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Oscar 2020

A vida da mulher com mais de 40 anos não interessa a Hollywood

Há um vácuo de indicações para mulheres na meia-idade, mas após os 70 podem viver vovós ou tias amargas assexuadas

Ao receber seu prêmio no Globo de Ouro, em janeiro, a atriz Renée Zellweger agradeceu a todos por a convidarem, de novo, para a reunião familiar e disse que era bom estar de volta. 

Havia sido em 2004 que ela tinha segurado o globinho pela última vez, premiada como melhor atriz coadjuvante por “Cold Mountain”. Naquele ano também ganhou seu primeiro, e único —ao menos por enquanto—, Oscar. 

Indicada sete vezes ao Globo de Ouro e quatro ao Oscar, Zellweger havia desaparecido das premiações desde 2007, aos 37 anos, quando concorreu ao Globo de Ouro por “Miss Potter”, e ficou sem atuar no cinema entre 2010 e 2016. 

Neste domingo (9), ela pode voltar a segurar a estatueta do maior prêmio de Hollywood, 16 anos depois. Desta vez, porém, realizará um feito muito maior do que em 2004. 

Aos 34 anos, Renée fazia parte do maior grupo etário feminino a ser indicado ao Oscar, as mulheres entre 31 e 40 anos. Agora, ela pode passar a fazer parte do seleto grupo de mulheres a vencerem o Oscar com 50 anos ou mais.

Na história da cerimônia, que acontece desde 1929 mas premia coadjuvantes desde 1937, apenas 28 atrizes levaram a estatueta com 50 anos ou mais. Homens foram 56.

Mas as indicações ao Oscar são um recorte dos papéis disponíveis em Hollywood para homens e mulheres. E os papéis femininos, como diversas atrizes apontaram ao longo dos últimos anos, ficam escassos e menos interessantes conforme a mulher envelhece

Há um esquete do programa “Inside Amy Schumer”, da comediante de mesmo nome, em que as atrizes Julia Louis-Dreyfus, 59, Tina Fey, 49, e Patricia Arquette, 51, comemoram o último dia de mulher comível de Louis-Dreyfus. Na vida de toda atriz, dizem elas, há um dia em que simplesmente deixa de ser crível que ela seja transável. 

O fato satirizado é que os papéis para mulheres rareiam quando elas deixam de ser sexualmente atraentes. Um dos exemplos citados é o de Sally Field, 73, que, em 1988 fez par romântico com Tom Hanks, 63, em “Palco de Ilusões” e, seis anos depois, interpretou a mãe do ator em “Forrest Gump”. Não à toa atrizes de sucesso e com dinheiro passaram a produzir seus próprios filmes, buscando garantir papéis interessantes.

Os filmes do 007 e os de Tom Cruise estão aí para mostrar, há anos, que os homens podem ser atraentes depois dos 40 e estrelar pares românticos centrais em filmes, mas as mulheres não.

Em 2014, quando se atingiu a maior idade média de mulheres indicadas, 55 anos, estavam entre elas Judi Dench, então com 79 anos, e Meryl Streep, que tinha 64 e, naquele ano, foi indicada como principal e coadjuvante. 

Há um vácuo de indicações para mulheres na meia-idade, mas, após os 70 anos, as indicações de homens e mulheres se aproximam, quando elas, sobretudo nos papéis coadjuvantes, podem viver vovós ou tias amargas assexuadas. 

Nas últimas 20 edições do Oscar, desde 2000, entre os vencedores na categoria ator principal, apenas um deles protagonizou um filme em que o romance com uma mulher era central na trama, mas quatro atrizes levaram a estatueta pelo papel principal de uma mulher em casal com um homem.

Cinco dos 20 atores vencedores viveram líderes políticos, como reis e presidentes. Entre as atrizes, três encarnaram tais papéis. Doze homens e dez mulheres ganharam o prêmio por viverem personagens reais.

Neste ano, todos os coadjuvantes indicados têm mais de 55 anos. Eles viveram gângsteres, artistas e um papa. Entre as atrizes coadjuvantes, as idades são mais diversas, e duas têm menos de 30. Elas viveram mães, jornalista, advogada e uma pintora frustrada.

Hollywood parece perguntar o que, afinal, faz a mulher de mais de 40 anos que pode ser digno de ser retratado num grande filme, agora que ela não fica mais tão bem num biquíni para seduzir um herói. Não faltam, porém, histórias a serem contadas pela lente feminina. A aventura da vida não é mais interessante quando vivida por um homem. 

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