Chefe do Grammy fala em retaliação por expor 'clube dos meninos'

Deborah Duggan apresentou queixa que diz que nomeação à premiação está contaminada de conflitos de interesse

Ben Sisario
The New York Times

Deborah Duggan, presidente da Recording Academy, a organização que entrega o Grammy, foi posta de licença e afirmou, em uma queixa à Comissão de Igualdade no Emprego que sua remoção do posto aconteceu como retaliação por ela ter exposto diversos delitos de conduta na instituição, entre os quais assédio sexual, procedimentos de votação inapropriados e conflitos de interesse no conselho.

A queixa de Duggan detalha seu conflito com diversos homens poderosos da instituição. Mas as acusações dela também representam um ataque à Recording Academy em si, que vem enfrentando dificuldades para reparar sua reputação depois de sofrer severas críticas por seu péssimo histórico 
no reconhecimento de mulheres e pessoas não brancas.

O documento afirma que o predecessor de Duggan, Neil Portnow, havia sido acusado de estupro por uma artista e que o conselho da academia tinha marcada uma votação sobre o pagamento de uma bonificação a ele, embora nem todos os membros tivessem sido informados sobre a queixa.

O documento também afirma que a própria Duggan foi alvo de avanços sexuais indesejados por parte de Joel Katz, um poderoso advogado do setor.

Deborah Dugan anuncia os indicados ao 62º prêmio Grammy
Deborah Dugan anuncia os indicados ao 62º prêmio Grammy - Mike Segar/REUTERS

Portnow, que não foi acusado de crimes, não respondeu a uma mensagem solicitando comentários, e Katz contestou o relato de Duggan.

Essas diversas formas de comportamento, segundo a queixa de Duggan, “foram todas tornadas possíveis pela atmosfera de ‘clube de meninos’ e pela abordagem da academia quanto à governança”.

Em resposta, a Recording Academy afirmou que “é curioso que Duggan jamais tenha mencionado essas graves acusações até uma semana depois de ser alvo de uma queixa judicial”. Nela, uma subordinada afirma que Duggan criou um ambiente de trabalho “tóxico e intolerável” e que tinha conduta “abusiva e intimidante”’.

A academia afirmou que as investigações sobre a conduta de Duggan e sobre as acusações que ela fez continuam, e que ela foi “posta em licença administrativa apenas depois de se oferecer para renunciar ao posto e exigir uma indenização de US$ 22 milhões (R$ 91,6 milhões)”. Ela afirma que a informação sobre a exigência é “completamente falsa”.

Duggan, 61, que assumiu a presidência da Recording Academy em agosto depois de passar oito anos trabalhando para a Red —organização assistencial cofundada por Bono, do U2, que trabalha no combate à Aids e outras doenças na África—, também afirma em sua queixa que os procedimentos de votação da academia estão repletos de irregularidades que parecem encaminhar indicações a artistas associados ao conselho.

A deposição de Duggan no dia 16 de janeiro —dez dias antes da cerimônia do Grammy— chocou o setor de música no momento em que este costuma receber mais atenção da mídia americana. Também pôs em risco a mensagem cuidadosamente calibrada de reforma que a Recording Academy vinha tentando transmitir.

Tradução de Paulo Migliacci

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