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Filme sobre invasão à UnB na ditadura quer quebrar imagem caricata do evangélico

'O Pastor e o Guerrilheiro', de José Eduardo Belmonte, tem estreia prevista para meados de 2021

Brasília

O Exército e a Polícia Militar invadiram a UnB (Universidade de Brasília) na quinta-feira (14). 

Na operação, com objetivo de cumprir mandados de prisão preventiva, foram lançadas bombas de gás contra os estudantes.

Um grupo de cerca de 50 alunos fugiu por um corredor do Instituto Central de Ciências, na Asa Norte, perseguidos a golpes de cassetete pelos policiais.

“Meu Deus, o que é isso? Corre, gente”, uma aluna disparou para as amigas ao ver a fumaça e os homens fardados no encalço de um grupo. Uma das colegas interpelou: “Calma, é aquilo que avisaram”.

“Aquilo que avisaram” são as filmagens do novo longa do diretor José Eduardo Belmonte, “O Pastor e o Guerrilheiro”. 

As bombas e a correria que causaram sobressaltos em alunos da universidade em 2020 faziam parte, na verdade, de uma recriação de 1968 —como denunciava a um observador mais atento a barra boca-de-sino das calças dos 50 figurantes que correram da polícia durante cerca de três horas para a gravação de uma única cena no ICC, sob os comandos de Belmonte.

Nos anos 1960, a invasão não teve nada de encenada. 

A ditadura militar invadiu com a polícia, o Exército e o Dops (Departamento de Ordem e Política Social) o campus. 

Segundo a própria UnB, cerca de 300 estudantes foram presos dentro da universidade e um perdeu o olho em decorrência da ação truculenta.

Os desdobramentos dessa invasão seriam usados, em dezembro de 1968, como pretexto para a declaração do AI-5, que marcou o endurecimento do regime.

É esse um dos cenários do filme que junta na mesma prisão clandestina o universitário e depois guerrilheiro João (Johnny Massaro), um dos que foge pelos corredores da universidade em 1968, com o evangélico Zaqueu (César Mello), preso por engano. 

Em fase de produção, o filme tem estreia prevista para meados de 2021. 

Outra parte do longa, já gravada no Pará, se passa na guerrilha do Araguaia, em 1972. É lá que João termina preso e enviado de volta a Brasília. Lá, o religioso terá papel importante para a sobrevivência do comunista. Os dois combinam de se ver quase 30 anos depois.

A história do filme, conta o produtor Nilson Rodrigues, da Mercado Filmes, é uma mistura de pessoas que ele conheceu ao longo da vida.

Trechos são inspirados na experiência do petista José Genoíno, preso em 1972 no Araguaia. 

Outros, na vida de Glênio Sá (1950-1990), o guerrilheiro potiguar que teve um evangélico como companheiro de cela da ditadura. 

“O Pastor e O Guerrilheiro” busca abordar o personagem de Zaqueu fora de estereótipos de conservadorismo, diz Nilson. 

“Evangélico sempre foi tratado de maneira muito estereotipada, caricata”, afirma ele. 

Além de sua trajetória na cadeia, o pastor terá um dilema no futuro: seu filho, Jeremias, quer aderir ao crescente movimento das igrejas neopentecostais, considerada mercantilista demais por Zaqueu. 
São vários personagens com trajetórias a princípio conflitantes que se encontram na trama. 

Temos o comunista e o evangélico, o coronel que torturou os dois e sua filha bastarda, Juliana, engajada na luta por cotas raciais na UnB na virada do século 21.

“É uma relação de ajudar o outro, de ouvir o outro e entendê-lo, acho que isso é o filme.

Independentemente do rótulo que ele tenha, da crença ou da convicção que ele tenha, ele está lá contigo e você tem de fazer pontes”, diz o diretor à Folha durante conversa na própria UnB, sua alma mater. 

Ele diz que o filme se encontra com o momento atual de polarização política por tentar pautar o diálogo entre os diferentes. 

“A gente tem de tentar conversar minimamente. Claro que os radicais são mais difíceis de conversar, e hoje a polarização travou muito a conversa.”

Ele afirma que o filme pretende juntar o que o século 20 deixou de legado para o 21. 

Por isso, parte do longa se passa em 1999, onde o encontro entre os dois protagonistas deve acontecer —mas terá seus imprevistos.

“Até hoje a gente nunca conseguiu falar muito bem sobre a ditadura militar, a gente tem dificuldade muito grande de se olhar no espelho, falar que é racista, que existe racismo no Brasil”, afirma Belmonte. 

“É muita negação disso, o filme tenta mostrar que ainda existe isso e que você começar a falar sobre é realmente acessar o outro, acessar uma verdade que vai doer.” 

O Pastor e o Guerrilheiro

  • Quando Estreia em 2021
  • Elenco Johnny Massaro, Júlia Dalavia, César Mello, Anna Hartman, Sérgio Mamberti, Ricardo Gelli, Antônio Grassi
  • Produção Brasil, 2020
  • Direção José Eduardo Belmonte
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