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The New York Times Cinema

Após sucesso de 'Parasita', será que os americanos vão se abrir às legendas?

Diretor do filme cutucou público dos EUA ao dizer que um mundo de cinema maravilhoso os aguarda fora de Hollywood

Sandra E. Garcia
The New York Times

Em janeiro, quando Bong Joon-ho, o diretor do filme “Parasita”, ganhou o Globo de Ouro pelo melhor filme em idioma estrangeiro, ele provocou os espectadores americanos ao dizer que todo um mundo de cinema maravilhoso os aguardava, fora de Hollywood.

“Quando vocês superarem a barreira de dois centímetros de altura das legendas, serão apresentados a muitos outros filmes maravilhosos”, disse Bong durante seu discurso de agradecimento.

Nos Estados Unidos, os filmes em idioma estrangeiro e legendados raramente ganham o empuxo que “Parasita” conquistou.

O longa conquistou as audiências e os críticos, e arrecadou mais de US$ 35 milhões nas bilheterias, em seu caminho para a conquista de quatro Oscars neste domingo (9), coroando uma temporada reluzente de premiações com o prêmio de melhor filme.

Foi a primeira vez que um filme não falado em inglês levou esse prêmio nos 92 anos de história da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Foi uma noite sísmica para os fãs de longas em idiomas estrangeiros nos Estados Unidos, onde os espectadores tradicionalmente preferem filmes em inglês. E isso fez com que alguns deles imaginassem se as legendas continuam a ser uma barreira.

Mesmo antes que “Parasita”, um filme de suspense sobre a divisão de classes na Coreia do Sul, decolasse, havia sinais de que as coisas estavam começando a mudar nos Estados Unidos, para o entretenimento legendado.

O filme se tornou parte do pequeno número de trabalhos legendados que conquistaram grande sucesso comercial nas duas últimas décadas, em companhia de “Roma” (2018), “O Labirinto do Fauno” (2006), “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” (2001) e “O Tigre e o Dragão” (2000), um drama chinês que faturou US$ 128 milhões nas bilheterias americanas e se tornou o filme em idioma estrangeiro de maior faturamento nos Estados Unidos em todos os tempos.

 
Ao longo do mesmo período, com o avanço dos serviços de streaming em substituição à TV a cabo e aberta, as legendas também ganharam mercado nas telinhas, dos celulares aos televisores.

Pesquisadores creditam a mudança a dois fatores. O primeiro foi uma decisão da Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês), que em 2016 tornou obrigatório que um um programa de TV que tenha sido transmitido legendado também seja apresentado com legendas em serviços de streaming como a Netflix e o Hulu.

O segundo fator foi a própria Netflix. Trata-se da plataforma de streaming mais popular dos Estados Unidos, com mais de 60 milhões de assinantes pagos, e boa parte de seu conteúdo original vem em outros idiomas que não o inglês.

Mais de 50% das audiências de programas da plataforma, como “Dark”, falado em alemão, e “3%”, falado em português, são internacionais.

Uma porta-voz da Netflix apontou para o exemplo de “Narcos”, uma série sobre traficantes de drogas no México e Colômbia. Os episódios têm cenas faldas em inglês e espanhol —no segundo caso usa legendas—, mas isso não impediu que se tornasse popular, explica a porta-voz.

Eis o que acontece no cérebro do espectador

Para as pessoas que não gostam de legendas, uma queixa comum é a de que isso as distrai das cenas na tela; uma segunda é que é difícil concentrar atenção nas legendas; e outra é de que pode ser trabalhoso acompanhá-las se a trama for complicada.

Dublagens, nas quais o diálogo original é substituído por falas no idioma do espectador, são uma alternativa mais fácil, dizem algumas pessoas.

E é verdade que ver um filme com legendas é diferente em termos cognitivos do que assistir a um filme sem elas, dizem especialistas.

“Sempre que você está assistindo a um filme, existe toda uma orquestra de coisas acontecendo em seu cérebro”, disse Jeffrey Zacks, professor de psicologia e ciências do cérebro na Universidade de Washington.

“A informação não inclui somente quais são as palavras e em que ordem elas surgem, mas também dados sobre tom e amplitude, que oferecem muitas informações sobre a expressão emocional”, acrescentou.

A necessidade de ler para compreender o que está acontecendo significa que é preciso usar outras partes do cérebro, de acordo com Tim Smith, professor associado de psicologia cognitiva no Birkbeck College, Universidade de Londres.

Mas não existe prova científica de que a carga cognitiva adicional é o que impede as pessoas de se acomodarem diante de uma tela para ler e ver um filme legendado, segundo Smith.

Em lugar disso, o trabalho adicional não necessariamente subtrai alguma coisa da experiência que o filme tem a oferecer, ele disse.

“Quando você está assistindo a um filme legendado, tem de se manter engajado com a tela e se manter mais atento, mas assim que você começa a agir dessa forma, a experiência que tem passa a ser tão rica quanto a de assistir um filme em seu idioma”, explicou.

Até que ponto as preferências da audiência mudaram?

Quando o assunto é filme legendado, um lado é o que acontece no cérebro do espectador, e outro é o que acontece na indústria do entretenimento.

