Descrição de chapéu

Simples, emotiva e popular, fala de Alvim recuperou premissa da propaganda nazista

A 'estetização da política', conceito cunhado por Walter Benjamin, é marcante na estética empregada ao longo do vídeo

Wagner Pinheiro Pereira

As estratégias propagandísticas de manipulação das massas e as diretrizes políticas para a produção artístico-cultural preconizadas pelo ditador alemão Adolf Hitler e orquestradas pelo seu ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, para a Alemanha durante os 12 anos do regime nazista (1933-1945) parecem ter servido de modelo e referência para o vídeo de Roberto Alvim, ex-secretário especial da Cultura do governo do presidente Jair Bolsonaro, divulgado na quinta-feira (16) para anunciar o Prêmio Nacional das Artes.

O projeto do governo federal prevê um valor total de mais de R$ 20 milhões, para o “patrocínio de produções inéditas em diversas áreas da cultura”, divididas em sete categorias: “ópera, teatro, pintura, escultura, literatura (contos), música e história em quadrinhos”.

Imagem mostra Roberto Alvim ao centro, sentado em uma mesa; acima dele, a foto do presidente Jair Bolsonaro; ao seus lados, a bandeira brasileira e uma cruz
Secretário de Cultura do governo Bolsonaro, Roberto Alvim, em vídeo em que parafraseia Goebbels - Reprodução/Twitter

O vídeo do pronunciamento parece ter sido retirado de um filme de propaganda nazista da década de 1930, produzido sob os auspícios de Joseph Goebbels: a “estetização da política”, famoso conceito cunhado pelo filósofo alemão Walter Benjamin para definir como o nazi-fascismo objetivava uma espetacularização da política, ou seja, a transformação dos projetos político-ideológicos em espetáculos artístico-culturais. 

É marcante a estética empregada ao longo do vídeo: a aparência resoluta, o tom solene e a voz forte do então secretário —que parece até recordar a teatralização política dos discursos de Goebbels—, envoltos na atmosfera da trilha sonora de "Lohengrin" (1846-1848), famosa ópera do compositor alemão Richard Wagner, artista adorado por Hitler (“só entende o nazismo quem conhece Wagner”, confidenciava o ditador) e que fora amplamente utilizado pelo regime nazista.

Esses elementos servem para dar um tom monumental, épico —e autoritário— ao projeto do governo Bolsonaro de “renascimento da cultura brasileira”, que almejaria o salvamento da juventude do país e estaria ancorado “na nobreza de nossos mitos fundantes”: “a pátria, a família, a coragem do povo e sua profunda ligação com Deus amparam nossas ações na criação de políticas públicas.

Joseph Goebbels é uma figura de fundamental importância para a compreensão da relação entre poder político e cultura da mídia no mundo contemporâneo por ter sido o grande mentor responsável pelo desenvolvimento e aprimoramento de técnicas e conceitos de propaganda política —utilizados e eficazes até a atualidade— disseminados pelos meios de comunicação (imprensa, rádio, cinema e televisão) e que seriam vitais para o sucesso do “mito Adolf Hitler” como o salvador da Alemanha e do fascínio da promessa do Terceiro Reich como um poderoso império milenar, responsável por conduzir os alemães, a “raça superior”, a cumprir o destino histórico de dominarem o mundo e exterminarem as “raças inferiores”, que não se encaixavam na cosmovisão nazista.

Para transformar essa visão de mundo em realidade, Hitler encarregou Goebbels do comando do Ministério Nacional para Esclarecimento Público e Propaganda, o mais sofisticado órgão estatal de propaganda, criado em 13 de março de 1933, “para fins de educação e propaganda entre a população sobre a política do governo do Reich e a reconstrução nacional da pátria alemã”.

Tal controle ocorria através dos sete departamentos da Câmara Nacional de Cultura —cinema, literatura, teatro, música, artes plásticas, imprensa e rádio.

Tal como Goebbels, Roberto Alvim parecia estar buscando instrumentalizar a nova produção artístico-cultural. 

Recuperou a premissa central da propaganda nazista: ser simples, emotiva e popular, de modo a levar em conta o grau de assimilação do mais limitado do público ao qual se dirigia, atingindo os seus corações e mentes.

Empregando uma visão maniqueísta de luta do bem versus o mal, Alvim preconiza que a nova arte brasileira deveria ressaltar as virtudes da fé, retratar o espírito de autossacrifício do povo brasileiro, “enfatizar a elevação da nação e do povo acima de mesquinhos interesses particulares”.

Em síntese, a arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo —ou então não será nada.

Tal frase ecoa o discurso de Goebbels pronunciado em 8 de maio de 1933, para os diretores de teatro: A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada .

Não pegou bem. As formas estéticas dessa nova arte nacional que começaria a se desenhar e que teriam o poder de fazer “avançarmos na direção da construção de uma nova e pujante civilização brasileira” acabou contradizendo o seu próprio discurso nacionalista e pondo o mundo em alerta frente ao emprego das técnicas de propaganda nazi-fascista no Brasil de Bolsonaro.

Wagner Pinheiro Pereira é professor do Instituto de História da UFRJ

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