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Axé, antes massivo, perde espaço no Carnaval e vira trilha sonora de trintões

'Gourmetizamos a música espontânea da rua feita na Bahia', diz Manno Góes, compositor de 'Praieiro'

São Paulo

Ivete Sangalo lançou duas músicas para o Carnaval de 2020. “Pulando na Pipoca” é um funk acelerado com participação de Ludmilla, seguindo o movimento da cantora de se aproximar da música pop atual. A outra, “O Mundo Vai”, é um típico axé, de guitarras, sopros e tambores, um resgate da sonoridade que fez dela uma das mais populares e respeitadas cantoras do país.

“[É] alegre, divertida e bem feita. Música massa. Mas velha. Já ouvimos isso antes”, foi o que escreveu no Instagram Manno Góes, instrumentista e compositor de hits de Jammil e Uma Noites. Mais do que comentar a nova música de Ivete, ele discute um assunto recorrente nas vésperas de carnavais recentes. “A perda de relevância da indústria do axé mostrou que o Carnaval sobrevive; o axé, não necessariamente.”

Se o debate sobre a decadência do axé não é exatamente novo, por outro lado ele nunca foi tão evidente. Segundo levantamento do Ecad —que considera as músicas que mais arrecadaram direitos autorais nos períodos de Carnaval nos últimos dez anos—, o axé vem perdendo espaço gradativamente.

Em 2011, 28 das 50 músicas na lista de mais tocadas eram de axé, contra apenas três músicas de outros gêneros contemporâneos. Em 2018, foram 6 músicas de axé, contra 9 só de funk.

Além de menos relevante para a indústria fonográfica, o axé também enfrenta uma dificuldade de renovação. Nas listas do Ecad, as músicas mais novas do gênero são “Circulou”, da Banda Eva, e “Colorir Papel”, de Jammil, ambas lançadas no ano de 2012.

As outras músicas que aparecem na lista são clássicos, de “Arerê” —famosa na voz de Ivete nos anos 1990—, a “Praieiro” —composição de Manno Góes de 2005 que talvez tenha sido o último grande hit do gênero.

“O axé voltou a ser sazonal e regional”, diz Góes. “Todos os estilos pagam o preço da monopolização das rádios pelo sertanejo. Mas não é só espaço em rádio. O axé não conversa com as novas gerações. Uma garota de 20 anos consome axé agora, no Carnaval, mas no resto do ano está ouvindo funk ou samba.

Para Jonga, ex-percussionista e produtor da Banda Eva e figura importante do gênero, o axé “já passou”. “É assim mesmo. Como foi com a tropicália ou a bossa nova. E digo isso apesar de ser contemporâneo e ter vivido [o movimento].”

Nos últimos anos, alguns dos maiores cantores do gênero —entre eles Ivete e Bell Marques—, negaram qualquer tipo de crise no axé, afirmando que suas agendas estavam cheias.

Luciano Matos, jornalista apresentador do programa de rádio Radioca, lembra ter feito uma conta para rebater o ex-Chiclete com Banana.

“Não era verdade. Há uns dois ou três anos, fiz a comparação dos número de shows anuais, e tinha caído bastante”, diz. “No auge, nos anos 1990, eles tocavam para 20 ou 30 mil pessoas em Salvador, nos clubes sociais. Hoje, podem tocar para esse público em festival, mas não lotam sozinhos. Não há dúvidas dessa decadência.”

Este cenário é retratado nos minutos finais do documentário “Axé – Canto do Povo de um Lugar”, lançado em 2017. Chico Kertész, diretor do longa, diz que hoje, em show de Daniela Mercury, você vê “um público de 35 anos ou mais”.

Mas, para entender a decadência do axé, é necessário voltar à sua origem, para além da história de Luiz Caldas, considerado o pai do estilo musical. Para Goli Guerreiro, autora do livro “A Trama dos Tambores: a Música Afro- Pop de Salvador”, o axé não é exatamente um gênero musical, mas um “quebra-cabeça de estilos”.