Na década de 1930, as legendas de obras estrangeiras eram conhecidas como “texto explicativo em inglês”. Um homem que traduziu mais de 300 filmes na era inicial de Hollywood, Herman Weinberg, foi tema de um perfil na revista The New Yorker em 1947, no qual ele foi definido como “preservador de nuanças”. Weinberg começava por traduções literais do idioma de origem e a partir disso, produzia suas versões.

“Somos adaptadores, mais que tradutores”, disse ele à revista sobre o trabalho que executava em companhia de três assistentes. “Tentamos não perder os gracejos, mesmo que isso signifique acelerar o ritmo, porque um americano vai ouvir dois franceses na audiência rindo muito de uma piada em francês e vai incomodá-lo não saber qual é a graça”.

Weinberg recebeu crédito pelas legendas sobrepostas ao grande sucesso alemão “Zwei Herzen im Dreiviertel-Takt”, ou “Dois Corações em Tempo de Valsa”. O filme é considerado por muitos como o primeiro trabalho legendado a circular no mercado dos Estados Unidos.

Ao longo da década de 1950, filmes estrangeiros legendados eram comerciáveis no país, de acordo com Carol O’Sullivan, historiadora da tradução cinematográfica na Universidade de Bristol, no Reino Unido.

“Havia duas grandes audiências para os filmes estrangeiros: as pessoas muito lidas ou os membros de comunidades imigrantes que sabiam o idioma”, disse ela.

Segundo O’Sullivan, filmes do mundo inteiro eram exibidos na época, principalmente em Nova York, e se fizessem sucesso lá eram exibidos em outros mercados. Mas ela afirma também que poucos desses filmes conseguiam superar os trabalhos de Hollywood nas bilheterias.

Na década de 1970, quando os filmes americanos se tornaram mais experimentais, diversos e empolgantes, a facilidade de comercializar filmes estrangeiros diminuiu, explicou O’Sullivan, acrescentando que não muita coisa mudou, de lá para cá.

“A situação foi sempre a de que só existem alguns sucessos claros”, disse ela.

Os proprietários de cinemas, das grandes cadeias nacionais às salas locais independentes, ainda não descobriram uma fórmula certeira de comercializar um filme em idioma estrangeiro legendado.

Há cerca de uma década, a cadeia nacional de cinemas americana AMC decidiu que desejava exibir mais filmes legendados –e que ganharia dinheiro ao fazê-lo. Para ajudar nesse esforço, contratou Nikkole Denson-Randolph como vice-presidente de estratégia de conteúdo e programação inclusiva.

A despeito da aceitação crescente às legendas, um filme ainda precisa ser cativante para se tornar sucesso nos Estados Unidos, segundo Denson-Randolph.

“Há um par de distribuidores que mais ou menos compreenderam como atrair a psique mais jovem. Os filmes capazes de atrair a atenção são os que têm personagens fortes”, afirmou ela.

Para a vice-presidente, “Parasita” tinha o necessário para se dar bem no mercado americano, o que inclui um orçamento de marketing robusto.

“O filme era inerentemente enxuto, e a direção, maravilhosa. É muito mais difícil quando não há verba de marketing e quando a audiência que um filme busca é diferente”, disse  Denson-Randolph.

Nos últimos 10 anos, a profissional trouxe mais filmes estrangeiros legendados às telas dos Estados Unidos, alguns da China e outros de Bollywood, o polo do cinema indiano.

“Lançamos dezenas de filmes estrangeiros legendados a cada mês, alguns em uma sala, outros em dez salas, e descobrimos o que nossos espectadores estão com vontade de assistir”, disse Denson-Randolph, acrescentando que a AMC ainda não havia conseguido decifrar o código.

“Vimos muitos distribuidores tentando produzir a mesma magia que ‘Parasita’ produziu. Mas se você não sabe quem é a audiência, fazê-los funcionar é mais difícil”, afirma.

Segundo a historiadora  O'Sullivan, os filmes legendados sempre conseguem encontrar audiências.

“Os filmes legendados não têm como competir com Hollywood em termos de mercado, mas podem competir em termos culturais”, disse ela. “Sempre foram importantes nos círculos cultos”.

No passado, as salas de cinema eram seletivas quanto aos filmes exibidos, por conta da distribuição limitada. No caso dos legendados, para poder vê-los as audiências precisavam ir a salas especiais.

Mas com a distribuição digital e o streaming, existe uma oportunidade mais ampla para que grandes audiências vejam filmes estrangeiros.

Hoje a Netflix legenda os programas que exibe em 28 idiomas, o que permite que sejam comercializados em diferentes países.

“Temos visto cada vez mais de nossos assinantes escolhendo programas e filmes que transcendem fronteiras e culturas”, disse uma porta-voz da Netflix.

Para Dennis Lim, diretor de programação da Film at Lincoln Center— uma das principais salas de cinema independentes de Nova York— assistir a um filme legendado pode requerer mais atividade cerebral, mas o cinema é uma ótima maneira de olhar o mundo. 

“O necessário é orientar seus olhos, seu corpo e seu sistema cognitivo àquela tarefa”, disse Zacks, o professor da Universidade de Washington. “Não é tanta coisa assim”.

Tradução de Paulo Migliacci 

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