As melhores festas dos Estados Unidos agora acontecem online

Por causa do coronavírus, Jennifer Lopez, Drake e outros famosos se divertem em baladas na internet

Sandra E. Garcia
The New York Times

Na noite desta sexta-feira (21), havia um lugar nos Estados Unidos em que era possível tomar parte de uma reunião social e não ter medo de contrair ou disseminar o coronavírus.

Mais de 4.000 pessoas estavam presentes, entre elas estavam famosos como Jennifer Lopez, Drake, Naomi Campbell, Diddy, Mary J. Blige, DJ Khaled, T.I., Queen Latifah e Tracee Ellis Ross.

A entrada era gratuita, não havia seguranças nem consumação mínima, e você podia participar de pijama, do conforto de sua casa.

A festa, chamada Homeschoolin, era fácil de encontrar: bastava ir à conta do DJ D-Nice no Instagram.

Desde o dia 18 de março, Derrick Jones, 49, mais conhecido como D-Nice, vem fazendo “jam sessions” de uma hora de duração, via streaming, de sua casa em Los Angeles. Ele toca todos os sucessos, velhos e novos, mas você jamais ouve a mesma canção duas vezes.

DJ D-Nice se apresenta na Semana de Moda de Nova York em 2015
DJ D-Nice se apresenta na Semana de Moda de Nova York em 2015 - Fernanda Calfat/AFP

Enquanto as pessoas entram e saem de seu stream, ele aproveita para agradecer os profissionais de saúde e as equipes de emergência que estão ajudando os Estados Unidos a enfrentar a pandemia.

Pessoas de muitos dos estados americanos mais populosos estão respeitando as instruções quanto ao isolamento social, para restringir a difusão da Covid-19. Até esta terça-feira (24), mais de 50 mil pessoas foram infectadas nos Estados Unidos, e pelo menos 670 delas morreram.

Sob as novas regras de quarentena, pelo menos um quinto dos americanos foram instruídos a ficar em casa.

Segundo D-Nice, ele só queria tocar. Depois que suas apresentações em festivais como o South by Southwest e Coachella, e outros lugares, foram canceladas, ele sentia falta da energia que recebe da audiência.

“Sentado em casa durante a quarentena, comecei a me sentir vazio”, afirmou. “Não existe coisa alguma que se compare a tocar música e sentir a música.”

A música é uma parte muito importante da vida do artista. Aos 16 anos, ele se tornou membro do grupo de hip-hop Boogie Down Productions, em companhia de rappers como KRS-One e DJ Scott La Rock.

Mais tarde, ele se tornou DJ e começou a cuidar da música e organizar eventos para Barack Obama, Jerry Seinfeld, Dave Chapelle e outros.

Na noite de 21 de março, em uma apresentação ao vivo no Instagram, que permite que os internautas comentem e vejam quem está chegando e saindo do stream, os famosos estavam fingindo estar em uma casa noturna, conversando. Drake comentou que Ciara lhe “devia uma garrafa”.

Os espectadores regulares fingiam que também estavam na festa. Um deles era Jose Morales, 41, que foi dono do lounge APT.78, em Manhattan, e agora dirige uma agência de marketing que leva o mesmo nome.

“Eu me liguei no stream na noite passada e conectei o som dele ao bluetooth da minha casa por uma ou duas horas”, disse Morales. “Ele estava tocando gravações maravilhosas, mas de um jeito que fazia com que um cara comum como eu sentisse estar em uma festa com Mary J. Blige.”

“Todas essas pessoas se conectando e a sensação era mesmo a de que você estava em uma festa com elas, na mesma sala”, ele acrescentou.

Embora muita gente no país esteja tentando manter a distância –em geral de pelo menos dois metros com relação à pessoa mais próxima–, o instinto humano é o socializar, segundo Brittany LeMonda, neuropsicóloga sênior no Lenox Hill Hospital.

“Somos animais sociais, e isso não muda durante uma crise”, disse ela. “Caso a atual situação venha a se transformar em nova norma, teremos de ser criativos quanto a maneiras de nos sentirmos conectados.”

O número de pessoas que estão recorrendo a apps de rede social para sentir essa conexão está crescendo, segundo Stephanie Otway, porta-voz do Instagram. Na Itália, o número de usuários que vêem vídeos ao vivo no Instagram dobrou nas últimas duas semanas, acrescentou Otway.

Nos Estados Unidos, com a disparada no número de casos do coronavírus, Otway disse que o Facebook, empresa responsável pelo Instagram, também havia registrado alta acentuada na comunicação por vídeo, com um crescimento de 70% em relação à semana anterior.

Algumas pessoas estão respondendo à falta de conectividade pela criação de eventos que permitem que participantes sintam união sem pôr a saúde deles em risco.

Irvin Benitez, o produtor de eventos que comanda o The Greatest Day Ever, festival de música de dois dias de duração realizado em Nova York que atrai em média 8.000 espectadores, descobriu uma nova maneira de manter a festa e ajudar seus amigos.

No dia 25 de março, ele ofereceu apresentações ao vivo de 12 DJs, na esperança que os espectadores doem dinheiro a eles em troca da festa digital.

“Muita gente que trabalha nesse ramo vai ter sua principal, fonte de renda afetada porque não é possível realizar eventos públicos”, disse Benitez. “Podemos oferecer diversão às pessoas e podemos ajudar os DJs a faturarem algum dinheiro, para fazer compras ou ir à drogaria.”

Para D-Nice, o que sua festa virtual propiciou foi experiência. “Musicalmente, encontramos uma maneira de usar a tecnologia para unir as pessoas, e isso é uma coisa bonita”, ele disse.

Morales estava simplesmente feliz por ter acesso àquela sala virtual.

“Você sente que enfim foi àquela festa a que nem nos seus sonhos mais loucos teria conseguido acesso”, disse Morales. “E sem ser incomodado.”

Tradução de Paulo Migliacci.

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