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Cinema

Filme 'O Lodo' é a primeira surpresa da Mostra de Tiradentes

Com direção do veterano Helvécio Ratton, filme é inspirado em conto de Murilo Rubião

Na cena central das lembranças de Manfredo, o personagem principal de “O Lodo”, existe um corredor e, ao fundo, também central, um crucifixo. Não existe nenhum motivo para que ele esteja ali, não tem qualquer relação com os acontecimentos do filme —e no entanto, está.

Manfredo sofre de profunda depressão, o que o leva a procurar um psiquiatra do qual espera receber algum remédio que o livre do problema. Este lhe oferece, em troca, um tratamento longo capaz de curá-lo de vez. Para tanto, porém, terá de remover o lodo que existe no interior mais profundo do personagem.

Manfredo resiste. Mas, quanto mais resiste, mais se afunda numa espiral em que sonho e realidade, alucinação e espantos, misturam-se perversamente. Essa é a experiência fundamental que busca transmitir o novo filme de Helvécio Ratton, baseado em texto de Murilo Rubião.

Existem algumas razões para supor que o filme, exibido no sábado (25) na Mostra de Tiradentes, em Minas Gerais, seja o melhor trabalho do veterano diretor. Talvez a mais óbvia delas seja a boa direção de atores. Talvez a mais importante seja a maneira como Ratton consegue, aqui, transitar entre o mundo cotidiano e o dos pesadelos que assombrarão seu protagonista.

O filme consegue nos levar do mundo habitual e talvez experimentado por qualquer pessoa (a sensação de desânimo, por exemplo, associada à força de vontade capaz de levá-lo a superar, no campo profissional, seus problemas).

Cena do filme 'O Lodo', baseado em texto de Murilo Rubião
Cena do filme 'O Lodo', baseado em texto de Murilo Rubião - Divulgação

Trabalhar com os atores do grupo Galpão, com um fotógrafo como Lauro Escorel, um montador como Mair Tavares, entre outros, certamente terá contribuído para o bem-sucedido da empreitada. No entanto, o aspecto central, que faz a força do filme, é o catolicismo do diretor.

Pois ao crucifixo estrategicamente colocado ao fundo do corredor corresponde a via-crúcis de Manfredo, o trajeto que o levará ou não ao renascimento. Haja o que houver, são as angústias do cristianismo que estão em cena.

Já “O Sofá”, de Bruno Safadi, exprime a busca do cineasta por uma expressão pessoal, ao mesmo tempo em que, por momentos, parece se contentar em ser um mini-Júlio Bressane, tão frequentes são as referências ao cineasta em seu filme, sob a forma de citações ou procedimentos (por exemplo: a claquete inserida entre duas tomadas do filme) que caracterizam as vanguardas dos anos 1960 e 1970.

Cena do filme 'O Sofá', de Bruno Safadi
Cena do filme 'O Sofá', de Bruno Safadi - Divulgação

No entanto, o trabalho de colorista é o que se destaca realmente no filme —o desejo de expressar pelas cores as dificuldades da professora Joana d’Arc, da rede pública da cidade do Rio de Janeiro, que teve a casa expropriada pela prefeitura para a construção de um viaduto ou algo assim.

O roteiro tem originalidade, já que centrado num sofá que a professora pesca no mar, com a ajuda de um recém-conquistado amigo, quando pretende pescar um peixe para se alimentar. A partir daí sua vida girará em torno da busca para recuperar seu antigo terreno.

Se o nome Joana d’Arc não deixa maiores dúvidas quanto à capacidade de luta da personagem, o filme também não economiza no criticismo à crueldade das autoridades. Vale para o Rio, mas também para o Brasil inteiro. No entanto, a escrita ainda hesita entre ser própria ou não ser, o que parece indicar um talento ainda em busca de seu próprio caminho.

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