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The New York Times Cinema

Disputa pelo Oscar de melhor filme é a mais incerta em muito tempo

A esta altura do ano passado, a principal batalha era uma briga direta entre 'Green Book - O Guia' e 'Roma'

Kyle Buchanan
The New York Times

​A corrida pelo Oscar de atuação deste ano dificilmente poderia oferecer menos suspense: os troféus já podem ser gravados com os nomes de Joaquin Phoenix (“Coringa”), Renee Zellweger (“Judy – Muito Além do Arco-Íris”), Brad Pitt (“Era uma Vez em... Hollywood”) e Laura Dern (“História de um Casamento”), o temível quarteto que deve varrer todos os troféus daqui até 9 de fevereiro, quando a cerimônia do Oscar acontecerá.

A batalha pelo prêmio de melhor filme, por outro lado, está só começando.

A esta altura do ano passado, a principal batalha do Oscar era uma disputa direta entre “Green Book – O Guia” e “Roma”, mas 2020 nos propiciou a disputa mais aberta em muitos anos, na categoria melhor filme.

Até cinco dos indicados (entre os nove filmes anunciados na categoria no dia 13 de janeiro) têm chances reais de vitória. Abaixo, a coluna avalia a disputa mais intensa do Oscar, mas fique atento: a decisão acontecerá só no último minuto.
 
“Era uma Vez em… Hollywood”
Quentin Tarantino é um dos diretores mais importantes de Hollywood, e será que isso não significa que ele deveria ter um Oscar de melhor filme, a esta altura? Esse é o argumento simples e convincente que será apresentado em defesa de “Era uma Vez em… Hollywood”, e ele vem acompanhado de um relógio em contagem regressiva, já que Tarantino, 56, deu a entender que pretende se aposentar em breve de sua carreira como diretor. Que momento melhor para recompensá-lo pelo seu filme mais plausível para um Oscar, um tributo às figuras constantes de Hollywood que formam a maior parte dos quadros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas?

“Era uma Vez em… Hollywood” se saiu muito bem nos prêmios televisados, conquistando três prêmio do Globo de Ouro, entre os quais o de melhor comédia ou musical, bem como o prêmio de melhor filme no Critics' Choice Awards. Os votantes que rejeitam a incursão dos serviços de streaming no cinema têm interesse especial em apoiar o filme, porque ele foi um sucesso nas salas de exibição e um dos raros “blockbusters” de verão a ter como base uma ideia original.

Isso posto, apenas dois filmes lançados no verão conquistaram o Oscar de melhor filme nos últimos 20 anos, e “Era uma Vez em… Hollywood” precisa se relançar diante de uma safra de fortes concorrentes que continuam em cartaz nos cinemas. Os trabalhos escolhidos como melhor filme também tendem a ser indicados para o Oscar de edição; já que esse não foi o caso de “Era uma Vez… em Hollywood”, isso sugere que seu ritmo preguiçoso não agradou a todos. Por fim, Tarantino é apreciado o bastante para conquistar dois Oscar como roteirista, por “Pulp Fiction – Tempo de Violência” e “Django Livre”, mas ele continua a ser uma figura controversa que pode não funcionar bem em um sistema de votação preferencial criado para recompensar o consenso.
 
“1917”
Timing é tudo quando o assunto é o prêmio de melhor filme. O ideal é não crescer cedo demais, para não se tornar o favorito que todos tentam derrubar. (Lamento, “La La Land – Cantando Estações”.) Sob esse critério, “1917” está muito bem posicionado. Embora tenha sido um dos últimos candidatos ao Oscar a chegar aos cinemas americanos, o filme de guerra dirigido por Sam Mendes teve uma largada muito forte, conquistando dois prêmios no Globo de Ouro, de melhor drama e melhor diretor, no momento em que entrava em um circuito maior de salas. No primeiro final de semana em exibição nesse circuito, o filme arrecadou excelentes US$ 36,5 milhões (R$ 153,3 mi) nas bilheterias dos Estados Unidos.

O filme também superou as expectativas de muitos especialistas ao conquistar uma indicação ao Oscar apesar de seu roteiro mínimo, o que é visto como uma aprovação necessária já que nenhum filme desde “Titanic” conquistou o prêmio de melhor filme sem uma indicação paralela ao prêmio de melhor roteiro.

Esse sinal de força pode ajudar a perdoar algumas esnobadas: nenhum dos atores do filme foi indicado, e já que “1917” foi montado de forma a parecer que consiste de tomadas ininterruptas, o pessoal da área de edição também o ignorou. (O mesmo aconteceu com “Birdman (ou "A Inesperada Virtude da Ignorância”), ainda que este tenha levado o Oscar de melhor filme.)

