Descrição de chapéu

Globo de Ouro mostra que, na TV, inovação hoje vem das comédias

Prêmio faz apostas seguras nas categorias dramáticas e chancela perspectivas novas no humor

Para além da esnobada à Netflix como produtora de cinema, outra coisa ficou explícita na premiação do Globo de Ouro, o troféu concedido pela associação de correspondentes estrangeiros em Hollywood, neste domingo (5): o principal motor de criatividade e inovação na TV hoje vem das comédias.

É isso que se depreende tanto das escolhas em si —"Fleabag” como comédia, “Succession” como drama— como da lista completa de indicações.

Não que “Succession”, o competentíssimo drama de intriga familiar da HBO agora em sua segunda temporada, não merecesse seu troféu. 

Trata-se, porém, de aposta segura em uma premiação que vinha primando pelo vanguardismo, menos ousada e momentosa que a escolha de “Handmaid’s Tale” em 2018 e menos emocionante do que a consagração, no ano passado, de “The Americans” em sua temporada final.

A premiação de conjunto da obra, por sinal, foi algo que os jornalistas responsáveis pelo prêmio evitaram neste ano, reservando à saga “Game of Thrones” uma menção solitária na indicação de Kit Harington, o Jon Snow, a melhor ator dramático. Saiu de mãos vazias.

Bem escrita e bem interpretada, “Succession” é um novelão de primeira linha sobre um tema conhecido, o da família rica que briga pela sucessão do patriarca (Brian Cox, premiado pelo papel) à frente de um conglomerado empresarial (no caso, de mídia). 

A estatueta poderia ter sido entregue a “The Crown”, da Netflix, ou “Big Little Lies”, da HBO, novelescas à sua moda, mas com o “twist” de partirem do ponto de vista feminino. “Big Little Lies”, aliás, fora contemplada há dois anos como minissérie, categoria em que se inscrevia antes de se saber que haveria sequência.

Se entre os dramas se escolheu o único em que o ponto de vista não é exclusivamente feminino, entre as comédias o Globo de Ouro fez o oposto ao consagrar “Fleabag”, já chancelada em setembro pelo Emmy, o prêmio da academia que reúne o pessoal de produção de TV nos Estados Unidos.

A atriz britânica Phoebe Waller-Bridge posa com o prêmio de 'melhor atriz de série de comédia ou musical' durante a 77º edição do Globo de Ouro.
A atriz britânica Phoebe Waller-Bridge posa com o prêmio de 'melhor atriz de série de comédia ou musical' durante a 77º edição do Globo de Ouro. - FREDERIC J. BROWN / AFP

A comédia-sensação escrita e interpretada pela britânica Phoebe Waller-Bridge não deu chance a ninguém no último ano com sua narrativa pouco ortodoxa, suas piadas entre a autodepreciação e a escatologia e seu texto profundamente autorreferente, num espelho sarcástico da geração do selfie e das redes sociais. Waller-Bridge ainda coletou a estatueta de melhor atriz cômica, a maior barbada da noite.

Surpresa foi o troféu da mesma categoria no páreo masculino ter ido para Ramy Youssef por “Ramy”, comédia da plataforma Hulu inédita no Brasil, também autorreferente e também com menções à religião, que brinca com os dilemas de um muçulmano nos Estados Unidos e sua relação com a fé.

Deixou para trás os queridinhos Bill Hader (“Barry”) e Paul Rudd (“Cara x Cara”) e o veterano Michael Douglas (“O Método Kominsky”), em uma lista bem mais forte do que a de melhor ator dramático, que além de Cox e Harington incluía Tobias Menzies, de “The Crown”, e os já premiados Rami Malek (“Mr. Robot”) e Billy Porter (de “Pose”, talvez uma escolha mais justa).

A série da rainha Elizabeth 2ª inevitavelmente abocanhou o prêmio de melhor atriz dramática para Olivia Colman, que conquista seu terceiro troféu em quatro anos —no ano passado, ela levara o de atriz em filme de comédia ou musical com “A Favorita”, no qual viveu outra rainha, e dois anos antes o de coadjuvante em série com a policial sisuda de “O Gerente da Noite”.

Sem maior sobressalto nas escolhas, a noite marcou duas injustiças em termos de TV. 

A primeira foi a não indicação de “Olhos que Condenam” (Netflix) como minissérie, embora a premiada “Chernobyl”, da HBO, drama sobre o desastre nuclear soviético cheio de ecos políticos atuais, tenha sido das melhores coisas que a TV exibiu no ano passado.

A segunda, a derrota do magnífico Jared Harris, protagonista de “Chernobyl”, para Russell Crowe entre os atores de minissérie. Ao menos seu colega de cena Stellan Skärsgard, que consegue imprimir emoções sutis e medo no burocrata Boris Shcherbina, levou uma merecida estatueta de coadjuvante para casa.

Erramos: o texto foi alterado

Olivia Colman levou o Globo de Ouro, no ano passado, de melhor atriz em filme de comédia ou musical. O texto foi corrigido. 

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