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Cinema

Em 'Uma Vida Oculta', filme que se passa na 2ª Guerra, não há tiros, nem bombardeios

Com aura religiosa, novo longa de Terrence Malick é manifesto de resistência

Uma Vida Oculta

  • Quando Estreia nesta quinta (27)
  • Classificação 14 anos
  • Elenco August Diehl, Valerie Pachner, Maria Simon
  • Produção Estados Unidos/Inglaterra/Alemanha, 2019
  • Direção Terrence Malick

A raridade da primeira etapa da obra de Terrence Malick, diretor que entre 1973 e 2005 filmou apenas quatro longas, consolidou a impressão de que ele seria um realizador único, cujos poucos filmes valeriam ouro. A intensificação da atividade do diretor na última década demonstrou, ao contrário, que sua estética metafísica se diluía em contato com a banalização.

“Uma Vida Oculta” oferece os elementos para Malick retornar ao essencial, conjugando os dois extremos de sua visão de mundo: o cósmico e a consciência, a crença e a liberdade.

O filme retoma a história real do austríaco Franz Jägerstäter, que por objeção de consciência se recusou a participar das forças nazistas durante a Segunda Guerra. A desobediência foi julgada como traição, Jägerstäter foi condenado à morte e executado em 1943. Em 2007, a Igreja Católica o reconheceu como mártir.

Malick dispensa a obviedade da “história baseada em fatos reais” e, em contrapartida, ganha espaço para representar um drama de ressonâncias filosóficas. A longa duração do filme, por sua vez, permite ao cineasta aprofundar, a partir da bifurcação que separa Franz de sua esposa, Fani, os caminhos que contrapõem o mundo regulado pelos homens ao mundo no qual a natureza se impõe.

A escolha de uma representação espiritual em detrimento do realismo factual também se percebe no apagamento das marcas que definem dramas ambientados na Segunda Guerra. Aqui, não há tiros, nem bombardeios e a guerra só se revela na forma de medos e da transformação dos valores.

Mas como ultrapassar a materialidade da imagem cinematográfica e sugerir outras dimensões sem recorrer à artificialidade de efeitos visuais fantásticos? Malick adota dois procedimentos. Um é usar a voz over como recurso de expressão mental, em vez de reduzi-la a muleta narrativa. O outro consiste em trabalhar a imagem de modo a sugerir uma sensorialidade extrafísica, flutuante, vertiginosa nos planos em que os corpos são filmados de baixo e as montanhas e as nuvens projetam algo além do homem.

Malick recupera a aura de seus grandes trabalhos, como “Além da Linha Vermelha” (1998) e “O Novo Mundo” (2005), nos quais as relações entre indivíduo e natureza oscilavam entre o diálogo e o pertencimento.

Fora dali, nos espaços exclusivamente humanos das prisões e tribunais, essa integração desaparece e surgem relações de abuso, dominação e sujeição.

As ressonâncias cristãs do martírio de Franz projetam uma inequívoca luz religiosa sobre “Uma Vida Oculta”. Mas a fé inabalável que Malick filma em filigrana é antes um manifesto de resistência, uma crença tão urgente agora quanto há milênios.

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