“O axé seria o encontro do samba-reggae com a música de trio, que é o frevo baiano —por sua vez, uma mistura de frevo pernambucano, fricote e outras coisas. É uma miscelânea. Mas o samba-reggae é uma matriz fundamental. Não existe axé sem samba-reggae. E, apesar de apontarmos uma estagnação no processo criativo do samba-reggae, essa já é uma sonoridade clássica.”

O samba-reggae, “chão” do axé, se estabeleceu em Salvador com grupos como o Olodum, mais famoso de todos, e o Ilê Aiyê. O estilo de música pop chamado de axé surge  quando as bandas de trio começam a usar batidas e composições desses grupos. A Banda Mel, por exemplo, fez sucesso gravando Olodum, enquanto Daniela Mercury surgiu cantando Ilê Aiyê.

Ao longo dos anos, o axé foi ganhando uma identidade própria, com o acréscimo de teclados e guitarras, além da influência do rock e da música caribenha, entre outros estilos.

“Sou branquelo, criado em classe média. Fiz capoeira e virei percussionista”, diz Jonga. “O gueto é uma riqueza, mas se sair só daquele jeito não é palatável —é chato. Quando está só a batucada, é chato. Quando você bota uma guitarra, um teclado, fica legal, porque você tornou pop. O gueto tem a raiz, mas aí o cara torna aquilo pop e vende. Não fui eu quem inventou [isso], é a história da música pop.”

Ao gravar músicas dos blocos, as bandas também não lucravam com direitos autorais. Por isso, decidiram compor as próprias faixas originais.

Nos anos 1990 e até a virada para os anos 2000, o axé cresceu como indústria a ponto de virar uma potência. Seus principais artistas se tornaram astros, enquanto aquela estética baiana se tornava um clássico do Carnaval brasileiro com Daniela Mercury, Asa de Águia, Banda Beijo, Ara Ketu, Timbalada, Banda Eva, Cláudia Leitte.

“Virou uma fórmula. Completamente distante da origem e das coisas populares. Abandonaram os compositores de bloco afro e mudaram totalmente o perfil”, diz Matos.

“Qualquer banda que gravava o samba-reggae ganhava mais do que todo mundo do samba-reggae”, diz Goli.

Para Manno Góes, o axé embranqueceu. “A indústria se comportou de maneira mecânica e economicamente viável, com uma estética branca. O axé perdeu a influência dos artistas negros. Gourmetizamos a música espontânea da rua feita na Bahia.”

Esse distanciamento ficou refletido nas cordas que separavam foliões de abadá e a  turma de fora nos blocos de axé. Os grandes artistas se tornaram empresários, organizando os próprios blocos e lucrando com a venda dos abadás.

Por anos, os grandes blocos fechados se tornaram o principal atrativo turístico do Carnaval baiano. Mas o esgotamento do formato veio junto com a falta de renovação do próprio axé.

“Com exceção dos blocos gays, ninguém mais vende abadá”, conta Chico Kertész. “O Carnaval hoje é no formato de financiamento público. Todo ano, o Olodum e os blocos afro vão ao Twitter reclamar que não têm patrocínio. Virou uma festa com camarote e rua, bancada pela prefeitura.”

Houve, portanto, uma inversão. Hoje, os grandes nomes do axé se apresentam para a “pipoca”, jargão para quem está fora das cordas, e os cachês são pagos com dinheiro público. A classe média de Salvador, que frequentava esses blocos, hoje vai aos camarotes.

Neste contexto, a estética do axé vem perdendo espaço não apenas para ritmos populares ascendentes no Brasil, como o funk, mas também dentro da própria música baiana. Existente desde os anos 1990, o pagodão baiano consegue emplacar hits carnavalescos —seja com o Psirico de Márcio Victor ou Léo Santana, ex-Parangolé.

“Eles têm algo parecido com os blocos afro no começo, que é sofrer preconceito”, diz Matos. “Falavam que os blocos afro eram música de empregada doméstica, essas coisas. O pagode sofre até mais, porque tem letras com temas mais apelativos. Mas ele ocupa aquele espaço —uma coisa espontânea, da massa, que o povo ouve e curte.”

“O pagode se mantém muito bem porque é uma manifestação espontânea da favela. É o nosso funk”, diz Manno Goés. E o axé? “Vai tocar sucessos antigos. Hoje, esses trios já são isso. Flashback.”

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