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Documentário mostra rotina de família síria em meio a guerra civil

'For Sama', filme de Waad al Nateab, sobre a rebelião síria aborda cotidiano de refugiados na Inglaterra

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Eleanor Stanford
The New York Times

"Como é que você leva os espectadores a ligar –ligar de verdade– para coisas que acontecem do outro lado do mundo?". Essa era a questão que a jornalista e cineasta Waad al Kateab e seu codiretor, Edward Watts, enfrentavam quando começaram a editar as 500 horas de material de que dispunham sobre a rebelião na Síria.

Começando em 2011 como universitária, Kateab filmou sua vida em Aleppo, registrando os protestos e violência que tomaram a cidade (suas imagens e reportagens foram exibidas ocasionalmente pelo Channel 4, do Reino Unido, durante a guerra civil da Síria).

Ela também documentou a cerimônia de seu casamento, jantares com amigos e sua gravidez, mas afirma que desejava que o filme fosse principalmente sobre a cidade. “Eu não queria ser o centro da história” declarou Kateab em entrevista recente.

Os realizadores, no entanto, logo perceberam que um documentário sobre os momentos comuns, além dos devastadores da guerra civil, que fosse um filme que parecesse uma jornada guiada por Kateab sobre cinco anos na vida de sua família, criaria um retrato poderoso da destruição de uma cultura.

“For Sama”, que estreou esta semana no programa “Frontline”, da PBS, está disponível no site do “Frontline” e no YouTube, e é uma combinação surpreendentemente íntima entre as imagens registradas por Kateab e sua narração franca sobre o conflito e o medo que sentia dos efeitos que ele teria sobre sua família.

“Veja só a vida que eu te dei. Você vai conseguir me perdoar um dia?”, diz ela à filha em um momento do longa-metragem. 

O filme se encerra com Kateab, seu marido, Hamza, e a filha do casal, Sama, escapando de Aleppo e chegando à Turquia. Uma segunda filha, Taima, nasceu logo depois. Mais tarde, a família solicitou asilo na Inglaterra e vive atualmente em Londres.

“For Sama” foi lançado no cinema alguns meses atrás, mas Kateab disse em uma conversa telefônica que era importante para ela que as pessoas agora pudessem ver o filme em suas casas, para que ele as levasse a pensar: “E se isso acontecesse comigo, ou ao lugar que eu amo?”.

A cineasta falou também que tem esperança de que o filme e a campanha "Action for Sama", que angaria dinheiro para apoiar trabalhadores assistenciais na Síria, mantenham o conflito sírio presente aos olhos do público, sobre como suas filhas salvaram a ela e ao seu marido, e sobre como é o dia a dia da família agora. Confira a seguir trechos editados da conversa.

O filme é apresentado como uma carta de amor à sua filha Sama, mas também parece um ato de resistência porque você filmava protestos dos quais o regime negava a existência. Muita gente me disse que meu ativismo é uma coisa e o meu filme é outra. Mas para mim, as duas coisas são iguais. Eu não teria feito o filme se não fosse ativista.

No começo da rodagem, eu estava muito desesperada, não sabia se o filme causaria qualquer mudança, e não desejava criar qualquer expectativa, especialmente porque tinha acabado de sair [de Aleppo]. Perdi tudo. Não sabia se conseguiria me erguer de novo. Comecei a fazer o filme porque senti que era a única forma de levar a vida em frente. Eu o fiz para que servisse como registro, como se a pessoa pudesse guardá-lo em sua biblioteca e dizer que aquela é uma história da Síria.

Nossa esperança é de que o filme não seja só um filme. As pessoas podem só vê-lo, mas ele também é um instrumento de mudança. Pode levar as pessoas a fazerem alguma coisa. É por isso que também criamos a "Action for Sama", uma campanha para deter os ataques às instalações de saúde na Síria.

Por que você e seu marido Hamza decidiram revelar tanta coisa sobre suas vidas à audiência do filme? Na verdade, eu acho que as pessoas sabem muito pouco sobre o que aconteceu conosco. Foram cinco anos. Tenho 500 horas de imagens. Só usamos 95 minutos. As pessoas até podem sentir que nos conhecem muito bem, mas são apenas as coisas gerais que qualquer pessoa poderia saber sobre nossa vida, como quem viveu aquela situação.

As pessoas sabem que há quem tenha filhos numa situação como aquela [a rebelião síria], mas têm milhares de perguntas sobre os motivos para que isso aconteça; tudo que parece pessoal na verdade já é muito público.

Histórias ressoam mais quando existe um personagem a que as pessoas possam se conectar, além dos fatos. O mundo inteiro tem medo de refugiados, de alguém visto como “o outro”. O filme é para combater isso de um modo muito simples, porque o espectador sente que conhece aquelas pessoas e se importa com elas. É preciso que essas pessoas sejam parte de nossa vida, ou nós de suas vidas.