Em última análise, “1917” é o filme que está mais fresco nas memórias dos votantes, e sua maestria técnica, tema bélico sóbrio e ímpeto terão um peso considerável.
 
“Parasita”
Há muitas estrelas na disputa do Oscar neste ano, mas poucas delas causam tantos comentários do pessoal do cinema quanto Bong Joon-ho. O diretor sul-coreano vem sendo uma sensação em todas as festas da temporada de prêmios em que o vi, e torcedores envolvidos em outros dos filmes indicados —entre os quais Leonardo DiCaprio, de “Era uma Vez em… Hollywood”, e Laura Dern, de “História de um Casamento”— o procuraram para dizer o quanto tinham amado o filme.

Essa paixão generalizada é crucial. Antecipo que “Parasita” conquistará muitos votos para o primeiro lugar da lista na cédula preferencial do Oscar, mas também está destinado a conquistar muitos votos ao segundo lugar, porque é o grande concorrente com menos detratores. Todo mundo parece estar torcendo por “Parasita” e esse nível de apoio faz dele o primeiro trabalho em um idioma estrangeiro a ter chance de conquistar o Oscar de melhor filme. Também ajuda que, em um ano dominado por filmes nostálgicos e de época, a luta de classes moderna que é o cerne de “Parasita” pareça unicamente oportuna.

Ainda que nenhum dos atores do filme tenha sido indicado, “Parasita” pelo menos conseguiu uma indicação da Screen Actors Guild para o conjunto de seu elenco, e a academia apontou o filme para prêmios de edição, roteiro e design de produção. Apenas dois dos dez últimos premiados como melhor diretor eram americanos, o que me leva a acreditar que Bong Joon-ho  tenha fortes chances de conquistar o Oscar nessa categoria. A única questão é se os votantes da academia optarão, depois disso, por distribuir as recompensas, premiando outro trabalho como melhor filme, uma tática pela qual eles parecem ter desenvolvido grande afinidade.
 
“O Irlandês”
Em teoria, “O Irlandês” tem tudo a seu favor. O drama criminal de Martin Scorsese foi um dos dois candidatos a melhor filme a ser indicado também para as categorias do Oscar de direção, atuação, edição e roteiro, o que serve como importante indicação quanto ao Oscar de melhor filme. O filme foi destaque em todos os prêmios em que se esperava que ele fosse destaque, como nos dos sindicatos de produtores, diretores e atores.

Mas será que “O Irlandês” tem condições de conquistar esses prêmios? Essa continua a ser a questão crucial para o filme, especialmente depois de sua derrota em todas as categorias para as quais foi indicado no Globo de Ouro.

Os outros candidatos fortes a melhor filme têm pelo menos uma ou duas outras estatuetas garantidas.

“Parasita” deve certamente conquistar o Oscar de melhor filme internacional, o Oscar de cinematografia certamente irá para “1917”, e duas das categorias de atuação são dominadas por “Coringa” e “Era uma Vez… em Hollywood”. Mas não vejo uma vitória garantida semelhante para “O Irlandês”, e embora os críticos tenham amado o filme —o New York Film Critics Circle o escolheu como melhor filme do ano—, também ouvi muitas reclamações sobre sua duração, desde que o filme estreou na Netflix.

Não me entendam mal: ainda há chance de vitória, para “O Irlandês”. Mas é uma chance que parece melhor no papel do que na prática.
 
“Coringa”
Subestimar “Coringa” é um risco. Embora tenha obtido o maior número de críticas negativas entre os indicados ao prêmio de melhor filme, esse filme baseado em quadrinhos e dirigido por Todd Phillips continuou a desafiar as probabilidades durante toda a temporada de prêmios: conquistou um Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza em setembro, superou imensamente as expectativas de bilheteria ao faturar mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 4,2 bilhões) em todo o mundo e foi o filme mais indicado ao Oscar, com 11 nomeações.

Também é o outro trabalho entre os indicados ao prêmio de melhor filme, além de “O Irlandês”, a receber nomeações por melhor direção, atuação, edição e roteiro, e Joaquin Phoenix e Hildur Gudnadottir, a compositora da trilha sonora, são os favoritos ao Oscar em suas categorias. Isso ajudará a abrir caminho para o filme na disputa pelo prêmio mais alto, já que é quase impossível conquistá-lo sem ganhar uma ou duas estatuetas adicionais ao longo do caminho.

Se o Globo de Ouro de melhor drama tivesse ficado com o filme, e se o Directors' Guild tivesse indicado Phillips para seu prêmio, a situação de “Coringa” seria melhor. Mas o filme claramente encontrou apreciação em diversos ramos da academia, e se os votantes decidirem fazer história ao dar a um filme baseado em quadrinhos o prêmio mais elevado, o grande supervilão de Batman pode enfim se tornar imbatível.


Tradução de Paulo Migliacci

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