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Cinema

Fellini fez de seu narcisismo incurável o motor de filmes delirantes

O cineasta, que chegaria aos cem anos neste mês, desconfiava da beleza tanto quanto admirava a feiura

Celebrar centenários de artistas é uma forma de homenagear e atualizar sua herança, mas também pode provocar o efeito contrário, embalsamando vida e obra em museus.

O aniversário, no próximo dia 20, de cem anos do nascimento do diretor italiano Federico Fellini já começou a ser comemorado com publicações, retrospectivas e cursos.

Sua popularidade, que nunca foi pouca para um cineasta autoral, tende a engordar com o público que ainda não viu em telas de cinema as extravagâncias, os excessos e a vertigem barroca enquadrados no termo “felliniano”.

Retrato do diretor italiano Frederico Fellini - Calle Hesslefors/ullstein bild

Mas, além desses momentos de reverência, como é possível encontrar um lugar para a imaginação hiperbólica de Fellini no nosso imaginário atrofiado, dominado por imagens indiferentes?

“A vida real não me interessa. Gosto de observá-la, mas no fundo apenas para dar rédeas soltas à minha fantasia. A fantasia é a zona erógena mais importante.”

Afirmações como essa servem para validar a ideia de que o diretor priorizava o circense, o carnavalesco e o onírico em contraste com o mundo cindido do pós-Segunda Guerra. Ou, como viram seus críticos, para justificar a ostentação de seu narcisismo incurável.

A cruzada antifascista desaprovou a firme assinatura de Fellini, considerado então um traidor do engajamento social e político inerente ao neorrealismo. Esta “escola” italiana do pós-Segunda Guerra gravou o nome de Fellini na história do cinema por suas colaborações na escrita de “Roma, Cidade Aberta”, de 1945, e de “Paisà”, de 1946, dirigidos por Roberto Rossellini. Mas, desde 1939, ele já escrevia cenas em produções sem ser creditado ou assinando simplesmente Federico.

Vista à distância, a fase dos anos 1950, que culmina com a Palma de Ouro para “A Doce Vida”, de 1960, assume e expande a herança do neorrealismo nos retratos da moral tacanha —“Abismo de um Sonho”, de 1952—, nas crônicas da vida ordinária —“Os Boas Vidas”, de 1953— e na crítica aos relacionamentos abusivos —“A Estrada da Vida”, de 1954, e “Noites de Cabíria”, de 1957.

Nesses dois últimos filmes, os martírios dos personagens interpretados por Giulietta Masina, com quem Fellini foi casado de 1943 até sua morte, 50 anos depois, revelam, com avanço em relação à época, a crítica ao machismo, tema ao qual retornou, de forma mais ácida e incompreendida, em “Casanova de Fellini”, de 1976, e “Cidade das Mulheres”, de 1980.

A fantasia aparece repetidamente nos títulos da primeira fase como forma de salvação, sem que isso sirva para libertar os personagens das misérias a que estão condenados.

A transfiguração, por meio do sonho ou da imaginação cinematográfica, é, ao contrário, um modo mais intenso e pessoal de adentrar no mundo, apalpando suas carnes em vez de representá-lo friamente, como concebiam os cineastas intelectuais.

A memória completa a tela na qual Fellini reinventa o mundo. Não se trata, porém, de uma memória que supostamente preserva o vivido e o ocorrido, mas de uma faculdade incontrolavelmente criativa, que aumenta, recria, distorce ou colore as histórias que reconta.

“Eu sou um grande mentiroso” ou “inventei uma vida a fim de poder recontá-la” são declarações em que Fellini assumiu sua mitomania. A leitura das copiosas entrevistas do diretor revela como ele oferecia versões conforme as circunstâncias, modelando-se como uma persona que troca de máscaras.

“Quando queremos testemunhar a verdade, o fato de dizermos ‘eu’ já é um ponto de vista errado. Para exprimir uma verdade deveríamos eliminar o ‘eu’; e, no entanto, não podemos evitá-lo, até para afirmar ‘eu não estava lá’.”

A afirmação desse “eu” se radicaliza a partir de “A Doce Vida” e tem seu apogeu em “Oito e Meio”, de 1963. São exemplos de uma fase em que o autor virou uma entidade hiperbólica, enquanto as interpretações vasculhavam a vida do diretor em busca de um sentido escorregadio e mutante.

Fellini soube explorar essa moda, mas não se esqueceu de fazer caricatura de seus excessos, como no genial e pouquíssimo visto “Toby Dammit”, episódio de “Histórias Extraordinárias”, de 1968.

Por essas e outras, é duvidoso identificar o fabuloso “Amarcord”, “eu me recordo”, no dialeto da Emilia-Romanha, de 1973, como um afresco autobiográfico no qual Fellini projetou sua Rimini natal sob o fascismo. As pinturas da Roma antiga em “Satyricon”, de 1969, e da moderna em “Roma”, de 1972, reafirmam o prazer de Fellini em projetar imagens em vez de tentar reconstituir um “original”.

A estrutura narrativa em quadros de “Satyricon” e a encarnação de Marcello Mastroianni como Mandrake em “Entrevista”, de 1987, são só duas das muitas referências às histórias em quadrinhos dispersas na obra do diretor, que devorava “fumetti” desde a infância. A influência visual e narrativa dos quadrinhos é onipresente na estrutura fragmentada, nas composições insólitas e nas figuras humanas que parecem saídas de um mundo fantástico.

Ver os filmes de Fellini sem se deixar consumir só pelas extravagâncias revela um artista obcecado pela veracidade e a falsidade das aparências, que desconfiava da beleza tanto quanto admirava a feiura.

Obsessões fellinianas

Circo
O diretor contava que na infância havia fugido com uma trupe e se encantado com as fantasias dos que viviam sob a lona. Esse universo aparece em filmes como ‘A Estrada da Vida’ e ‘Os Palhaços’

Celebridades
Quando produções hollywoodianas migraram para Roma em busca de baratear seus custos, a cidade se viu infestada de jornalistas de fofocas e festas dionisíacas, que inspiraram o personagem Paparazzo, de ‘A Doce Vida’

Fotonovelas e quadrinhos
Fellini era apaixonado por HQs, tanto que publicou em jornais algumas de suas charges e realizou colaborações com Milo Manara, um dos grandes nomes dos cartuns italianos

Grotesco
O gosto por tipos expressivos, uma herança da commedia dell’arte, fez com que ele se esbaldasse no retrato de personagens de traços caricatos e até bizarros, como os que perambulam pela Roma antiga de ‘Satyricon’

Sonhos
Entusiasta de Jung e ávido desenhista dos próprios sonhos, Fellini recheou sua obra não apenas com imagens oníricas, mas também discutiu a potência dos devaneios nas tramas e dos arquétipos, como se nota em ‘Oito e Meio’

Mulheres exageradas
Elas surgem com várias facetas na obra felliniana, ora como musas, ou seus duplos exagerados, como a dona da tabacaria de seios grandes de ‘Amarcord’, ora como mães, ora como prostitutas, como em ‘Noites de Cabíria’

Mostra ‘Fellini: Il Maestro’ - São Paulo

  • Quando De 26/2 a 23/3
  • Onde CCBB - r. Álvares Penteado, 112.
  • Preço R$ 10

Mostra ‘Fellini: Il Maestro’ - Rio de Janeiro

  • Quando Até 3/2
  • Onde CCBB, r. Primeiro de Março, 66
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