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The New York Times Cinema

Brad Pitt é subestimado desde que tirou a camisa

Quem olha com atenção percebe que o ator americano, indicado ao Oscar, explora com sutileza a questão da masculinidade

Manohla Dargis
The New York Times

O significado de Brad Pitt —como ator, astro, e fetiche visual supremo— pode ser traçado ao momento em que a câmera viaja de seu peito nu ao seu rosto como uma carícia, no filme “Thelma e Louise”, de 1991.

William Bradley Pitt nasceu em 1963, mas Brad Pitt surgiu naquela ode de 13 segundos à beleza masculina erotizada, e deu início a uma carreira e vida acompanhadas com atenção, em dezenas de filmes e bibliotecas repletas de exaltações delirantes, revistas de fofocas salivantes e ensaios fotográficos com algo de pornô.

O delírio foi retomado com “Era Uma Vez em... Hollywood”, de Quentin Tarantino, no qual Pitt interpreta um papel perfeito para ele, o de Cliff Booth, um veterano dublê e sujeito muito “cool”. Tudo que se relaciona a Cliff parece muito bacana, muito suave e tranquilo, quer ele esteja ao volante de um Coupe de Ville, quer caminhando por uma paisagem árida e poeirenta. O romancista Walter Kirn certa vez escreveu que Robert Redford “é sinônimo da indústria do cinema, de alguma forma, em seu modo oniricamente californiano”.

Em “Era Uma Vez... em Hollywood”, Tarantino escala Pitt para esse papel de homem ideal, explorando a aparência e o charme do ator para criar um novo sonho californiano ensolarado, dourado e muito branco.

E é claro que, Tarantino sendo Tarantino, ele faz com que Cliff-Pitt tire a camisa, em uma cena que recorda o momento que criou a carreira do ator em “Thelma e Louise”, e oferece uma nova celebração da beleza masculina. O dia está quente; Cliff mal está trabalhando. Por isso, ele apanha suas ferramentas e uma lata de cerveja e sobe ao telhado para consertar uma antena, usando basicamente a mesma coisa que Pitt usava em “Thelma e Louise”. E aí Cliff tira a camisa havaiana e a camiseta Champion que levava embaixo, e uma vez mais vemos Brad Pitt de peito nu, como que voando sobre Hollywood, capturando nosso olhar e confundindo ainda mais a linha que separa ator e personagem.

Na noite de 9 de fevereiro, a noite do Oscar, nossos olhares de novo estarão presos a Pitt, que foi indicado ao prêmio de melhor ator coadjuvante por seu papel em “Era Uma Vez em... Hollywood”. É bacana que seus colegas tenham se dado ao trabalho, porque parecem ter relutado em celebrá-lo, no passado. A despeito de seus anos de cinema e de papéis celebrados pela crítica, Pitt conquistou apenas um Oscar, em sua função de produtor quando “12 Anos de Escravidão” ganhou o prêmio de melhor filme. Como ator, ele teve três indicações, uma como coadjuvante (por “12 Macacos”), e duas como ator principal (“O Curioso Caso de Benjamin Button” e “O Homem que Mudou o Jogo”). Como lembrete, aponto que Rami Malek, Eddie Redmayne e Roberto Benigni levaram o Oscar de melhor ator.

A academia não está sozinha em subestimar Pitt. A beleza pode ser uma armadilha, além de uma benção, e os homens também estão sujeitos a esse problema. Algumas de suas escolhas passadas tampouco ajudaram quanto a isso, como “Lendas da Paixão”, um fiasco risível que fazia dele um pônei dourado. E os exageros dos jornalistas não lhe fizeram bem. “Um corpo como o de um modelo de Bruce Weber”, escreveu um deles em 1991. Quatro anos mais tarde, a revista People, babando um pouco, e talvez como piada, afirmou em um artigo que “qualquer um gostaria de cavalgar sem sela nas encostas de seu cabelo”.

Pitt mesmo alimentou esse tipo de comentário ao posar para veículos que exploravam avidamente os sonhos de pornografia ligeira, como na capa que ele fez para a revista Rolling Stone em 1994, para promover “Entrevista com o Vampiro”, no qual ele se parece com Fabio tentando imitar Kurt Cobain.

Os críticos muitas vezes se provaram ásperos (eu assumo), mas quando os filmes ruins foram substituídos por trabalhos melhores, as avaliações melhoraram. Logo se tornou um clichê muito repetido afirmar que ele era um ator coadjuvante aprisionado no corpo de um astro (assumo de novo). Parte disso, imagino, deriva de uma suspeita com relação à beleza, de que ela não merece confiança, de que é “meramente” superficial e tola, o que faz com que as pessoas bonitas também sejam superficiais, e além disso dignas de desdém, que pode estar à espreita sob a capa da obsessão. Não existe nada de novo na maneira pela qual punimos a beleza. A história do cinema está repleta de vítimas dessa dinâmica maligna que envolve aqueles que amamos amar e amamos odiar, e nem sempre se restringe às mulheres.

