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Morre o crítico literário George Steiner, aos 90

Suas críticas lidavam com o paradoxo do poder moral da literatura e sua impotência diante de eventos como o Holocausto

São Paulo

No dicionário, “polímata” define aquele que estuda ou sabe de muitas ciências e campos do conhecimento. Não existe definição melhor para George Steiner.

Morto nesta segunda-feira (3) aos 90 anos, Steiner ficou conhecido como um dos mais importantes críticos literários. Mas sua atuação foi muito além disso. Era também professor, publicou textos de ficção e escreveu sobre temas como filosofia, linguística, estética, história intelectual, ciências naturais e até xadrez. 

Nascido em uma família judaica na França, em 1929, ele era fluente em inglês, francês e alemão e lia ao menos sete idiomas —o que fez ainda com que tivesse trabalhos significativos no que hoje são conhecidos como estudos de tradução.

Sua ascendência fez com que o Holocausto se tornasse tema em sua obra —tanto o genocídio quanto a impotência da literatura diante dele. 

“Ele sempre soube transmitir o horror essencial do Holocausto —não apenas na sua dimensão histórica, mas, principalmente, nas consequências para quem escreve ficção e poesia”, diz o escritor e diplomata Felipe Fortuna. “Traçou com impressionante lucidez a linha divisória entre civilização e barbárie”, completa.

Mas, justamente por ter sido uma espécie de polvo que atinge com seus tentáculos diferentes áreas do conhecimento, sua carreira também colecionou críticas, fazendo com que tenha se queixado diversas vezes de ter sido marginalizado pela academia.

Steiner foi visto por alguns colegas como um autor excessivamente popular, simples e superficial. Embora vissem o professor como sério e culto, o achavam pouco original.

Por outro lado, era tido como um intelectual autoconfiante e até com certo ar de superioridade, o que fazia com que respondesse às críticas com um contra-ataque à especialização. Em uma das mais famosas, disse: “Apenas as vacas têm campos”. 

Com mais de 20 livros sobre diferentes temas, foi com a crítica literária que ficou mais conhecido. Em sua primeira obra, “Tolstói ou Dostoiévski?” —dedicada a dois autores que escreviam em um idioma que ele admitia não ler—, escreveu: “A velha crítica é gerada pela admiração”.

Isso o aproximava de Harold Bloom, outro dos mais importantes críticos literários, morto em outubro do ano passado. Ambos valorizavam o cânone da arte ocidental e eram críticos de movimentos da área, caso da chamada “nova crítica”, dos anos 1950.

“Às vezes, [essa crítica] se afasta do texto para considerar o propósito moral”, escreveu em seu primeiro livro. 

Tanto que costumava desprezar análises e comentários sobre textos clássicos, dizendo que nada substituiria a leitura dessas obras.

Em sua autobiografia (“Errata - Uma Vida Examinada”) e no livro no qual é entrevistado (“George Steiner: À Luz de Si Mesmo”), se mostra como alguém imerso na alta cultura, distante da produção popular.

Ele se descrevia como apaixonado por poesia (em especial a de Paul Celan), música (de Beethoven a Boulez) e filosofia (de Espinosa a Heidegger). Também mostrava apreço pelo cinema, mas preferia filmes feitos antes de 1939. Suas leituras incluíam Shakespeare, Homero, a Bíblia e o filósofo e teólogo dinamarquês Søren Kierkegaard.

A paixão pela leitura ficou imortalizada em um de seus ensaios mais célebres: “O Leitor Incomum”, no livro “Nenhuma Paixão Desperdiçada”. Costurado com a erudição própria de seu trabalho, o texto gira em torno do quadro “O Filósofo Lendo” (1734), de Jean-Baptiste Simeon Chardin.

“O fólio, a biblioteca particular, a intimidade com as línguas clássicas”, escreve o autor, “pertencerão, cada vez mais, a umas poucas pessoas muito especializadas”.

Ao longo da vida, Steiner passou por universidades como Princeton, Cambridge, Genebra, Nova York e Harvard. O crítico morreu em Cambridge, no Reino Unido. A morte foi confirmada por seu filho. Além dele, Steiner deixa a mulher e uma filha.

Deixa também leitores e críticos que gostariam que ele tivesse se dedicado a só uma área. “Se tivesse permanecido com um único tema durante duas ou três décadas, não teria sido George Steiner”, escreveu o historiador Peter Burke neste jornal em 2003.

“Foi criticável na sua incorrigível dispersão, mas foi sempre um intelectual estupendo: acessível como Umberto Eco; rigoroso como Jacques Le Goff”, acredita Felipe Fortuna.

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