores discos”, diz, sobre o álbum de “Onde o Rio é Mais Baiano”, “Manhatã” e “Minha Voz, Minha Vida”, todas no projeto com Sacerdote.

“Manhatã”, diz Caetano Veloso, “foi feita depois de, passeando por Nova York com Lulu Santos, ouvir dele o murmúrio ‘Manhatã, Manhatã…’ em tom de redescoberta do lugar. Lembrou-me que, num poema de Sousândrade, há uma rima de Manhattan com uma palavra em 'ã'”.

Mas a grande novidade do álbum com Sacerdote é um pedido do filho Tom. A música “Você Não Gosta de Mim” foi gravada por Gal Costa, mas nunca tinha sido registrada na voz do autor.

“É de um momento muito triste da minha vida”, diz Caetano. “É uma música cuja letra eu não lembrava, fui me esforçar para rememorar e achei que era muito bonita, me deu vontade de chorar. Cantei umas vezes em casa, tentando ter as palavras decoradas."

“Acho que, no vídeo, estou muito frio, neutro, ao cantá-la —eu estava me esforçando para não errar a letra. Não gosto de cantar lendo, então tinha que lembrar tudo aquilo na frente das câmeras e dos microfones.”

Um vídeo de Caetano ensaiando a música na turnê “Ofertório”, inclusive, já circulava nas redes sociais. “Eu a estava cantando para ver se me reacostumava com a letra”, diz. “É uma letra que diz literalmente o que eu estava sentindo quando a escrevi. São mesmo coisas de amor vividas.”

Também há músicas mais velhas, como “Desde que o Samba é Samba”, de “Tropicália 2”, de 1993, “Trilhos Urbanos”, de “Cinema Transcendental”, de 1979, e “O Ciúme”, de “Caetano Veloso”, de 1987.

“Peter Gast”, de “Uns”, de 1983, foi um pedido de Sacerdote, assim como “Aquele Frevo Axé” —uma das que o clarinetista tocava com Cezar Mendes, autor da melodia original e que toca violão no novo disco. A canção saiu no álbum homônimo de Gal Costa, e Caetano a gravou no ao vivo de “Zii e Zie”, de 2011.

Além de “Caetano Veloso & Ivan Sacerdote”, Caetano já pensa no próximo trabalho de inéditas —seria o primeiro desde “Abraçaço”, de 2012, mas adianta pouco do trabalho.

“Quero, sim, gravar um disco novo. O [álbum com] Sacerdote não foi um projeto de disco. Mas acho que Paulinha [Lavigne] já tinha visão de que o que se ouvia ali tinha potencial para ser lançado profissionalmente. Não faço ideia do que poderá haver de ‘Ivan’ num futuro álbum meu. Nem sei o quanto de ‘Ofertório’ haverá nele.”

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