Você e sua família agora vivem em Londres. Como foi sua experiência ao obter asilo? Tudo foi fácil para nós, diferentemente do que acontece com outras pessoas. Conheço muita gente que não consegue escapar da Síria, e está hoje nos campos de refugiados ou na Turquia.

Eu trabalhava para o Channel 4, e por isso, tive acesso a um visto para vir ao Reino Unido. Depois de um ano vivendo na Turquia, em maio de 2018 chegamos ao aeroporto de Heathrow e pedimos asilo ao desembarcar.

Um problema, porém, é que quando chegamos à Inglaterra eu não pude trazer minha segunda filha, Taima. Ela tinha quase um ano e não tinha documentação. O único papel de que eu dispunha era do hospital informando que eu tive uma filha, mas eles não colocaram nem o nome da criança. Tentei recorrer à embaixada da Síria em busca de ajuda, mas eles não quiseram ajudar, porque Hamza era procurado pelo regime [por sua participação na rebelião].

Meu passaporte, o de Hamza e o de Sama estavam quase vencendo, e quando isso acontecesse não teríamos a opção de obter passaporte novos. Por isso, não me restava opção a não ser partir. Assim, tive de deixar Taima na Turquia por cinco meses até conseguirmos asilo, o que me permitiu trazê-la à Inglaterra com um documento temporário de viagem britânico. Tento não pensar demais sobre aquele período. Fico feliz por aquele pesadelo ter acabado. 

Você e sua família esperam voltar à Síria? Com certeza. Não só porque significaria rever meu lar, mas também para todos nós que ficamos até o fim, estar fora da Síria não é o que desejamos. Mas não tivemos outra escolha.

Mesmo na Turquia, a vida não é muito boa, ainda que você esteja seguro. Você se sente sitiado de outra maneira. Seu direito de ficar, de direito de partir e de fazer qualquer coisa, até mesmo trabalhar... é tão difícil fazer as coisas legalmente.

Não queremos receber dinheiro das organizações assistenciais. Queremos trabalhar. Há muita coisa que podemos fazer –Hamza é médico. Mas como refugiados, não existe nada de estável, e é preciso encontrar maneiras individuais de sobreviver.

Como vem sendo sua experiência de viver em Londres? Me mudar para cá não parecia a decisão perfeita naquele momento, especialmente com o brexit. Mas a experiência foi muito diferente do que eu esperava. As pessoas foram muito gentis. Depois que meus vizinhos viram o filme no Channel 4, no dia seguinte deixaram mensagens muito bacanas em minha porta, foi adorável.

Para mim, Aleppo e a Síria sempre serão meu primeiro lar, mas sinto de verdade que tenho um segundo lar na Inglaterra.

Você ainda se sente muito conectada com a Síria e se preocupa com as mudanças no panorama político por lá? Fazer e promover o filme foi bom porque me permitiu sentir que não estava separada do que vem acontecendo. Você continua lutando e fazendo alguma coisa, mesmo que esteja fora [da Síria]; mesmo que tenha precisado partir. Isso impediu que eu perdesse a esperança.

O filme é uma chance da Síria voltar às notícias, quando todos sentem que o mundo ignora o que está acontecendo lá. Essa é nossa história, e ver pessoas ainda envolvidas, ainda engajadas, é uma sensação maravilhosa. Com tudo que está acontecendo na Síria, é preciso repetir sempre a mesma linha: nada mudou.

Quais são seus planos para o futuro? Conseguir uma bolsa de mestrado para estudar comunicação e desenvolvimento de mídia. Não estudo há sete anos, e antes disso trabalhava com marketing, que é completamente diferente.

É muito importante para nós pensarmos sobre como a mídia e o jornalismo podem ser desenvolvidos em lugares como a Síria. E também é importante que não só o mundo esteja nos observando de sua perspectiva, como também que estejamos observando o mundo de nossa perspectiva. Essa é uma vantagem daquilo por que passamos. Não podemos reclamar.

Hamza está trabalhando para uma companhia que provê serviços bancários em áreas de conflito. No ano que vem, ele fará mestrado em saúde pública.

As meninas estão gostando de Londres? Sama tem quatro anos e Taima, 30 meses. Estão curtindo tudo. Alternam entre inglês e árabe –Sama já começou a corrigir nossa ortografia. E ela tem sotaque britânico– não, por favor, não. [Risos].

Na semana passada foi o Halloween, e elas passaram um mês comemorando, meu Deus! Dormiram vestidas de bruxa por uma semana.

Tivemos momentos bem difíceis depois que deixamos Aleppo com Sama. Ela tinha pesadelos. Mas agora está indo muito bem. As crianças nos surpreendem. Estou certa de que eu e Hamza mantemos o ânimo por causa delas. Você precisa encontrar esperança ao acordar a cada dia, e quando tem filhos, você sempre segue em frente, por eles.

The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

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