Artistas trans querem hackear o mundinho da arte com joias bélicas e pelúcia

Lyz Parayzo e Élle de Bernardini opõem estratégias de atração e repulsa para se estabelecer na cena artística

São Paulo

Élle de Bernardini e Lyz Parayzo são artistas e mulheres trans. Partilham um objetivo. Subverter o mundinho da arte, uma obra por vez.

As duas vêm aparecendo lado a lado numa série de mostras na capital paulista. Só no ano passado, estiveram juntas em "Histórias Feministas: Artistas Depois de 2000", no Masp; no festival Agora É Que São Elas, no Centro Cultural São Paulo; e na galeria Verve, com individuais concomitantes.

Agora em continentes diferentes —Parayzo mora em Paris desde o ano passado—, elas mantêm a sincronia. Enquanto Bernardini abriu sua primeira individual carioca na quinta (5), na galeria Luciana Caravello, Parayzo aterrissa na próxima quarta (11) em Genebra, no Espace L. Suas biografias, no entanto, são bem distintas.

Bernardini, 28, nasceu no interior do Rio Grande do Sul, em Santa Maria. Aos cinco anos, foi matriculada numa aula de balé clássico para meninas. De lá, seguiu estudando a dança até entrar na Royal Academy of Dance, em Londres. Até que entendeu que, por ser transexual, jamais a deixariam chegar ao posto de primeira bailarina. Abandonou as sapatilhas e, depois de enveredar pelo butô, dança japonesa do pós-Guerra, começou a realizar performances.

Parayzo, 25, cresceu em Campo Grande, bairro periférico no Rio de Janeiro, e estudou por três anos no Parque Lage. No coração da zona sul, a tradicional escola de artes plásticas ficava a três conduções da sua casa.

Vem daqueles tempos a prática de Parayzo de invadir espaços institucionais —sua primeira obra foi uma série de fotografias do próprio ânus que, pendurada nos banheiros da escola sem autorização, acabou retirada das paredes.

Era o início de uma cruzada que incluiu atirar por museus e galerias centenas de panfletos em que aparece retratada como prostituta, telefone e endereço substituídos por aqueles da instituição da vez.

"Nunca fui convidada a estar no espaço da arte. Tive que conquistar esse lugar com violência", diz a artista.

Essa violência continua latente nas esculturas que Parayzo produz há cinco anos.

As primeiras delas foram as "Joias Bélicas", unhas de metal afiadas como navalhas e braceletes e gargantilhas que, dentados, provocavam receio dos visitantes que iam abraçar Parayzo na abertura de sua exposição na galeria Verve, no ano passado.

Criadas no ateliê de ourives da sua família, as joias se inspiram em instrumentos de autodefesa de transexuais e travestis do passado. "Mas esses corpos dissidentes sobrevivem na oralidade, não estão em biografias. Então pensei em fazer um resgate deles justamente a partir daqueles que estão nos livros", diz Parayzo.

Assim nasceram as suas "Bixinhas", releitura dos "Bichos" metálicos articulados de Lygia Clark. Aos triângulos e semicírculos da neoconcretista, porém, Parayzo adiciona dentes afiados, formando algo como origamis de engrenagens.

"Não tenho um diálogo com essa história porque amo essas pessoas escolhidas para construir a arte do eixo Rio-São Paulo, mas porque sei que eles vão ver a Lygia Clark na 'Bixinha'", afirma a artista. "Então é uma estratégia de transfigurar os valores desses locais. Porque nunca pude colocar meu corpo neles."

Transfigurar noções pré-concebidas sobre sexo e gênero também está no centro da prática de Élle de Bernardini. Mas se Parayzo aposta no medo, na ameaça, Bernardini seduz os visitantes com suas performances e objetos.

"Acho que são trabalhos antagônicos, mas complementares. Quando as pessoas veem as 'Bixinhas' da Lyz, têm medo de se cortar. Com minhas obras, tenho que pedir para elas não tocarem, passarem a mão."
O desejo é compreensível. Os quadros e esculturas de Bernardini usam pelúcias, feltros, miçangas, borracha, materiais que estimulam o tato.

Além disso, muitas vezes convidam a uma espécie de jogo de adivinhação. É o caso dos desenhos que se espalham nas obras da série "Formas Contrassexuais", batizada em honra ao "Manifesto Contrassexual", de Paul B. Preciado. Seriam seios, bundas e pênis que estão ali?

"Meu objetivo é que as pessoas comecem justamente a se perguntar isso. E a resposta correta é: independe. Porque não é a presença dessas genitálias que determina o que é masculino ou feminino", responde. Além disso, intervém Parayzo, "é só tecido".

Bernardini explica que, por trás desse chamado à interação das suas obras, está uma certa vontade pedagógica. "Não faço meu trabalho para outras manas trans, pois falo sobre o que elas já sabem", diz.

Essa vocação também pode ser vista nas performances de Bernardini —como Parayzo, ela começou a carreira no suporte e, chegando a São Paulo, passou a criar objetos.

Em "Dance With Me", por exemplo, ela se cobre de mel e folhas de ouro e pede aos visitantes que a chamem para bailar ao som de bossa nova.

"Brinco com aquela expressão de não querer ver determinada pessoa nem coberta de ouro. Como o corpo trans é visto como abjeto, transmissor de doença, ele é intocável. Então pergunto: e agora? Os espaços se abrem para mim?"

Vide sua presença institucional e em galerias, eles parecem sim estar se abrindo —para as duas. O desejo delas, no entanto, é que suas obras dependam menos de rótulos de gênero daqui para a frente.

"Não quero que vendam minha arte como a de uma artista trans. Nunca fui numa mostra e vi, num texto curatorial, a descrição da sexualidade, do gênero ou da cor de um pintor macho e hétero", diz Parayzo.

"É igual a essas exposições de que participo, 'Mulheres' etc. Ninguém me perguntou o que eu sou, mas só existem as duas caixinhas, então me colocaram nessa."

Élle de Bernardini: Black and Gold

  • Quando Até 11/4. Segunda à sexta., das 10h às 19h. Sábado, das 11h às 15h
  • Onde Galeria Luciana Caravello, r. Barão de Jaguaripe, 387, Rio de Janeiro
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