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Escritor Ian McEwan constrói obra inferior em paródia do brexit

Autor de 'A Barata' acerta na opção pelo absurdo ao satirizar a saída britânica da União Europeia, mas falha na execução

Um olhar em retrospecto para a obra de Ian McEwan já daria a dica. O escritor britânico se sai muito melhor em livros que dissecam as consequências morais de nossas escolhas em relacionamentos privados.

A dinâmica dos conflitos entre amigos, caso de “Amsterdam”, que lhe rendeu o Booker em 1998; entre amantes, como em “Amor Sem Fim” ou “Na Praia”; e, claro, entre familiares, no excelente “Reparação”, constituiu farta matéria-prima para um dos mais festejados autores em língua inglesa da atualidade.

O escritor britânico Ian McEwan durante apresentação no Fronteiras do Pensamento, em São Paulo
O escritor britânico Ian McEwan durante apresentação no Fronteiras do Pensamento, em São Paulo - Adriano Vizoni - 26.out.16/Folhapress

Quando McEwan decidiu se aventurar em obras mais explicitamente políticas, no entanto, o resultado foi inferior.

É o caso de “Sábado”, que traz como pano de fundo a histeria da invasão americana no Iraque, e “Solar”, no qual a emergência climática é jogada na cara do leitor.

Logo, não é de causar espanto que faça parte deste segundo grupo a novela em que o autor discorre sobre o brexit —processo consumado nesta sexta-feira (31), após quase quatro anos desde o plebiscito que o então premiê David Cameron convocou, crente que o voto pró-União Europeia sairia vencedor.

Não é a primeira incursão do escritor no tema. Em seu último romance, “Máquinas como Eu”, de 2019, o brexit é um dos ingredientes do caldeirão de ficção especulativa que nos apresenta a uma Inglaterra alternativa dos anos 1980, humilhada pela Argentina na Guerra das Malvinas, mas com androides quase humanos andando pelas ruas.

Em “A Barata”, ele acerta na opção pelo absurdo ao retratar o evento mais traumático da história britânica desde a Segunda Guerra Mundial. Falha, porém, na execução, e ao final das cem páginas o leitor fica com a sensação de ter lido um fio mediano no Twitter.

Não que o texto não tenha seus méritos.

Já na primeira página, McEwan flerta com a abertura de “A Metamorfose”: “Naquela manhã, Jim Sams, inteligente mas de forma alguma profundo, acordou de um sonho inquieto e se viu transformado numa criatura gigantesca”.

É, afinal, impossível não ter em mente o clássico de Kafka sobre a transmutação de Gregor Samsa em um besouro gigante. Aqui, porém, tem lugar o inverso, e uma barata desperta no corpo do primeiro-ministro britânico.

A força de um evento aleatório inerente à narrativa se vê diluída na posterior revelação de um plano engendrado pelas baratas que vivem no subsolo do Parlamento.

O objetivo dos insetos é concluir o projeto do reversalismo, que patina nas mãos de um premiê fraco e indeciso. Tudo muda quando Jim desperta no corpo do chefe de governo, o equivalente à troca de Theresa May por Boris Johnson do lado de cá da história.

Na paródia de McEwan para o brexit, o Reino Unido “inverteria sua economia”: as pessoas pagariam para trabalhar, mas receberiam dinheiro ao comprar produtos nas lojas.

Mais do que Kafka, reconhece o autor no posfácio, a novela deve ser lida à luz de “Uma Modesta Proposta”, de Jonathan Swift, o mesmo de “Viagens de Gulliver”. O texto, publicado em 1729, virou referência na sátira política inglesa ao propor uma solução para a miséria dos irlandeses: a venda de suas crianças como alimento para nobres ingleses.

Em um dos poucos momentos de brilho da narrativa, o premiê é recebido pela chanceler alemã em Berlim. Ela questiona “por que ele está fazendo isso”, isto é, guiar o Reino Unido teimosamente a um futuro incerto e tratar antigos aliados como inimigos.

“Uma série de respostas convincentes passou pela mente do primeiro‑ministro, embora ele não as emitisse. Porque sim. Porque é o que estamos fazendo. Porque é nisso que acreditamos. Porque foi o que dissemos que iríamos fazer. Porque foi isso que o povo disse que queria. Porque eu vim para salvar a todos. Porque sim. Esta, em última análise, era a única resposta: porque sim.”

No posfácio, McEwan justifica a —questionável— escolha para representar um grupo político do qual ele discorda: “Com o brexit, alguma coisa medonha e estranha se infiltrou no espírito de nossa política, e por isso achei razoável invocar uma barata, o mais desprezível dos seres vivos”. Em outras palavras, porque sim.

A Barata

  • Preço R$ 39,90 (104 págs.)
  • Autor Ian McEwan
  • Editora Companhia das Letras
  • Tradução Jorio Dauster
 
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