Mostra sobre antigo Egito chega a São Paulo após bater recorde de público no Rio

Esfinges, caixões e até uma múmia estão entre as 140 peças emprestadas ao CCBB pelo Museu Egípcio de Turim

São Paulo

Quem entrasse numa pirâmide no Antigo Egito, mais ou menos 4.000 anos atrás, atravessaria um longo corredor até chegar a uma antessala de paredes decoradas. Numa mesa baixa, deixaria oferendas: pão, azeite, vinho.

Afinal, o faraó, cuja câmara ficava depois da antessala, separada por uma porta baixinha, poderia estar com fome mesmo depois da morte. Se assim fosse, sua alma poderia comer petiscos e perambular por aí, assumindo a forma de um pássaro com cabeça humana, enquanto aguardava o julgamento final.

Apesar de estarem dispostos de forma diferente, todos esses objetos —mais uma múmia— podem ser vistos, entre réplicas e originais, em “Egito Antigo: Do Cotidiano à Eternidade”, que chega ao CCBB paulista agora.

Finalizada no início deste mês, sua versão carioca bateu recordes de público, tendo recebido 1,4 milhão de visitantes. É mais do que o surrealista espanhol Salvador Dalí ou Yayoi Kusama, japonesa fascinada por bolinhas, obtiveram no mesmo centro cultural no ano de 2014.

Por aqui, os números devem ser mais discretos, uma vez que o espaço paulistano é cerca de quatro vezes menor do que o do Rio de Janeiro.

O máximo que o CCBB paulista já recebeu numa exposição foram 381 mil pessoas. É menos, por exemplo, do que o recorde do Masp, que registrou 402 mil visitantes com “Tarsila Popular” no ano passado.

A redução do espaço não significou, porém, menos peças, afirma o curador holandês Pieter Tjabbes. Assim, também por aqui estarão cerca de 140 objetos, entre papiros, estelas e outros. Todos emprestados pelo Museu Egípcio de Turim, na Itália, lar da segunda maior coleção egiptológica do mundo —com 40 mil artefatos, ele só perde para o Museu do Cairo.

Os itens são expostos em três seções, que guiam o percurso da mostra. Na primeira, estão utensílios típicos do dia a dia no antigo Egito. Depois, ficam peças que mostram a relação dos egípcios com o sagrado, como miniaturas de templos e estatuetas de deuses.

A última parte é dedicada a tradições funerárias. É ela que abriga uma múmia humana verdadeira, apelidada de Tararó pelos pesquisadores. Como os hieróglifos não têm representações de vogais, seu nome é, na verdade, Trr.

Apesar dessa divisão em seções, quase todos os artefatos reunidos foram descobertos em tumbas. É o caso das paletas utilizadas para preparar o kohl, usado para delinear os olhos, ou dos vasos de azeite e de vinho exibidos na primeira parte da mostra.

Isso porque os egípcios achavam que tudo o que era necessário no dia a dia também deveria estar à mão na vida eterna.

Daí não só os utensílios e tesouros serem sepultados com eles, mas também as ilustrações coloridas que enfeitavam seus caixões e as paredes das pirâmides, mostrando servos, familiares, alimentos. Elas faziam as vezes dos itens e pessoas reais que representavam.

Diretor do Museu Egípcio em Turim, Christian Greco explica que há ainda outros motivos para essa origem fúnebre dos objetos.

Primeiramente, os egípcios só usavam pedras para os templos, moradas dos deuses, e para as tumbas, moradas da eternidade. Suas casas eram construídas com materiais menos duráveis.

Além disso, grande parte das escavações arqueológicas que aconteceram no Egito nos séculos 19 e 20 se concentraram nas necrópoles do oeste do país, no deserto do Saara. De lá vieram 90% de todas as peças que hoje compõem os acervos de egiptologia dos museus, diz o pesquisador.

Greco rebate, no entanto, a ideia de que os egípcios eram obcecados pela morte.

“Eles eram tão apaixonados pela vida que faziam de tudo para perpetuá-la”, afirma.

Ao menos, isto é, aqueles que pertenciam à nobreza. Afinal, eram eles que, junto dos sacerdotes e dos faraós, podiam bancar os altos custos da mumificação e da construção das pirâmides, afirma o curador Pieter Tjabbes.

