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The New York Times Livros

Autobiografia de Woody Allen é engraçada, mas insensível e banal

'Apropos of Nothing' é inacreditavelmente politicamente incorreto quando trata de mulheres

Dwight Garner
The New York Times

O escritor Christopher Isherwood se surpreendeu quando se viu indo à academia durante a crise dos mísseis cubanos. “Parece engraçado estar malhando se vamos todos ser queimados vivos”, escreveu em seu diário.

Durante a crise da Covid-19, me surpreendo por me ver escrevendo uma resenha de “Apropos of Nothing”, a autobiografia de Woody Allen, de 84 anos. Este não é o último livro que vou querer ter resenhado antes de morrer —longe disso.

Em nosso clima moral atual, oferecer-me para fazer uma resenha do livro é como me dispor a ser alvo dardos na Olimpíada em 2021. Contei à minha mulher e minha filha sobre o que pretendia fazer, e elas me olharam, espantadas, como se eu tivesse anunciado minha intenção de ir ao restaurante mais próximo com bufê e lamber o resguardo de vidro que protege as saladas.

Este texto não será um veredito sobre a moralidade de Woody Allen. Já foram escritos muitos textos contendo vereditos. Mas, para que tudo fique muito claro, vou contar a vocês qual era minha posição antes de meu editor me mandar por email um PDF de “Apropos of Nothing”.

Acredito que o relacionamento sexual de Allen com Soon-Yi Previn, filha adotiva de sua companheira de anos, Mia Farrow, relacionamento esse que começou quando Previn tinha 21 anos, foi obviamente um capricho de um homem cujos sais cerebrais estão perigosamente desequilibrados. Ele quase foi empurrado para fora da cultura americana pela porta, mas esgueirou-se de volta por uma janela.

Há evidências incômodas de seu interesse sexual e esforço de aproximação com outras garotas adolescentes. Se esses atos lhe dão vontade de eliminar os filmes de Woody Allen para sempre de sua lista na Netflix, vá em frente.

A acusação de que em 1992 ele molestou sua filha adotiva Dylan Farrow, então com sete anos, é de outro grau de magnitude. Sou da opinião que quanto menos você já tiver lido sobre esse caso, mais fácil será passar julgamento sobre ele.

Sou da opinião de que a Hachette, a editora que comprou “Apropos of Nothing” e depois cancelou sua publicação, agiu com covardia abjeta. Eu gostaria que Nat Hentoff, o defensor absoluto da liberdade de expressão cujas colunas no The Village Voice me levaram a querer fazer jornalismo em primeiro lugar, ainda estivesse entre nós para poder escrever um ensaio de 25 mil palavras sobre o setor editorial por volta de 2020, que seria publicado sob o título irônico de “Perfis de Coragem”.

Então ou me mate agora ou venha comigo –temos um livro a discutir.

Veja a primeira sentença de Allen: “Como Holden, não estou afim de falar dessa merda toda meio David Copperfield, se bem que, no meu caso, um pouco de informação sobre meus pais você talvez ache mais interessante do que ler a meu respeito”.

Qualquer pessoa que tenha lido os livros anteriores de Woody Allen —“Sem Plumas”, “Side Effects”, “Getting Even”— sabe que sua voz no papel é autêntica e natural. É o caso também em “Apropos of Nothing”, pelo menos por algum tempo. Mais para frente, o livro começa a emitir aquele ruído de clique-clique que indica que a bateria está chegando no fim.

Allen nos conduz de sua infância no Brooklyn (seu pai era corretor de apostas e teve uma série de empregos pouco qualificados, enquanto sua mãe trabalhava numa floricultura) até o início de sua vida profissional, enviando piadas a colunistas de jornais.

Ele era ágil, divertido, difícil de superar. Foi contratado como roteirista de humor para programas de televisão, incluindo alguns de Sid Caesar, antes de virar humorista de stand-up e começar a dirigir filmes. Casou-se duas vezes na juventude, com Harlene Rosen e depois com Louise Lasser.

