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Poucas autoras tematizaram a violência contra mulheres como Ingeborg Bachmann

Sua obra contém ecos da Segunda Guerra e inclui a decepção com um pai que se uniu ao partido nazista

O Tempo Adiado e Outros Poemas

  • Preço R$ 64,90 (208 págs.)
  • Autor Ingeborg Bachmann
  • Editora Todavia
  • Tradução Claudia Cavalcanti

Não há melhor representação da obra de Ingeborg Bachmann do que a floresta que estampa a capa desta coletânea de poemas: densa, cheia de detalhes pontiagudos, bela e diversa —e por isso assustadora, fascinante e inesgotável. 

Um olhar superficial não basta para apreender o entorno. Ou o leitor está disposto a se embrenhar, reconhecendo o risco de sair ferido e de mãos abanando, ou é melhor dar meia-volta. O polissemantismo das metáforas e jogos de palavras torna a tradução da poesia da austríaca excepcionalmente difícil. A tarefa coube a Claudia Cavalcanti, também responsável pela seleção e pelo posfácio.

No posfácio, Cavalcanti diz que “sucumbiu à tentação de entrelaçar obra e vida” ao falar de uma autora multifacetada e esquiva que “há décadas atiça a curiosidade dos leitores”. Ela adota o procedimento mais eficaz: apresentar os fatos da vida de Bachmann é a melhor maneira de apresentar a obra, já que seus temas centrais vêm em grande parte do contexto histórico.

Nascida em 1926 em Klagenfurt, Bachmann também escreveu prosa, ensaios, peças de teatro e libretos de ópera. Sua obra contém ecos da Segunda Guerra e inclui desde a decepção com um pai que se uniu ao partido nazista até a imagem de um desfile de tropas que ela supostamente teria visto quando criança e que a aterrorizou pelo resto da vida.

Escritora Ingeborg Bachmann - Heinz Bacomann/Divulgação

Não há humor nem leveza na poesia da autora, como se vê em “Dizer o Obscuro”: “Assim como Orfeu, toco/ a morte nas cordas da vida/ e ante a beleza do mundo/ e de teus olhos, que comandam o céu/ só sei dizer o obscuro”.

No fragmento biográfico citado no posfácio, Bachmann menciona Valéry, Eluard, Gide e Yeats como algumas de suas influências. Mas “ainda me domina o mundo rico e mítico de meu país”, escreve ela, “um mundo onde são faladas muitas línguas e por onde correm muitas fronteiras”.

Ela viveu em vários países ao longo da vida, mantendo com a Áustria uma relação dúbia. Em “Exílio”, diz: “Eu com a língua alemã/ com essa nuvem à minha volta/ que considero casa/ vago por todas as línguas”.

A obra de Bachmann contém não só referências históricas, mas também filosóficas. Tendo escrito um doutorado sobre Heidegger, suas repetições do vocabulário do autor não são gratuitas. Ela também foi influenciada pela Escola de Frankfurt, por Theodor Adorno em especial.

Cavalcanti ainda acerta ao dizer que “o vasto material documental à disposição” — sobretudo as cartas— expôs a obra de Bachmann a “uma interpretação por vezes redutora”. Se é fundamental situá-la em determinado contexto, é um erro soterrar sua individualidade.

Apresentações de Bachmann são quase sempre obscurecidas pelas relações afetivas da autora, em especial a que manteve com o poeta romeno Paul Celan. É compreensível, uma vez que o vínculo marcou a obra de ambos. No entanto, pôr a ligação com Celan em primeiro plano é a melhor maneira de perder Bachmann e seus livros de vista.

Poucas autoras tematizaram a violência —física e psicológica— associada ao machismo de forma tão poderosa quanto Bachmann. Nem todos concordam, claro. Há tantas leituras diferentes de sua produção quanto há personas da autora. Segundo uma delas, na obra de Bachmann os homens simbolizam o racionalismo totalitário, enquanto as mulheres, meras figuras histéricas, representam o sonho e o delírio.

Mas a autora (que alguns associaram ao surrealismo) extrai das possibilidades do inconsciente boa parte de seu poder de surpreender. Suas construções são sempre críticas.

A análise que emerge dessas leituras distintas é rica em implicações para a teoria e a prática feministas.

Pela importância histórica e complexidade da obra, Bachmann é uma das autoras mais indicadas para encetar discussões produtivas. A publicação destes poemas é um excelente começo.

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