“Eles eram muito práticos”, diz o holandês, radicado no Brasil há mais de 30 anos. Em tom de brincadeira, ele compara as muitas estratégias às quais os egípcios recorriam para assegurar uma eternidade sem sobressaltos a sucessivas apólices de seguro.

A mumificação era só uma delas. O processo, que envolvia a retirada dos órgãos internos e a posterior desidratação do corpo, que buscava evitar sua decomposição. Nem sempre dava certo, vide um caixão manchado no CCBB.

 

Outras táticas incluíam esconder joias debaixo das ataduras e contratar seguranças para proteger a tumba, de modo a dificultar a ação de possíveis ladrões, ativos desde os tempos dos faraós, 
segundo Tjabbes.

Mas de nada adiantava investir nisso se, na hora do juízo final, diante de Osíris, a alma do morto pesasse mais do que uma pena de avestruz. Seu destino seria então ser devorado por monstros.

A cena do julgamento é ilustrada num exemplar do Livro dos Mortos, papiro de cerca de três metros de extensão que integra a mostra.

A mitologia, tão distante da tradição judaico-cristã, insinua uma pergunta. Como uma civilização tão diferente da nossa atraiu tanta gente ao CCBB carioca?

Tjabbes atribui o sucesso a um tripé que a sua empresa, Art Unlimited, usou em outras mostras bem-sucedidas que montou no CCBB, como as de Mondrian e de Basquiat.

Além de parcerias com instituições respeitadas, ele afirma que uma de suas preocupações centrais é conversar com todo tipo de público. Isso inclui não só planejar um percurso didático, com textos e legendas claros, como também criar atividades específicas para as redes sociais.

“É um esforço se deslocar para uma exposição sobre a qual você não sabe nada. Se fazemos com que imagens bacanas dela circulem, já é um primeiro passo para convencer um visitante potencial”, afirma.

De fato, a oferta de brincadeiras voltadas para o Instagram é ampla. Com a ajuda de espelhos especiais, os visitantes podem se ver usando a máscara funerária de Tutancâmon, ou como uma múmia, se levantando de um sarcófago. Quem não quiser tirar selfie com a réplica de pirâmide erguida na rotunda do CCBB pode optar por um cenário com a esfinge de Gizé ao fundo.

Greco, por outro lado, tem uma resposta mais filosófica sobre o interesse do público.

“Às vezes, penso que somos tão fascinados pelo Antigo Egito porque nos perguntamos qual é nosso objetivo na Terra. E olhando para esses objetos, vemos que os egípcios se faziam a mesma pergunta.”

Destaques da mostra

Retorno
Uma múmia humana de verdade integra a exposição. O curador Pieter Tjabbes conta que funcionários do CCBB-RJ não entravam sozinhos na sala em que ela foi exibida.

Deus feio
Entre as estatuetas de deuses, chama atenção uma de um anão barbudo. Chamado de Bes, ele não era cultuado em templos, mas nas casas, e resolvia problemas domésticos.

Gato por lebre
Não só os humanos eram mumificados. Animais também podiam ter seus corpos preservados, e viravam objetos votivos, como as múmias de gatos na mostra. Tjabbes ressalta, porém, que quando pesquisadores as analisaram, descobriram que em geral elas não tinham traços de animais em seu interior. Ou seja: quem as comprou, foi enganado.

Felinos
Outras deusas que ganham destaque são Sekhmet e Bastet. A primeira tem cabeça de leoa e aparece numa estátua de dois metros de altura. Já a segunda mistura uma cabeça de gato ao corpo feminino.

Egito Antigo: Do Cotidiano à Eternidade

  • Quando Domingo à segunda, das 9h às 21h. Até 11/5. Abertura nesta quarta (19)
  • Onde CCBB-SP, r. Álvares Penteado, 112
  • Preço Grátis

Palestra com Christian Greco, diretor do Museu Egípcio de Turim

  • Quando Quarta (19), às 14h
  • Onde CCBB-SP, r. Álvares Penteado, 112
  • Preço Grátis; distribuição de senhas uma hora antes do evento
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