Descrição de chapéu
Livros

Livro mostra capacidade anfíbia do compositor Ronaldo Bastos

'Hotel Universo', de Marcos Lacerda, é um ensaio sucinto e certeiro sobre a obra do artista

O compositor Ronaldo Bastos
O compositor Ronaldo Bastos - Ze Carlos Barretta/Folhapress
Mariano Marovatto

Hotel Universo - A Poética de Ronaldo Bastos

  • Preço R$ 39 (174 págs.)
  • Autor Marcos Lacerda

Dentre outras atribuições da mais alta pertinência, coube aos compositores e letristas brasileiros do século 20 o papel de “agenciador do enunciado coletivo” capaz de “desvendar o fundo, o sentido e o espírito das coisas”. 

Nas últimas décadas isso já foi dito e redito em distintas abordagens por distintos críticos, é sabido. Mas quem afirma agora é Marcos Lacerda, autor do livro “Hotel Universo” sucinto e certeiro ensaio sobre Ronaldo Bastos e sua incontornável obra dentro da evolução da música popular brasileira.

Conforme colocado pelo autor logo ao início do texto, Ronaldo desde os anos 1960 demonstrou sua capacidade anfíbia de possuir ao mesmo tempo um cosmopolitismo radical e uma consciência da tradição da música popular brasileira. O compositor de “Cais” é parte indissolúvel do centro nevrálgico da tradição da “gaia ciência” que é a canção brasileira, para citar o recorrente ensaio de José Miguel Wisnik

Por cumprir o papel de saciar as necessidades líricas e prover uma educação sentimental e política entre os ouvintes, o compositor da canção popular brasileira é o desdobramento mais efetivo da poesia brasileira já produzido. Desde que a fronteira entre poesia e canção foi completamente desfeita no século passado por Vinicius de Moraes, o marco zero da revolução lírica da língua portuguesa, os temas caros aos grandes poetas foram também herdados pelos grandes compositores. 

E Ronaldo Bastos é, sem dúvida, um destes maiores, como demonstra Marcos Lacerda nos cinco capítulos que mapeiam a obra de Bastos. 

A separação temática deixa flagrante o objetivo do autor em oferecer para letras de música o mesmo peso que se dá aos poemas, dentro da obra de um autor de vulto. De fato, Bastos responde a todos esses temas como bom poeta do século 20. Já há 50 anos ele é mestre em deixar-se atravessar por diferentes linguagens artísticas, pelos acontecimentos históricos mais pertinentes para transpor e propôr nas linhas que cabem nas melodias do seus parceiros (Ritchie, Tom Jobim, Roupa Nova, Domenico Lancelotti, Milton Nascimento, Celso Fonseca etc.) uma nova inquietação aos seus ouvintes. 

Quando Lacerda afirma que Ronaldo Bastos é também “uma espécie de de estrangeiro para esta mesma tradição”, talvez isso digo mais respeito a gigantesca gama de parceiros que colecionou ao longo da sua carreira, nomes de gerações e nichos tão distintos a priori, tal qual os intérpretes de suas canções, como o RPM ou Jamelão. 

Muito mais do que velar por uma tradição, essa qualidade diz respeito a sua capacidade de conciliador estético e de instaurar uma rede de compositores que não passe necessariamente por hierarquizações, mas pelo desafio e prazer de conseguir criar afinidades à revelia de qualquer projeto centralizadores.

Marcos Lacerda, no seu texto sintético, leve e fluido, recorre exaustivamente ao uso das próprias metáforas de Bastos, pinçadas de determinadas canções para servir de explicação para outras. Ao final, temos a impressão de que estávamos ouvindo uma larga canção-tese que completa o seu objetivo com êxito: “Hotel Universo” lança luz sobre a importância, antes um tanto quieta, de Bastos dentro da lírica brasileira. 

Que o livro sirva não só como fonte primária de futuros estudos sobre a obra do autor de “Fé Cega, Faca Amolada”, mas que abra um nicho —de textos que também busquem uma pungência e que se contaminem por outros repertórios, menos engessados e mais urgentes— que coloque em pauta outros letristas alicerces da cultura brasileira como Rita Lee, Mano Brown ou Cacaso, por exemplo.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.