Houve duas coisas nesse material inicial que me surpreenderam. A maioria dos autores de memórias exagera o sentimento que tinham na juventude de serem outsiders. Já Woody Allen, pelo contrário, escreve que, embora você possa imaginar que no colégio ele fosse um nerd solitário, na realidade era muito popular e hábil em vários esportes, especialmente o beisebol.

A segunda coisa que surpreende é o vigor com que ele rejeita a noção de ser qualquer espécie de intelectual. Ele apresenta listas dos autores que não leu, dos filmes que não viu.

“Não tenho insights, não tenho pensamentos elevados, não entendo a maioria dos poemas que não comecem com ‘rosas são vermelhas, violetas são azuis’”, ele escreve. “O que tenho, porém, são óculos de aro preto, e ouso dizer que são esses óculos, somados a um dom de citar trechinhos de fontes eruditas, profundas demais para meu entendimento, mas que podem ser utilizadas em meu trabalho para passar a impressão enganosa de saber mais do que sei, que mantêm esse conto de fadas à tona.”

Como muitos de nossos pais e avôs, Woody Allen é um homem do século 20 vivendo num mundo do século 21. Seus amigos deveriam tê-lo avisado que “Apropos of Nothing” é inacreditavelmente insensível e politicamente incorreto quando trata de mulheres.

Essa insensibilidade começa antes mesmo de o livro ter propriamente começado. Na dedicatória, ele escreve: “For Soon-Yi, the best. I had her eating out of my hand and then I noticed my arm was missing” (em tradução muito, muito aproximada: “para Soon-Yi, a melhor. Eu a convenci a acreditar piamente em mim e fazer tudo que eu queria, então percebi que era ela quem mandava em mim.”). Tive que esfregar meus olhos com meus dedos recém-higienizados com álcool em gel e reler essa segunda sentença.

Quase toda vez que uma mulher é mencionada, há algum comentário gratuito sobre sua aparência. Ainda jovem, ele corre atrás de “gostosinhas boêmias” em Nova York. Ele escreve que quando estava em Londres filmando “Cassino Royale”, de 1967, uma sátira de James Bond, “a gente podia passear na Kings Road e cantar as cocotas mais adoráveis de minissaia”. Cocotas? Fiquei imaginando que qualquer hora ele ia zarpar para a Austrália para correr atrás das “sheilas”.

A respiração ofegante se intensifica à medida que o livro avança. Christina Ricci era “tremendamente desejável”. Léa Seydoux, uma mulher “nota 10+”. Rachel McAdams “parecia US$ 1 milhão, vista de qualquer ângulo”. Allen é capaz de soar como nosso presidente atual.

“Quando você a encontra, tem que abrir caminho no meio dos feromônios”, ele escreve a respeito de Scarlett Johansson, que tinha 19 anos quando Allen primeiro trabalhou com ela. “Não apenas era talentosa e bela, como sexualmente era radiativa.” Ele consegue incluir Penélope Cruz em um filme com Johansson, “elevando ao cubo a potência erótica de ambas”.

Foi a beleza de Mia Farrow, “seu rosto deslumbrante”, que o impediu de enxergar o fato de que, ao seu ver, ela era mentalmente instável, escreve Allen. O material sobre Farrow, Soon-Yi e Dylan ocupa cerca de um terço dessa autobiografia e a drena completamente de oxigênio.

Allen escreve sobre a disfunção presente na família de Mia Farrow. Um de seus irmãos cometeu suicídio; outro cumpriu pena de prisão por abuso sexual infantil. Ele sugere que ela tenha imposto a disfunção a seus próprios filhos, adotados ou não.

“Mia sentia prazer em adotar. Ela curtia a emoção —era como alguém que compra um brinquedo novo”, ele escreve. “Curtia a reputação de santidade, a publicidade em tom de admiração, mas não gostava de criar os filhos e não cuidava realmente deles.” Ele acusa Farrow de negligência e de destratar seus filhos de maneira pavorosa.