Mas depois de estabelecida, a persona do astro pode se tornar uma ideia recebida e não apenas uma máscara, e desalojá-la pode ser difícil. O sucesso inicial de Pitt costumava ser enquadrado como o conto de fadas de um menino do Missouri que, “sem razão aparente”, nas palavras de um crítico, veio a Hollywood e não demorou a se tornar um novo astro. (Aí costumam entrar as comparações com James Dean, que foram muitas.) Pitt estudou atuação em Los Angeles, entre outros, com o respeitado Roy London, mas o esforço envolvido em atuar nada tem de sexy. Também não se enquadra ao velho clichê de que astros sempre fazem o papel deles mesmos. Mas atuar envolve mais que o Método, angústia telegrafada e perder (ou ganhar) peso para um papel, e embora Pitt seja capaz de papéis exagerados —ele já interpretou Aquiles e um assassino serial—, seu maior dom é para personagens contidos.

Pitt deveria ter sido indicado ao prêmio de melhor ator este ano por seu trabalho delicado e profundo em “Ad Astra”, de James Gray, uma meditação sobre o intolerável peso da masculinidade, que se passa principalmente no espaço exterior. O filme e o trabalho de Pitt ganharam elogios, mas não conquistaram ímpeto suficiente para disputar premiações. O desempenho dele foi bom demais, e certamente sutil demais e contido demais, para a Academia, uma instituição que demonstra uma fraqueza histórica por trabalhos exagerados —quanto mais sofrimento, melhor—, o que explica que Joaquin Phoenix (um ator quase sempre elogiável) e sua postura exagerada em “Coringa” pareçam ter a vitória garantida. Mas Pitt ainda tem tempo. Paul Newman precisou de sete indicações para ganhar o Oscar como melhor ator. Robert Redford só foi indicado uma vez como ator (e perdeu).

Como Newman e Redford, Pitt parece ter nascido para a tela, um talento natural. Ele passa uma sensação de conforto físico que parece inseparável de sua aparência, uma maciez que parece advir de acordar a cada manhã e passar pela vida como uma pessoa bela. Isso não equivale a dizer que as pessoas bonitas não tenham os mesmos problemas, neuroses e desconfortos que afligem os simples mortais como nós.

Mas Pitt sempre se movimentou com a absoluta segurança que vemos em algumas pessoas bonitas (e nos dançarinos), com uma casualidade de movimento que expressa mais do que confiança, na verdade uma falta sublime de autoconsciência e de dúvida, de preocupação por estar ocupando espaço —algo que nem todo mundo pode afirmar. Não é pose; é fluir.

A forma pela qual os atores caminham, desfilam, deslizam ou simplesmente ficam parados é importante, embora talvez nem tanto quanto no passado, antes que os cineastas começassem a se concentrar mais em rostos, que funcionam melhor na escala da tela pequena. O passo predatório de Sean Connery ajudou a definir James Bond. A postura perfeita de Sidney Poitier, a forma pela qual ele posicionava sua cabeça e se movimentava ao lado de atores brancos, prenunciou uma mudança profunda na representação cinematográfica de raça.

Pitt passa muito tempo ao volante em “Era Uma Vez em... Hollywood”, mas é excelente ao caminhar (mesmo usando os mocassins de Cliff), e quando ele percebe que é hora de sair do perigoso rancho Spahn, a postura ereta do ator, seu passo decidido e o posicionamento combativo de seus braços transmitem a imagem de um homem preparado para a batalha.

Em suas três décadas de carreira, Pitt desempenhou uma gama muito ampla de papéis: soldado, marinheiro, rico, pobre, vampiro, ladrão. Entre os mais indeléveis desses papéis está o fantasmagórico lutador de rua Tyler Durden —outro personagem que se movimenta muito bem, e mais um dos torsos que definiram a carreira de Pitt—, em “Clube da Luta” (1999) de David Fincher. O filme gira em torno de metades em conflito, um suposto beta (Edward Norton) e seu gêmeo alfa (Pitt), que encaram o consumismo, a anomia pós-moderna e o culto conhecido como masculinidade. Há muito debate sobre a eficácia da crítica que o filme propõe (para mim, ela não funciona), mas o que fica além de qualquer dúvida é a maneira pela qual Pitt, com seu rosto ensanguentado e físico escultural, se tornou emblema da masculinidade contemporânea e de suas contradições.

