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Coletânea de Natalia Ginzburg é primorosa e combina elegância com honestidade

'As Pequenas Virtudes' mistura escrita memorialística, ensaio e autobiografia

As Pequenas Virtudes

  • Preço R$ 44,90 (128 págs.)
  • Autor Natalia Ginzburg
  • Editora Companhia das Letras
  • Tradução Maurício Santana Dias

“E o que é a vocação de um ser humano senão a mais alta expressão de seu amor à vida?” Levando em conta esse fragmento do belíssimo e necessário ensaio “As Pequenas Virtudes”, que dá nome à coletânea de que falaremos aqui, podemos concluir que Natalia Ginzburg (1916-1991) deveria ser imensamente apaixonada pela sua existência.

Vocação e talento para a escrita, a única coisa que ela diz saber fazer —“se tento outra coisa […] tenho a impressão de ser cega e surda e sinto como uma náusea dentro de mim”—, não lhe faltam. 

E isso eu já sabia desde minha obsessão por outro livro seu, “Léxico Familiar”, também publicado pela Companhia das Letras.

Natalia já pressentia, desde os tempos de estudante (morando com uma amiga e longe dos filhos), que faria imenso sucesso. No ensaio “Os Sapatos Rotos”, ela diz esperar por um futuro em que será “uma escritora velha e famosa”.

A escritora italiana Natalia Ginzburg (1916-1991) - Reprodução

Amiga de Calvino e do poeta Cesare Pavese (“Retrato de Um Amigo” é sobre ele: “por muito tempo pensamos que se curaria daquela tristeza quando decidisse tornar-se adulto”), é filha de professor universitário e foi militante antifascista ao lado do marido, Leone Ginzburg, que foi torturado e morto pelo regime.

Sobre a Itália, no texto “Inverno em Abruzzo”, diz tratar-se de um país que se rende aos piores governos, “cheio de incompetência, desordem e cinismo”. Pensei no Brasil.

Fiquei com vontade de imprimir algumas cópias do ensaio “As Pequenas Virtudes” e carregar comigo.
A intenção é presentear quem quer que cruze o meu caminho e seja merecedor de tamanha preciosidade.
Acredito que um bom pediatra deveria, junto com a lista das vacinas do ano, repetir algumas de suas frases essenciais sobre o que se deve ensinar a um filho: “não a poupança, mas a generosidade e a indiferença ao dinheiro; não a astúcia, mas a franqueza e o amor à verdade […]”.

No texto “Elogio e Lamento da Inglaterra”, Ginzburg diverte com um parágrafo que em tempos de “cancelamento” seria impossível: “às vezes acreditamos perceber a vulgaridade na voz cacarejante ou no riso estrídulo de uma mulher, nas cores berrantes de sua maquiagem ou em seus cabelos espigados. Mas logo nos damos conta de que neste país, em qualquer canto, a vulgaridade é sempre esmagada pela melancolia”.

Tive dúvidas se em 1962, década marcada pelo movimento feminista e pela liberdade sexual, seria possível escrever o mais íntimo dos ensaios, “Ele e Eu”, expondo uma relação bastante machista, opressora e tóxica, e ainda assim soar romântica e dona da situação.

Como em todos os textos do livro, vislumbramos profundidade e complexidade através de uma linguagem generosamente direta e sem floreios. Elegância com honestidade: uma dupla tão rara quanto primorosa.

Divido com vocês o pensamento que me acompanhou durante toda a leitura desta obra espetacular, mistura de escrita memorialística, ensaio e autobiografia: simples como se você estivesse tomando chá na casa de uma tia; genial como se essa tia fosse uma das principais vozes do século 20.

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