Farrow descobriu que Allen estava transando com Soon-Yi depois de encontrar polaroides eróticos de sua filha adotiva no apartamento de Allen. “É claro que entendi o choque dela, sua consternação, sua raiva, tudo”, ele escreve. “Foi a reação correta.” Allen alega que, em sua fúria, Farrow resolveu acusá-lo injustamente de abuso sexual. Ele fala de duas investigações que não levaram a uma acusação criminal.

Diz que passou um teste de polígrafo, enquanto Mia Farrow se negou a fazer o teste. Sobre a ideia de que deveríamos simplesmente acreditar em todas as mulheres, ele escreve: “Conte isso para os Scottsboro Boys” (nove adolescentes negros americanos acusados falsamente em 1931 do estupro de duas moças brancas).

No pior momento deste livro, ele aventa a ideia de que Farrow pode ter dormido com um juiz e um procurador de Justiça para tentar influenciar as opiniões deles durante uma briga pela guarda dos filhos (“acho isso difícil de acreditar, mas tendo a ser ingênuo nessas questões”, ele escreve em tom de falsa timidez).

Allen e Farrow tiveram um filho biológico juntos, Satchel, que hoje se faz chamar de Ronan. “Apesar de ela sugerir que Satchel foi filho de Frank Sinatra, acho que ele é meu, se bem que nunca saberei ao certo”, Allen escreve.

Allen sugere que Ronan foi doutrinado por Farrow para desprezá-lo. Ele alega que Farrow fez Ronan passar por cirurgia plástica para acrescentar alguns centímetros à sua altura, um procedimento que exigiu que suas pernas fossem quebradas mais de uma vez, algo que qualifica de “barbárie”.

Adulto, Ronan Farrow tornou-se jornalista e trabalha com determinação e espírito de justiça para expor os males cometidos por homens poderosos. Allen escreve que ainda gostaria de ter um relacionamento com Ronan, mas cita instâncias do que considera ser a hipocrisia de seu filho.

Sobre uma dessas instâncias, ele escreve: “Ronan Farrow sempre incentivou as mulheres a virem a público para fazer suas denúncias, mas quando Soon-Yi foi a público fazer seu relato, ele não gostou do que ouviu”.

Há muito mais neste livro sobre o qual não há espaço para escrever aqui: o relacionamento de Allen com Diane Keaton; detalhes sobre a criação de muitos de seus filmes; turnês com sua banda de jazz; como foi conhecer Mel Brooks, Pauline Kael e Norman Mailer e comer muitas e muitas vezes no Elaine’s. Ele se lembra de agradecer a muitas, muitas pessoas que o trataram com generosidade ao longo dos anos.

O último terço do livro desmorona terrivelmente. É uma longa apresentação de créditos, uma distribuição de lembrancinhas de festa. Alan Alda é “um ator maravilhosamente talentoso”. Owen Wilson é “maravilhoso, e dirigi-lo é um prazer”. Goldie Hawn é “um grande, grande talento”. Multiplique essas banalidades por cem.

Woody Allen está casado com Soon-Yi há mais de 20 anos já. Eles têm duas filhas adotivas que já estão em idade universitária. Ele escreve que o lado positivo de ser pária é que ele não precisa mais redigir sinopses na contracapa de livros de outras pessoas nem participar de mais painéis.

Diz que consegue conviver com o fato de ser desancado por muitas pessoas porque não lê os artigos. Ele vive numa bolha. Está fazendo um filme novo.

Perto do final deste livro às vezes agradável, ocasionalmente engraçado, triste e um tanto indecoroso, ele escreve: “Tenho 84 anos; minha vida está quase no fim. Na minha idade, estou jogando com dinheiro da banca. Como não acredito em vida após a morte, não vejo realmente nenhuma diferença prática entre as pessoas me recordarem como diretor de cinema, como pedófilo ou não se recordarem. Tudo que peço é que minhas cinzas sejam espalhadas perto de uma farmácia”.

Tradução de Clara Allain

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