Nos anos transcorridos desde “Clube da Luta”, o filme foi adotado sem ironia e aparentemente sem humor pelos defensores dos direitos masculinos. Imagino se eles acham que Tyler é gostoso, e o que exatamente veem ao olhar seu corpo. O cinema sempre apostou no amor da audiência pela violência masculina. Ao longo de sua história, explorou a beleza masculina e a paixão que ela inspira. “Todo mundo quer ser Cary Grant. Até eu quero ser Cary Grant”, disse, bem, Cary Grant.

Mas o homem bonito pode nos enervar, particularmente porque complica as normas de gênero. George Clooney é mais que um rosto bonito, afirmou mais de um escritor. Sim, mas ele também é bonito. Parte da ansiedade quanto a isso cheira a medo dos gays e misoginia.

Pitt se alterna entre aceitar e rejeitar o papel de símbolo de beleza, ainda que pareça sempre disposto a interpretar esse papel em ensaios fotográficos; talvez porque o conheça tão bem, ele é muito competente em satirizá-lo. Parte do que funciona em “Clube da Luta” é a qualidade agressivamente performática que ele dá a Tyler Durden, que, com seu passo agressivo, jaqueta de couro vermelho e óculos com lentes cor de sangue, oferece um ideal de destemor masculino e dos excessos que as revistas para homens adoram promover. Ele é um bonitão para homens. Porque embora Tyler tenha uma amante e antagonista mulher (Helena Bonham Carter), seus relacionamentos principais são com outros homens, entre os quais seu duplo e os caras que afluem ao clube da luta, gritando histericamente.

“Clube da Luta” demonstrou o talento de Pitt como coadjuvante, a capacidade de alinhar suavemente seu trabalho ao de um coastro homem, ou trabalhar à sombra deste, o que ele faz em “Era Uma Vez em... Hollywood” e nos três filmes da série “Onze Homens e um Segredo”, trabalhando como a Rosalind Russell do Cary Grant interpretado por Clooney. Diferentemente de alguns de seus pares, Pitt sempre pareceu muito confortável ao dividir a tela com protagonistas mulheres, entre as quais algumas com quem teve relacionamentos, como Juliette Lewis (em “Kalifornia”) e Angelina Jolie (“À Beira-Mar”); ele também é um dos poucos astros contemporâneos cuja persona foi formada ao menos em parte pelas mulheres famosas com quem dividiu sua vida.

Em um cinema americano dominado há décadas por personagens masculinos que andam em grupos ou caminham sozinhos pelas ruas hostis, parece válido destacar o quanto Pitt parece confortável em companhia de mulheres, nas telas e fora delas. Isso remonta ao seu primeiro sucesso, em “Thelma e Louise”, no qual ele interpreta um objeto de desejo muito intencional, chamado J.D. Foi Geena Davis, que interpreta Thelma, que insistiu na contratação de Pitt, de preferência a Clooney e outros candidatos, ainda que o diretor, Ridley Scott, não demorasse a compreender o que ele trazia para o papel, curto mas importante. Scott, um perfeccionista visual sempre apegado a superfícies molhadas reluzentes, aspergiu água mineral Evian no torso de Pitt para lhe dar brilho.

O momento alto de Pitt acontece em uma noite tranquila na metade do filme. Chegando na chuva, J.D. bate à porta do quarto de motel de Thelma, se vangloriando de roubar lojas, e a satisfaz na cama. Na manhã seguinte, Thelma, ainda descabelada, conta a Louise sobre sua noite com J.D. “Por fim entendi o que todo mundo sempre diz”, ela afirma, com um sorriso sensual no rosto. “É um jogo completamente diferente”. Uma das coisas que os detratores do filme jamais perceberam é que “Thelma e Louise” não trata de mulheres que se desviam da norma, ou agem como homens, mas do prazer feminino e da libertação de corpo e alma. J.D. rouba Thelma e a empurra na direção do crime. Mas também a liberta.

Logo antes de fazerem sexo, J.D. (de peito nu, como deveria) remove das calças o secador de cabelos portátil que tinha roubado e o sacode como se fosse uma arma, mostrando a Thelma como os foras de lei devem se comportar. A mistura de mensagens —o secador feminino, a arma fálica— cria uma combinação dissonante de significados que mistura masculino e feminino, desejo e perigo, riso e sofrimento. A dissonância é crucial para o filme e para a persona que Pitt desenvolveria, em parte porque atenua a beleza e o torna abordável, divertido, humano.

“Aquela cena, aquele momento”, diria Scott mais tarde, “é o começo de Brad Pitt. Bingo!” Scott estava errado: o desempenho todo de Pitt representa o começo de sua trajetória, e o amor da câmera por ele só ajuda.
 
 

Tradução de Paulo Migliacci

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