Ex-BBB e dramaturgo quer levar negritude aos palcos e às plateias de teatro do país

Rodrigo França tem na questão racial um fator determinante de seu trabalho

Jefferson Barbosa
Rio de Janeiro

Ex-BBB e ex-professor da Polícia Militar, o carioca Rodrigo França vem se tornando uma das principais vozes de enfrentamento ao racismo no teatro brasileiro —não apenas sobre os palcos, mas também atrás e diante deles.

Aos 41 anos, ele é um articulador que leva às plateias cada vez mais pessoas negras. Com 27 anos de carreira, é ator, dramaturgo e diretor de teatro.

Filho de um policial militar e de uma funcionária pública federal, França diz que a vontade de ser artista surgiu em 1993, a partir do que chama de “grande impacto” causado ao ver Grande Otelo e Isabel Fillardis na novela “Renascer”, de Benedito Ruy Barbosa. O folhetim e a leitura, na juventude, de autores como Machado de Assis abriram o caminho da vida artística.

Há dez anos resolveu direcionar sua arte para o público negro. Com a formação acadêmica em filosofia e o acúmulo de sua militância, busca ampliar o acesso aos debates e conhecimentos que encontrou na academia.

 

Ficou conhecido pelo grande público por ter participado do Big Brother Brasil em 2019. Quando foi convidado, aceitou com a intenção de “furar a bolha”. Chegou até o último mês do reality show.

Ainda em 2019, esteve em Cabo Verde com o espetáculo “Contos Negreiros do Brasil”, e depois seguiu com a produção para o Espaço Cultural Barroquinha, em Salvador. Suas peças abordam de violência policial até temas como a subjetividade do homem negro. 

Também se envolveu na produção do filme ainda inédito “Medida Provisória”, dirigido por Lázaro Ramos.

Ao todo, já participou de 39 peças e seis filmes, além de ter feito alguns trabalhos na TV —todos destacando a história de personalidades negras e a condição do povo negro. 

No Dia da Consciência Negra, ele deu as caras com a peça “O Amor como Revolução” — como diretor do espetáculo, protagonizado  por Henrique Vieira, que também é pastor. Na plateia havia militantes do movimento negro e alunos de cursinhos pré-vestibular comunitários do Rio. De maneira recorrente ele convida estudantes da rede pública para assistirem aos espetáculos.

Para França, o sentido de levar aos palcos temáticas que atingem o povo negro não é algo novo, vem de algumas décadas atrás. “Para essa cena existir hoje foi muito importante o trabalho de figuras como Solano Trindade, Abdias do Nascimento e Ruth de Souza.” Por ser filho de pais militantes, ele relata ter desde pequeno muita consciência sobre o que é ser negro.

França recentemente trabalhou nas adaptações "Pequeno Príncipe Preto” e “Macbeth Preto”, textos clássicos da dramaturgia mostrados agora a partir de uma visão não eurocêntrica.

A negritude para ele é determinante quando inicia um trabalho e em toda a sua carreira. “Eu quero falar para o povo preto. Nós somos artistas com compromisso político com a negritude. O grande público é bem-vindo, mas eu tenho foco em fortalecer os negros.”

Estão entre as suas produções “O Encontro de Malcolm X e Martin Luther King”, “Oboró” e, em breve, “Yabás”, que trata do universo de mulheres negras a partir de orixás.

Na sua produtora, a Diverso, ele adota a ideia do “black money” —“quem pode paga pra quem não pode”— e todos os profissionais ganham de maneira igualitária e têm a mesma importância. Segundo o ator e dramaturgo, todos os envolvidos recebem o mesmo salário. “O dinheiro das pessoas negras deve circular entre nós, de maneira efetiva”, diz. Quando um espectador paga o valor inteiro de um ingresso, possibilita que um outro, que não pode pagar, assista àquilo de graça.

Em “Oboró”, nome que remete aos orixás, França dirige outros atores abordando o sentido e as vivências da rotina do homem negro —dores, afetos, relações sociais e ancestralidade afro-brasileira. Na sua rotina,
ele conta com muito cuidado espiritual, muita leitura e horas escrevendo. “Eu não paro muito pra pensar, vou fazendo o que precisa ser feito.”

“Contos Negreiros do Brasil” agora ganha roupagem infantil, por meio de textos inéditos do escritor Marcelino Freire, para uma nova montagem a ser dirigida por França.

Além disso, ele estreia em abril a peça “Capiroto”, no Teatro de Contêiner. De acordo com ele, a trama irá se apegar aos aspectos históricos da figura do Diabo, de origem mais popular. Jorge Lafond, ator conhecido por ter interpretado a personagem Vera Verão, será ponto de partida para França e sua trupe apresentarem narrativas da população negra e periférica LGBT. A produção é intensa e numerosa.

Há quem chame o movimento de França de renascimento do teatro negro. Para ele “não há crise que estanque esse fluxo, em um cenário teatral ainda embranquecido”.

Na ficha técnica dos espetáculos que produz, ele busca ter 100% da equipe formada por pessoas negras.

Em texto publicado na Folha, afirmou:“O teatro branco quando ‘panfleta’ é vanguardista, é teatro político. Eu adoraria não ter que imprimir na minha arte que vivo num país que mata um jovem negro a cada 23 minutos”.

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