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'Bezimena' impressiona pela opção da autora em narrar sob a perspectiva de um estuprador

Tão bela quanto desconfortante, equilibra poesia e sordidez como poucas vezes um quadrinho já conseguiu

Bezimena

  • Preço R$ 108 (224 páginas)
  • Autor Nina Bunjevac
  • Editora Zarabatana
  • Tradução Claudio R. Martini

Mesmo com um álbum de estreia elogiado em 2012, ‘Heartless’, narrando as aventuras suburbanas de uma protagonista depressiva antropomorfizada com feições felinas, foi com seu segundo trabalho, ‘Fatherland’, que a quadrinista canadense Nina Bunjevac chamou atenção de leitores e da crítica especializada.

O registro autobiográfico e documental lançado em 2014 narra as investigações da autora em torno da formação de sua família de imigrantes sérvios no Canadá e da morte de seu pai. Bunjevac tinha dois anos quando foi enviada pela mãe para viver na Iugoslávia, distante das crenças e práticas nacionalistas de Peter Bunjevac.

O pai da quadrinista era membro do grupo nacionalista sérvio Freedom for Serbian Fatherland quando morreu dentro de uma garagem em Toronto enquanto ele e dois colegas de facção construíam uma bomba que seria usada em um ataque terrorista ao consulado da Iugoslávia em Toronto no início dos anos 1970.

O título do trabalho mais recente de Bunjevac, primeiro lançado no Brasil, ‘Bezimena’, vem do termo usado na maioria das línguas eslavas para denominar “aquela que não tem nome”, conforme ela explica no livro.

A autora dedica as 224 páginas a “todas as vítimas, anônimas e esquecidas, de violência sexual”.

Com a mesma arte em preto e branco de seus trabalhos prévios, que mistura nanquim com técnicas de pontilhismo e dão ares fotorealísticos ainda mais impactantes à HQ, ‘Bezimena’ é apresentada como uma livre adaptação do mito grego de Ártemis e Sipriotes.

Filha de Zeus e deusa virgem das caçadas, da lua e do nascimento, Ártemis transformou Sipriotes em mulher após ele tentar estuprar uma de suas seguidoras.

A trama também tem relação com a história pessoal de Bunjevac como sobrevivente de mais de uma tentativa de estupro durante a juventude, como ela relata no posfácio do livro. A primeira delas na Sérvia, quando tinha 15 anos. Outra, no final de sua adolescência, por seu guardião legal, após retornar ao Canadá para finalizar seus estudos.

Extremamente gráfico, com cenas explícitas de nudez e violência sexual, ‘Bezimena’ impressiona principalmente pela opção da autora em narrar sua obra sob a perspectiva de um estuprador. Os crimes cometidos por ele e mostrados no livro são apresentados como relações consensuais, incitadas por suas vítimas.

A obra tem início com o diálogo entre duas figuras ocultas, com uma delas narrando o encontro de uma sacerdotisa com uma velha chamada Bezimena.

O encontro fatídico resulta no renascimento da sacerdotisa como um bebê apelidado de Benny no seio de uma família rica e religiosa. Ainda criança, ele já apresenta suas primeiras obsessões sexuais.

Quando adulto, trabalhando como faxineiro de um zoológico e pouco habituado ao convívio social, ele encontra acidentalmente com uma antiga colega de escola e alvo de suas primeiras obsessões. O encontro serve de ponto da partida para uma série de atos de violência sexual.

A obra intercala páginas de balões de diálogos trocados entre seus narradores ocultos com ilustrações sombrias de páginas inteiras.

Sem os requadros ou as sarjetas característicos de histórias em quadrinhos, ‘Bezimena’ impacta também pelo que não é dito ou mostrado: sequências ocasionais de várias páginas em preto ou com céus escuros estrelados ofertam ainda mais desalento ao leitor.

À medida que Benny diversifica suas práticas de abuso, seu ponto de vista torna-se cada vez mais onírico, cercado por simbologias freudianas ou da mitologia grega. A jornada do personagem vai num crescente trágico revelador acerca das justificativas criadas por ele para seus crimes.

A elegância narrativa e a arte instigante de Nina Bunjevac fazem contraponto à personalidade e aos atos repulsivos do personagem principal da HQ e tornam ‘Bezimena’ uma das obras mais singulares publicadas no país em 2019. Tão bela quanto desconfortante, equilibra poesia e sordidez como poucas vezes um quadrinho já conseguiu. 

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