Descrição de chapéu Cinema Oscar 2020

Polonês indicado ao Oscar investiga fenômeno dos falsos padres

'A Igreja não quer falar sobre isso, porque mostra como qualquer um pode ser padre', diz o diretor Jan Komasa

Los Angeles

“Sou um assassino”, diz o jovem padre a uma paróquia incrédula. A afirmação pública logo é compreendida: é uma maneira de atrair a atenção de uma pequena comunidade que perdeu a fé após uma tragédia ter levado vários jovens locais.

O subterfúgio funciona. O clérigo, novo na região, produz um sermão poderoso. Surpreende e emociona os presentes, basicamente todos os habitantes de uma vila do interior da Polônia. O problema é que o truque do padre pode não ser uma mentira sensacionalista, e sim uma confissão.

É neste equilíbrio entre verdade e falsidade que “Corpus Christi”, longa polonês que surpreendeu os especialistas ao ser indicado ao próximo Oscar de melhor filme internacional, se sustenta de maneira primorosa até o fim.

A trama segue Daniel (Bartosz Bielenia), um jovem de 20 anos preso em Varsóvia por um misterioso crime violento. Ele descobre a vocação para a liturgia durante o cárcere, mas, quando finalmente conquista a liberdade, não pode se inscrever em nenhum seminário por causa da sua ficha corrida. A única opção é trabalhar num moinho no interior que explora ex-prisioneiros —sob a justificativa de “dar oportunidades”.

Na vila próxima ao local, Daniel é confundido com o novo padre enviado pela igreja e assume funções eclesiásticas com a ausência do velho líder da paróquia. “O falso sacerdócio é comum na Polônia”, afirmou o roteirista Mateusz Pacewicz, durante um evento para votantes de prêmios cinematográficos em Hollywood. “Leio sobre novos casos todos os meses. É um fenômeno complicado e estranho.”

As motivações para os casos são variadas, mas a grande maioria acontece por motivos financeiros ou por status social, em um país onde a Igreja Católica é uma instituição poderosíssima.

A Igreja não quer falar sobre isso, porque mostra como qualquer um pode ser padre. Eles apenas varrem as histórias para baixo do tapete”, explicou o diretor Jan Komasa em evento no sindicato americano dos diretores.

Um desses impostores virou uma obsessão para Pacewicz, que também é jornalista. Ele começou a pesquisar sobre um jovem que fingiu ser um padre em uma pequena cidade polonesa durante a celebração de Corpus Christi.

O roteirista foi ao vilarejo entrevistar os habitantes e descobriu que as pessoas da comunidade adoravam o falso religioso —excomungado depois do escândalo. Tanto que escreveram ao Vaticano quando o falsário foi desmascarado. Pacewicz escreveu, então, um livro sobre a história e foi convidado a assumir o roteiro de “Corpus Christi” para o cinema.

O personagem de Daniel é ficcional. Um delinquente de 20 anos que descobre Cristo, mas não larga o cigarro, o álcool e o rock. É apaixonado por motocicletas, quer deixar o passado para trás e não acredita que seu futuro precisa pagar pelos erros do passado —depois de pagar por isso aos olhos da Justiça.
É o invólucro perfeito para o filme conversar sobre segundas chances, a hipocrisia da Igreja e compaixão.

“Levantamos questões sobre religião versus fingimento, fraudes, papéis sociais e a verdade interior”, disse Pacewicz. “Daniel é um mistério, não conhecemos toda a sua história, apenas o que o filme mostra”, completou o ator Bartosz Bielenia.

A grande diferença do personagem para os protagonistas dos casos reais é sua vontade de se dedicar à Igreja de alguma forma. Mas a própria instituição que prega o perdão não aceita um ex-criminoso nas suas fileiras. A adoção dos princípios de igualdade e perdão do falso padre vem aos poucos, quando seus sermões apaixonantes e atitudes pouco ortodoxas conquistam o povoado. “Daniel quer ser alguém pelo menos uma vez na vida”, disse o diretor.

“Não quis ser influenciado por algo que aconteceu nem personificar ninguém”, revelou Bielenia, que trabalhou exaustivamente com Komasa para conseguir ganhar a forma física e mental do personagem que interpreta.

“Eu sabia desde o começo de que ele era capaz de fazer isso. Só precisava ganhar 10 quilos e mais músculos”, lembrou o diretor na sede do sindicato dos diretores. “Queria que ele virasse um hooligan.”

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